Um presente vergonhoso

Como já nos acostumamos o final de ano, aqui no Jornal Dimensão, chegou com trabalho dobrado. Enquanto precisamos manter funcionando nossas atividades normais com nosso hebdomadário e com os serviços da gráfica, temos, também, que nos desdobrar para confeccionar a nossa já tradicional Revista Dimensão. Como não poderia ser diferente, nosso tema este ano é o aniversário de 60 anos de emancipação política da nossa cidade. Para construirmos nosso conteúdo, convidamos alguns amigos e parceiros para contarem, em nossas páginas, algumas de suas principais lembranças. Um punhado de bons textos nos chegou relatando um passado glorioso e a história de homens sérios, íntegros e guerreiros que fizeram, com muito trabalho e muita dedicação, desta, uma terra “vitoriosa que, sem temer rumores, lutou firme, sem desfalecer”, como canta o nosso hino. Muitos dos nossos convidados aproveitaram o espaço para desejar à sexagenária Itapetinga progresso e desenvolvimento. Ao terminar a leitura dos textos recebidos, no entanto, tudo que mais desejei à nossa cidade foi que ela voltasse ao passado.

Isso mesmo! Queria ver de volta aquela Itapetinga que vem enchendo as páginas da nossa revista de orgulho. Ainda quero conhecer homens capazes de abdicar de suas terras e seus bens em prol de uma cidade próspera. Quero acreditar que ainda exista alguém com determinação para trabalhar pela política local sem nenhum interesse menos digno do que o bem comum.

A realidade que nos salta aos olhos atualmente é bem diferente daquelas histórias de pioneirismo recheado de heroísmo que tive o prazer de ler. Esta semana, nossa vergonha foi ainda mais exposta. Na quarta-feira, as contas da Prefeitura de Itapetinga foram rejeitadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios em razão da grande quantidade de erros cometidos pelo prefeito. O relator do processo contra o gestor do nosso município aplicou multas das mais diversas para algumas das usas infrações mais graves. Por não ter reduzido a despesa com pessoal, o prefeito deverá pagar R$ 46.800,00. Mais de R$ 24.000,00 deverão ser pagos porque a prefeitura afirmou ter gasto com publicações que nunca existiram. Por atrasar o pagamento de algumas obrigações municipais, juros e multas no valor de quase R$ 15.000,00 foram-lhe, também, imputados. A prefeitura de Itapetinga tem problemas ainda com o pagamento de multas e ressarcimentos impostos pelo Tribunal, um relatório de controle interno deficiente e o atraso dos demonstrativos orçamentários e de Gestão Fiscal.

Nenhum problema, no entanto, pode ser tão grave quanto o que diz respeito à educação. Segundo o Tribunal de Contas, os municípios devem usar, no mínimo, 60% dos recursos vindos do FUNDEB, para pagamento da remuneração dos profissionais em efetivo exercício do magistério. Em Itapetinga, no entanto, os professores não receberam nem, ao menos, o mínimo estipulado por lei, numa demonstração mais do que clara da desvalorização da, talvez, mais importante profissão. Por esta razão, o prefeito deverá devolver aos cofres públicos algo em torno de R$ 765.000,00.

A mais nobre das profissões no rol das gloriosas ocupações que integram o universo da Educação está a um passo de entrar em colapso. O magistério nunca esteve tão desmotivado e nem nunca foi tão vilipendiado como tem sido na 6ª maior economia do planeta. Se os municípios começarem a reduzir ainda mais os já baixos salários, vamos começar a conviver com um caos no magistério.

A sociedade também é responsável pelo problema. Ao invés de enfrentar este cenário com a seriedade que o tema merece, intensificando as cobranças tanto dos agentes públicos quanto dos privados, prefere se omitir do processo, quando entrega às escolas o ingrato papel (que é seu) de educar os próprios filhos.

Nosso presente tem se mostrado cada vez mais vergonhoso. Nossa população votou na reeleição de um prefeito que durante quatro anos esteve envolvido com denúncias de corrupção, CPI, desvios de verbas públicas, obras eleitoreiras. O povo esbraveja por melhores condições para a saúde pública, mas aceita que um prefeito gaste, em uma só licitação, mais de quarenta mil reais do setor para a confecção de camisas. Pede educação de qualidade, mas aceita – e referenda com o voto – uma gestão que desvia quantias absurdas do FUNDEB.

Itapetinga, um município de passado glorioso, está em seu presente, comprometendo seriamente a Educação e, o que é pior, o futuro que estamos reservando aos nossos descendentes. Triste que seja assim.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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