Um ministro trapalhão e contraditório

Antes mesmo de ocorrer o desfecho das investigações sobre as denúncias de corrupção no Ministério dos Esportes, outro foi alvo de denúncias nos últimos dias. Desta vez, foi o Ministério do Trabalho, sob a acusação de supostamente manter convênios irregulares com ONGs. Na berlinda está o ministro Carlos Lupi (PDT), apesar de as denúncias terem recaído sobre seus assessores. Desde o início do atual governo, no poder há pouco mais de 11 meses, seis ministros deixaram seus postos. Nenhum deles, no entanto, foi tão trapalhão e contraditório em seus depoimentos. As declarações de Lupi são uma sequência bizarra de falhas e gafes típicas do quarteto atrapalhado liderado por Renato Aragão.

Ao advertir que só bala de grosso calibre o derrubaria, Lupi pôs inimigos e desafetos para trabalhar e novas acusações apareceram. A diferença das primeiras denúncias – que indicavam haver um esquema de extorção no ministério, mas não incluíam diretamente o ministro – para as mais recentes é que a última leva o envolve diretamente, em sua atividade à frente da pasta. O pedetista perde seu principal argumento: o que lhe permitia repetir que não sabia de nada. A denúncia de concessão de registro para sindicatos fantasmas no Amapá parece se encaixar neste caso. Os atuais dirigentes da endinheirada Federação da Indústria do estado não gostaram de ver a chapa oponente engrossar fileiras com os registros que Lupi concedeu.

Os sindicatos inventados para permitir a disputa pela Federação ameaçaram perigosamente a re-eleição dos atuais dirigentes. E a história foi parar nos jornais no pior momento para Lupi, apresentada como um caso de concessão irregular de registros sindicais – o que é possivelmente apenas parte da verdade, mas, certamente a versão mais conveniente dela, para alguns interessados.

Lupi iniciará a terceira semana de acusações mais fraco do que terminou a primeira. Houve um momento em que o escândalo parecia esgotado, mas outras “balas” estavam por vir. E haveriam de mostrar contradições constrangedoras na defesa do ministro, como negar a carona no jatinho contratado por um dirigente de ONG, e depois ser confrontado com a foto em que aparece desembarcando da aeronave, com seu conhecido jeito pimpão. Depois daí, uma série de mentiras – as quais o ministro chama de “lapso de memória” – foram desmascaradas.

Na quarta-feira, 16, ao final da manhã, depois da audiência com a presidente Dilma Rousseff, no Planalto, o ministro Lupi havia prometido entregar no Senado, no dia seguinte, quinta, 17, as provas (notas fiscais) de quem pagou os voos feitos em dezembro de 2009. O deputado Weverton Rocha (PDT-MA) disse, por meio da assessoria de imprensa, que o partido estava providenciando as provas que seriam apresentadas por Lupi na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Mas as notas fiscais não apareceram.

O ministro Lupi havia dito que o primeiro trecho da viagem pelo Maranhão foi em um avião Sêneca e que o diretório regional do PDT bancou a despesa. Igor Lago, presidente do diretório estadual, disse que não há nenhum pagamento do PDT do Maranhão bancando aviões.

O King Air, usado no segundo trecho da viagem de Lupi, em dezembro de 2009, pelo Maranhão, pertence à empresa goiana de táxi aéreo, Aerotec. O dono da Aerotec, Almir José, disse ao Estado que o cliente que contratou a aeronave foi a Pró-Cerrado, uma ONG do empresário Adair Meira, que já recebeu cerca de R$ 14 milhões em convênios com o Ministério do Trabalho de Lupi. Adair disse ao Estado que não pagou pelo aluguel da aeronave e que só indicou a empresa Aerotec para o ex-secretário de Lupi, Ezequiel do Nascimento, que teria sido o contratante do King Air.

A sucessão de enganos, mentiras, contradições ou lapsos de memória começam a complicar ainda mais a vida de Carlos Lupi e aumentam a artilharia sobre ele. O ministro começa a se tornar um peso para o governo e para o PDT. Ele, que se definiu como “pesadão”, mostra que, neste caso, estava certo.

“Por sorte” o país continua sem grandes crises de ingovernabilidade. E a presidente continua a ser uma boa gestora, mesmo enfrentando tantos problemas em seus Ministérios – e com o do Trabalho, qualquer tentativa de explicação a respeito do que poderá acontecer seria meramente especulativa por ora. A cada ministro que cai, é notório que Dilma consegue virar o jogo a seu favor; ao invés de enfraquecer, fortalece sua imagem – inclusive frente à opinião pública – e é sobre ela que recaem os louros da faxina.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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