Um grande evento cultural

Era final da Metacc XIV quando escrevi, nesta Página Dois, sobre minha admiração e grata surpresa ao ver a apresentação que os alunos da Cooedita haviam preparado. Na época, contei sobre os personagens que vivi e o quanto amador era cada uma das apresentações que preparávamos cheios de idéias, mas com um montante bem menor de recursos, inspiração e talento. Descrevi nossas salas cobertas com lonas pretas e nosso jogo de luz sem muito sentido e mal elaborado. Falei ainda sobre a nossa tentativa de dispensar a indispensável ajuda dos professores e o desastre que essa nossa “rebeldia e independência” causavam. Tentei mostrar o quanto a Mostra havia se desenvolvido desde 1995, data da sua criação.

“No último domingo, saí da Cooedita verdadeiramente impressionada. Aquela Mostra Estudantil da qual participei por tantos anos havia tomado forma de um grande evento cultural que deveria ser incluído no calendário municipal”, escrevi. Este trecho e todo o restante daquele texto escrito em 2009 poderia muito bem ser reescrito este ano, reiterando minha felicidade em ver crescendo o tão valioso projeto. Comparando a deste ano com as anteriores posso constatar que a Metacc, assim como um antigo bloco carnavalesco que meu pai costumava citar, “cada ano sai melhor”. E, em sua 16ª edição, a mostra continua a surpreender.

Este ano, a escola foi toda transformada em um agradável ambiente bem anos 60, com direito a cantina retrô e música ao vivo com o que a década nos trouxe de melhor em repertório. Nossas tendas mal feitas e remendadas que já não existiam mais em 2009, não deixaram nem lembranças desta vez. Nossos figurinos amadores e improvisados ficaram bem escondidos em nossas recordações para não passarem pela constrangedora comparação com os atuais. Aqueles stands dentro das salas típicos de feira cultural também ficaram apenas nas fotos. Todas as apresentações foram concentradas em um palco único localizado na quadra, quadra essa que não passava de projeto quando eu encarnava Sherazade, Afrodite e outras personagens. Havia microfones para todos, iluminação e coreografias muito bem organizadas por profissionais, textos e falas impecáveis.

A desenvoltura daqueles meninos também foi surpreendente. Como as crianças estão mais preparadas para falar em público do que nós estávamos naquela época! A festa organizada pelos pequeninos do Fundamental para o aniversário da Mônica animou até os que estavam na platéia. O discurso proferido pelo pequeno Juscelino Kubitschek tinha entonação perfeita, muito superior ao que se espera de uma criança de 10 ou 11 anos. A lua foi vista de uma maneira bem romântica pela sexta série. Como aqueles meninos declamaram bonito as poesias… A sétima série contagiou a todos com as celebridades da época. Os Beatles estavam simplesmente impecáveis, sem esquecer da Marylin Monroe cheia de sensualidade, do pessoal da jovem guarda e de tantos outros sucessos da década de 60. O primeiro ano científico como sempre se destaca com suas coreografias mais elaboradas, seus passos mais maduros e suas falas mais seguras. O segundo ano se despediu da Metacc com uma festa de arromba que certamente vai ficar nas mais doces lembranças de cada um dos alunos, assim como as minhas apresentações têm lugar mais que especial em minhas memórias. Foi “uma brasa, mora?”. Os meninos tinham uma desenvoltura pouca esperada de adolescentes que acham tudo “mico” e as meninas uma graça e um sorriso maroto bem anos 60. Tudo parecia uma festa das mais animadas.

Mas foi a turma da oitava série que me fez pensar por mais tempo sobre o tema. A ditadura militar foi, sem dúvida, um divisor de águas na nossa história. O texto forte sobre os desaparecidos políticos apresentado pelos adolescente conseguiu comover até quem se quer participou do período. A dor das atrocidades do regime militar deixa marcas em todos, de todas as épocas. Serve de exemplo e estímulo para buscarmos um Brasil melhor a todo custo. Não nos deixa esquecer que a opção dos brasileiros pela democracia era – e é – inegociável.

Somos frutos de uma geração que lutou contra a ditadura, censura, repressão e tortura e passou pelas amarras do AI-5. Na década de 60, o movimento estudantil foi a vanguarda do protesto social, na medida em que a sociedade civil tinha seus principais órgãos representativos sob intervenção. Só o movimento estudantil continuou suficientemente forte e organizado para mobilizar outros setores civis em prol de reinvindicações democráticas. O movimento era a vitrine da insatisfação diante do autoritarismo vigente no país. Precisamos dar continuidade, de maneira digna, ao que nossos pais e avós conquistaram com muito suor, muita luta e, algumas vezes, com muito sangue. É impossível ignorar um período de tantas lutas e de inúmeras conquistas. Não se pode esquecer uma década com tantas “mudanças, encantos e desencantos”.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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