Vida de dondoca

Quando entrei na boutique todas se viraram e olharam para mim. A loja estava bem cheia, e naquele ambiente em que só havia mulheres, uma presença masculina realmente destoava bastante. Mas logo deixei de ser alvo de curiosidade. Elas estavam tão ocupadas mexendo em cabides, provando roupas, mirando-se em espelhos naquele gesto típico girando o corpo com as mãos na cintura, que rapidamente deixaram de se importar comigo. O burburinho era bem característico, com todas falando ao mesmo tempo (não sei como conseguem se entender!).

E assim, total peixão fora d’água, fui circulando pelo local até que uma vendedora desconcertantemente bonita veio em meu socorro. “Estamos procurando um vestido para essa mocinha” – disse eu. Minha filha estava comigo e precisávamos desesperadamente de um vestido novo para ela usar na festinha que iria no dia seguinte. Em típica crise adolescente, depois de revirar o armário que vive abarrotado de roupas em estado de total desprezo, ela despejou sua aflição: “Não tenho nada para usar amanhã”.

Resultado: sobrou para mim. E aí, lá estava eu, em plena tarde de um dia útil, num shopping de Salvador, dentro de uma loja cheia de mulheres, na ultra complexa tarefa de auxiliar uma jovem no auge do despertar da vaidade a escolher o bendito vestido. Que situação!

Enquanto ela trocava ideias com a simpática vendedora, que, percebendo minha total falta de jeito, assumiu com extrema habilidade a missão de orientá-la na escolha, sentei-me num confortável sofá, ao lado de uma senhora elegantemente trajada, dessas que parecem já acordar de maquiagem no rosto e cabelos escovados.

Recusei o chá que me foi oferecido pela atendente, mas aceitei o cafezinho que, pelo aroma, parecia delicioso. Naquele momento, observando-me num ambiente daqueles, naquele horário, sentado de pernas cruzadas, xícara de cafezinho na mão, dama chique do lado, foi impossível não rir de mim mesmo. “Meu Deus – pensei – virei uma típica dondoca!”.

Isso porque, há pelo menos uns quatro anos, desde que meus filhos se mudaram para a capital, venho dividindo meu tempo entre Itapetinga e Salvador. Num lugar ficaram meus negócios, em outro meus filhos. Passei a viver num vai e vem de endoidecer. Uma semana aqui, uma semana lá, religiosamente.

Como tenho guarda compartilhada, quando estou na capital, eles ficam comigo, no meu apartamento, em tempo integral. E nesses dias minha vida é mesmo de dar inveja a qualquer grã-fina. De manhã cedo, num carro bacana, os levo para escola; depois sigo para a academia, para o pilates ou para uma corridinha na orla; volto à escola antes do final da manhã para ler os jornais do dia na sala climatizada que fica reservada para a espera dos pais – com exceção das vezes em que algumas mães um pouco mais estressadas fazem do local um poço de lamentações para despejar as preocupações com seus pimpolhos, normalmente é sempre um ambiente bem agradável.

De tarde é hora de levar ele para o inglês, ela para a dança; no outro dia ele para o futebol, ela para o inglês. Levar e buscar. Ainda tem as tarefas de casa, a catequese, as reuniões para fazer trabalho de equipe, o cinema com os amigos, os aniversários dos colegas, etc., etc. É rotina mansa, para preguiçoso nenhum botar defeito.

Felizmente, quando encerro essas minhas ocupações, ao invés daqueles saraus entre damas nos finais de tarde, recheados de doces e aperitivos finos, o que rola mesmo, sobretudo à medida que vai se aproximando o fim de semana, são as rodadas de cerveja com os amigos de longas datas, quase todos marmanjos divorciados e de bem com a vida, mas que nem de longe têm as mesmas atribuições maternais que eu.

O problema é que, toda madame que leva uma vida dessas normalmente tem quem pague as contas para si. Mas, decididamente, não é esse meu caso. Aí chego a pensar em diminuir o ritmo de viagens, para fugir um pouco mais das tentações que o ócio da capital pode me impor. E, claro, para poder seguir firme na batalha diária do trabalho, correndo atrás das patacas, afinal as cantarolas da cigarra são muito boas, mas quem faz sortimento mesmo é o rojão continuado da formiguinha.

Só que, toda vez que me flagro balançando nesse conflito, sempre me vêm à lembrança algumas situações, variadas e dispersas, mas que determinam equilíbrio ao fiel da minha balança. Como ficar mais tempo distante deles agora? Se eu fizer isso, quem vai ser o zagueiro do time do meu filho, logo agora que conquistei a vaga de titular nos babas que rolam todo sábado na quadra do prédio? Quem vai acompanhar minha filha quando ela estiver… “Pai, paaaai”. Eu estava tão absorto em meus pensamentos, que ela precisou me chamar mais de uma vez.

Ela e a vendedora estavam me chamando ao balcão. Com certeza era chegada a hora de pagar a conta, que sem nenhuma dúvida não seria das mais suaves. Fui até lá concluindo minhas divagações, percebendo que posso ser importante para minha filha em outros momentos, mas quando ela estiver precisando comprar um vestido meu papel se resumiria mesmo em digitar a senha do meu cartão de crédito.

Entretanto, depois de experimentar algumas centenas de vestidos, o máximo que as duas conseguiram foi selecionar três modelos, mas definitivamente não conseguiam decidir qual seria o escolhido. E para minha surpresa, para minha máxima surpresa, queriam minha opinião. Por mais gata que fosse a vendedora, ousei discordar da opinião dela e dei meu palpite com os olhos masculinos que talvez estivessem lhes faltando naquele momento, mas sem nenhuma expectativa de que minha sugestão fosse acatada.

E apesar de não ter escapado da resignada tarefa de estourar meu pobre cartãozinho, saí dali com uma enorme sensação de paz de espírito. Porque é nesses momentos discretos, nessas situações que às vezes nos passam despercebidas, que podemos sentir o tamanho da importância da figura paterna. Porque não basta sermos meros pagadores de contas, mas, na verdade, desde uma mínima opinião na escolha de um simples vestido, até os momentos mais destacados, o que somos mesmo é referência para esses pequeninos.

E essa referência não se impõe se não houver presença, participação, convívio, dedicação, entrega. Não se impõe sem trabalho. Por isso, logo afugentei meus pensamentos críticos sobre minha fase de dondoca, para ver ressurgir a certeza de que justamente nessa etapa de agora é que estou envolvido no trabalho mais nobre e edificante de minha vida – a educação dos meus filhos. Tenho trabalhado duro para isso.

Voltamos para casa. Eu sereno, ela numa ansiedade só, para brilhar no dia seguinte. Quanto ao vestido, qual terá sido o escolhido? O da vendedora gata ou o do pai caretão? Vai uma dica: por referência paterna, ela se sente linda até quando veste uma tal camisa tricolor para passar agonia comigo nos nossos domingos futebolísticos no estádio de Pituaçú…

E aí, alguma dúvida?

 

 

* Adriano César Pessoa de Alcântara é advogado

alcantara.adriano@hotmail.com

 

ps – (De coração agradeço aos leitores pelos incontáveis puxões de orelha que recebi por causa de minha ausência nas páginas de Dimensão nesses últimos meses. Peço desculpas. Tirarei o atraso. Prometo!)

 

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