Uma história para ser escrita e cantada. (Grupo Pau de Arara, 40 anos)

Sem título-2Nesta semana, encerra-se um ciclo de três edições dedicadas à música regional. O primeiro “Estilo em busca de espaço”, o segundo “Grupo Pau de Arara, 40 anos – 1ª parte. E, para concluir, ainda sobre os 40 anos desse grupo que marcou a cena da cultura regional, especialmente final dos anos 70 e nas décadas de 1980 e 1990, com suas músicas e projetos nas escolas e bairros da cidade, em shows e participação em festivais.
Já seria bastante a influência, incentivo, revelação e ter no currículo participação de artistas como Mão Branca e Juá da Bahia, nossos maiores cantadores. Mas, soma-se a esta história uma série de prêmios. Em 1980, em Nova Canaã, 1º lugar, com a música “A peleja dos três homens”. Em 1983, 1º lugar, festival promovido pelo Jornal Dimensão, com a música “O milagre desse chão”, letra de Gilson de Jesus e música de Ademilson. No ano de 1990, venceu com a música de Teto Machado, “Conquista’, em Vitória da Conquista. E ficou em terceiro lugar na cidade de Caratinga-MG, com a música “Marcha da esperança”, letra de Gilson de Jesus, música de Zé Barbosa. Tem um CD gravado, “A peleja”. Outro ainda se encontra no forno “e$perando” oportunidade.
No teatro, foram vários espetáculos, como a peça “A exceção à regra”, de Brecht, “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, “Aquele que diz sim, aquele que diz não”, Bertold Brecht , e os recitais “Canto da terra” e “Cante lá, que canto cá”.
As conquistas e histórias do grupo são tantas que já poderiam pensar em um livro. Assim, escolhemos dois depoimentos de participantes. Um da primeira fase (teatro) e outro da formação musical atual.
A consciência e participação política do Pau de Arara, especialmente da primeira formação, foi tão forte, que seus membros, muitas vezes, não conseguem dar depoimento sobre esse momento da cena cultural de Itapetinga, sem lembrar o período vivido pelo país. Zélito , hoje morando na França, ao ser indagado sobre sua participação no Grupo , começou dizendo:
“Em 1977 o Brasil ainda governado por Medici, vivia um dos períodos mais violentos da ditadura militar, com sequestros, tortura e a imprensa, música, teatro, cinema submetidos à censura. Assim, nenhuma ou muito pouca informação chegava à população e minha geração vivia a ilusão de morar num “País abençoado por Deus e bonito por natureza”.
Lembrou que “apesar do contexto político, Itapetinga possuía uma vida cultural bastante interessante, com dois cinemas e o Clube da ACI, espaço onde eram apresentados recitais de poesia, peças de teatro e espetáculos de MPB.”
Confessou que foi através do Grupo Pau de Arara a descoberta da cultura brasileira e do clima político do país. Foi ali onde conheceu a poesia de Patativa do Assaré, as peças de Augusto Boal, a MPB… Foi ali onde descobriu o que acontecia por trás da cortina de ferro, nos porões da ditadura. “Nós fazíamos um programa na Rádio Jornal aos domingos ‘A voz dos estudantes’ com uma programação que apresentava música popular brasileira e latino americana. (…) Fazer teatro para minha geração nesse contexto, nada tinha a ver com um ego trip (ser ator, ficar conhecido, aparecer no jornal…)”.
A missão daquela geração era divulgar a cultura brasileira e tentar mostrar a um público todas as derivas do nosso País no que concerne à democracia e ao (des)respeito dos direitos humanos.
Caros leitores, eu não poderia deixar de lado a narração a seguir, por trazer uma das funções de importância da arte, que é o despertar da consciência crítica. “Lembro de uma peça de Bertold Brecht ”Aquele que diz sim, aquele que diz não”, apresentada numa sala na nova Itapetinga, que foi bem representativa do nosso trabalho. Depois da performance, houve um debate com o público sobre o texto que abordava a questão de aceitar ou não as tradições e a importância de dizer não, quando essas não faziam sentido diante da realidade. Naquela noite, havia na sala algumas lavadeiras. Antes da chegada das máquinas de lavar, as famílias de classe média e alta pagavam (uma miséria) para que a roupa suja não fosse lavada em casa… pois bem, no final, após uma longa e interessante discussão, elas decidiram aumentar o preço do serviço de maneira coletiva e exigir melhores condições de trabalho.”
Lúcio Paulo Lima (Loló), é da nova geração. Tocava em pequenas bandas daqui e da região, até ser convidado por Teto Machado para se integrar ao grupo. A sua chegada coincidiu com a saída de Juá para carreira solo. Quanto a importância de participar desse grupo afirmou: “é imensa! Para mim é o grupo cultural mais importante da nossa região , sem querer desmerecer outros movimentos culturais.” Loló concluiu dizendo ser um grande desafio fazer uma homenagem justa para comemorar os 40 anos do grupo.
Como todos do Grupo Pau de Arara, nós do meio artístico e comunidade, esperamos uma mobilização para uma programação digna de sua representatividade na música e cultura regional.

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