Vicissitudes

kaluAlguém pode até achar estranho a escolha desta palavra como título para um artigo. Longe de mim querer dar uma de metido a besta. É que é realmente uma palavra muito bonita, pouco usual, mas significativa. O escritor João Ubaldo Ribeiro em suas deliciosas crônicas publicadas nos jornais de domingo, escolhia de propósito certas palavras fora do contexto cotidiano, convocando os leitores a darem um passeio pelo dicionário, como exercício de final de semana. Dizia ele que era bom para enriquecer o vocabulário, não deixando de denotar um certo conhecimento e um pouco de erudição. Como nem todo mundo possui ou gosta de consultar dicionário, o que não é o meu caso, que aprecio por demais folhear meu Aurelião, vou ser bem generoso com meus parcos leitores, dando aqui uma mãozinha (ou como diziam os mais antigos, um adjutório), no significado da palavra em questão. Vamos ver o que nos diz o Aurélio. Vicissitude S.f (substantivo feminino), que significa: 1. Mudança ou variação de coisas que se sucedem; alternativa. 2. Eventualidade, acaso, contingência; lance. 3. Mudança, transformação, alteração. 4. Acidente desfavorável; revés. 5. Instabilidade ou volubilidade das coisas. Vejam quanta coisa uma simples palavra nos ensina e nos enriquece. Quando e como devemos empregá-la? Há certamente algumas mudanças e transformações que vem ocorrendo em nossa cidade. As pessoas estão perdendo a generosidade, estão ficando apáticas, individualistas e insensíveis. Nascemos, vivemos e morremos. Até há algum tempo quando perdíamos entes queridos ou figuras representativas da nossa cidade, a população participava em peso para dar o último adeus a essas pessoas. Faziam questão de acompanhar o velório e o féretro até o final, segurando um pouco na barra do caixão, como forma de respeito e amizade à família. Era um último adeus, a última homenagem carregada de emoção e lágrimas. Hoje em dia, com raríssimas exceções, mal comparecem ao velório e retornam às suas casas como se houvessem feito um enorme sacrifício. Raros são os que acompanham o enterro até o final. Por que as pessoas estão se comportando desta maneira? Por que estão perdendo o amor, a consideração e o respeito por figuras tão ilustres da nossa comunidade? Estão ficando cada vez mais distantes de Deus ou será que é tudo tão simples como dizer: Morreu, acabou. Triste realidade.

Aqui uma citação sobre o amor, nas palavras de William Shakespeare: “O amor só é amor, se não se dobra a obstáculos e não se curva à vicissitudes… é uma marca eterna… que sofre tempestades sem nunca se abalar.”

Para aqueles que ficam representa e muito uma palavra de conforto, um abraço ou até mesmo um simples aperto de mão. Quando as pessoas se vão, ficam em nossas lembranças o que de bom nos foi legado. A bondade, a generosidade, a compreensão, o carisma e sobretudo a amizade. Isto faz com que sejam lembrados com admiração e respeito. Quando se vão são sempre lembrados por amigos e parentes, com uma frase de consolo:

“Perdi um grande amigo…”

“Lá se foi um companheiro…”

“A cidade ficou mais pobre…”

“Vai fazer muita falta…”

“Foi-se embora tão moço, com muito ainda para ensinar…”

Isto é que faz a vida valer a pena. Ser amado e querido em vida e lembrado com saudade na ausência. Que a cidade atente bem para isto e passe a agir de forma diferente, reverenciando com amor, carinho e respeito os nossos mortos.

* Carlos Amorim Dutra

carloskdutra@gmail.com

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