Uma verdade relativa

A publicidade difundida pelos carros de som vinculados à campanha pela reeleição do candidato do PT a Prefeito de Itapetinga transmite uma mensagem atribuída ao ex Presidente Luiz Inácio com a afirmação de que o país mudou bastante nos últimos anos. Ressalte-se, de logo, o quanto é salutar ao país o reingresso de Lula na vida política da nação, ouvir a sua voz, rouca e agressiva, como manifestação de sua plena capacidade física, após vencer grave moléstia. Afastado das atividades que mais gosta de exercitar, por certo, se sentia ele como um peixe fora d’água. Creio até que a alegria de saber que estava livre para participar das campanhas dos seus candidatos favoritos deve ter produzido, em seu íntimo, efeito mais eficaz que muitos dos medicamentos prescritos por seus médicos, ao longo de sua enfermidade.

É evidência indiscutível de que, nestes últimos anos, o Brasil experimentou, nos mais diversos setores, e de modo especial em sua economia, um salto em seu desenvolvimento. Todas as publicações atestam essa conquista. Tanto que insistir, e de forma simplória, como se faz como subsídio político eleitoreiro, país a fora, e também por estas bandas, no uso de tal afirmação, como se novidade fosse, é apenas esquentar gasto refrão.

Como a afirmação volta à baila, trazendo a clara motivação de tonificar, através da palavra de Lula, alguma candidatura meio capenga, recomenda o bom senso receber com as devidas cautelas esse ufanismo tupiniquim para não passarmos o atestado de que este país só foi descoberto a partir de 01 de janeiro de 2003 e que não conheceu outros governantes senão aqueles que filiados à legenda do PT. Assim como a edificação de uma casa é feita tijolo a tijolo com a ação de várias mãos, o progresso de um país resulta da soma do trabalho de seus governantes, cada um assentando, a seu modo e segundo a sua capacidade e vocação, o tijolo de sua contribuição. Desconhecer, ou desprezar, a participação dos antecessores é, antes de tudo, atentar contra a verdade histórica e, de modo particular, dar asas aos sonhos de megalomania.

Ao se festejar os avanços alcançados nos últimos anos, melhor dizendo, últimas décadas, não se pode esconder o quanto estamos longe de registrar as necessárias conquistas em infra estrutura. Basta conferir o caos em que se constituem os nossos aeroportos, por onde irão embarcar e desembarcar milhares e milhares de turistas nos próximos seis anos, durante a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas, eventos que tivemos a audácia, mais acertado seria dizer irresponsabilidade, de patrocinar. E os nossos portos, sucateados e desaparelhados? Dezenas e dezenas de navios são vistos aguardando, por dias e semanas, oportunidade para atracarem, coalhando as nossas belas baías para fundo de vistosos cartões postais. E as esburacadas rodovias cortando este pais de norte a sul ou de leste a oeste, pondo em isco a vida de cansados motoristas e fazendo a alegria dos borracheiros de beira de estrada? E as ferrovias? Encurtadas na exata proporção da visão dos nossos governantes, os mais recentes. Citamos esses quatro itens porque foram, recentemente, objeto de projetos da atual Presidente que, compreendendo a limitação do governo em tocá-los com a eficiência que garanta a superação de suas deficiências, resolveu confiá-los à iniciativa privada, mesmo com o eufemismo de denominar essa transferência de concessão, como se verdadeira privatização não fosse.

Não se calcula o grau de desenvolvimento de um país apenas pelos números de sua economia. A riqueza de um Estado é o seu povo; pouco conta um país rico se o seu povo é pobre, não goza de boa saúde e são escassos os seus recursos em educação. Mas a situação não é diferente, embora o mesmo seja o enfoque governamental, nos setores de saúde pública e educação. A televisão, cumprindo a sua missão de denunciar os desmandos e mostrar a situação real da população, mostra, quase todos os dias, esgotos correndo a seu aberto, infestando de tantos males crianças e adultos. E ainda há aqueles governantes, aconchegados ao conforto da bandeira petista, que, mesmo recebendo projetos prontos e com recursos contratados ou depositados em contas bancárias, simplesmente os desprezaram porque frutos da atuação e do trabalho de quem os precedeu no poder.

O país mudou e para melhor essa é uma verdade, porém não absoluta, como, em rápidas palavras, anotamos acima. E esta mudança não é resultado da ação isolada do Poder Executivo, como procura subliminarmente dar a entender a publicidade dos carros de som. Os nossos costumes, especialmente os costumes políticos, registram consideráveis avanços por força da atuação segura, consciente e severa, do Poder Judiciário, aplicando corajosamente leis oriundas da vontade popular, como a Lei dos Fichas Limpas, ora submetendo a julgamento políticos comprometidos com a corrupção e desmandos de toda ordem, como ocorre no momento, com os famigerados mensaleiros, membros de criminosa facção criada e alimentada na sombra do poderio petista.

E como quando se fala de governo não se pode pensar isoladamente em Governo Federal, é importante que se frise que nesse bolo se incluam os Estados e os Municípios e, neste rol, a nossa querida Itapetinga, serpenteada pelas outrora belas curvas do Rio Catolé, um moribundo pedindo socorro para sua sobrevivência, mas cujos apelos não chegam à Prefeitura Municipal. A nossa cidade, entregue ao PT nas últimas eleições, exibe os seus velhos problemas, cuja solução tanto prometeram e agora repetem a promessa, problemas não resolvidos, mas agravados e seus males jogados para debaixo do tapete da incompetência ou da ausência de vontade política em enfrentá-los.

 

 

* Laécio Sobrinho é advogado

lalsoadv@hotmail.com

 

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