Um julgamento que ficará na história

É só abrir os jornais ou ligar a televisão e as notícias que pareciam ter se perdido no tempo ressurgem como pauta principal nos noticiários. Nada hoje tem mais destaque do que o Mensalão, assim como aconteceu há mais de 7 anos.

Em 2005, provas e provas de crimes apareciam de modo contínuo durante meses. O fato realmente assustador na época era que os acusados ocupavam vários dos principais cargos da Administração Pública Federal. Nunca, na história brasileira, foi descoberto um esquema tão complexo de corrupção e que envolvesse tantas autoridades proeminentes. No período das denúncias, tornou-se bem palpável a hipótese de estarmos sendo governados por uma organização criminosa. O nível de organização, os lucros elevados, o entranhamento na máquina governamental, a ocupação em atividades lícitas e ilícitas eram características presentes no chamado “Mensalão”.

O escândalo, que teve início em maio de 2005, apareceu na mídia como um caso de corrupção localizado nos Correios. A divulgação de um vídeo no qual o diretor da estatal Maurício Marinho, apadrinhado do então deputado Roberto Jefferson (PTB), aparece cobrando propina a um empresário, expôs um esquema de beneficiamento de empresas em licitações fraudadas e desvio de verbas. O caso, porém, explodiu com uma entrevista de Jefferson ao jornal Folha de S. Paulo, em junho do mesmo ano, na qual o presidente do PTB descreve um esquema de compra de votos parlamentares.

O PTB já era base do governo Lula e indicava os nomes para as diretorias dos Correios. A entrevista de Jefferson teria sido uma resposta a fim de tirar o foco de seu partido. É pouco provável, porém, que o falastrão deputado tivesse consciência que aquilo desataria o tsunami de denúncias e revelações quase diárias que se seguiriam nas semanas seguintes. Foi-se revelando então o intrincado esquema do “valerioduto”, o mecanismo comandado pelo publicitário Marcos Valério para irrigar as campanhas eleitorais do PT e aliados e ainda alimentar o “mensalão”.

Os autos estudados pelos ministros do STF, sete anos depois do ocorrido, não apenas mostram que houve Mensalão. Revelam também seus motivos. O Mensalão aconteceu porque o projeto do PT determinava o controle absoluto do poder. Para atingir esse objetivo, o Partido dos Trabalhadores, que ganhara o governo, precisava do apoio do Congresso. Havia um pedaço do Congresso disposto a se vender – e se vendeu. Foram comprados em boa parte com dinheiro público.

Sabemos que os esquemas financeiros da política brasileira são condenáveis por várias razões, a começar pela principal: permitem ao poder econômico utilizar-se do poder político para atender a seus interesses. Os empresários que contribuem com campanhas financeiras passam a ter deputados, senadores e até governos inteiros a seu serviço, o que é lamentável.

Nesta quinta-feira, os envolvidos nesse imenso e bem condenável esquema financeiro estão em julgamento. Na lista de acusações, 7 crimes típicos de nossa história política e administrativa, por isso essa atenção toda sobre como a suprema corte da nação vai julgar. As atenções da opinião pública não constrangem os juízes, que têm mantido uma posição sem pré-julgamento, sem pré-conceito e o ritmo foi o normal para um caso tão grande.

Indubitavelmente, o simples recebimento da denúncia já é um fato histórico. Nunca, na história do STF, houve um julgamento com tantos réus, com um relatório tão extenso e que durasse tantos dias. Não se trata somente do maior processo nos 121 anos de história do tribunal, mas também do caso mais complexo – e de maior impacto político – que terá sido levado ao exame da corte. Quando terminar de julgar os 38 réus, cada ministro terá enfrentado depoimentos de mais de 600 testemunhas, ponderações de meia centena de advogados e, no mínimo, um mês de sessões plenárias.Somente esses dados superlativos já o qualificam como um marco. Além disso, a decisão do STF é rica em significados. Pode-se citar,entre outros, a atuação da imprensa, a independência do Judiciário e a crise de legitimidade dos Poderes Executivo e Legislativo. E a questão crucial é o que o Estado brasileiro fará com isso: pode simplesmente desprezar o acontecido e manter as velhas práticas políticas e talvez até piorá-las, ou pode ser um passo importante em nosso lentíssimo processo de transformação de uma civilização digna desse nome. Refletir sobre isso, hoje, pode não ser mais que um mero procedimento especulativo, mas, quem sabe, no futuro possamos perceber que foi em agosto de 2007 que muitas coisas começaram a mudar.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

Tags: , ,

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário