Um discurso pelo respeito

Sem título-1Eu poderia ocupar este meu espaço semanal com mais notícias sobre a Lava Jato, com a análise relâmpago da defesa de Dilma Rousseff feita pelo relator do impeachment Jovair Arantes ou com o discurso insano de Janaína Paschoal. Quem acompanhou as notícias dessa semana, apenas pela Rede Globo, certamente não viu a enxurrada de despautérios espalhada pela advogada que discursou nesta segunda, em São Paulo, em um ato a favor do impeachment. Janaína, autora do processo de impedimento contra Dilma, berrou pela queda da presidente e, invocando Deus, afirmou que era preciso “cortar as asas” de Lula. O vídeo viralizou na internet. Mas, pelo jeito, constrangeu até os apoiadores do extermínio petista que não noticiaram o trágico “show” protagonizado por Janaína. O discurso de Janaína é, para mim, mais uma evidente demonstração do estado mental de descontrole e ódio em que se encontra boa parte dos brasileiros, inclusive a médica que se recusou atender uma criança de um ano de idade pela posição política da mãe do paciente, que contei no texto da semana passada.
Mas hoje eu não quero aqui destacar nenhuma fala grosseira, rancorosa ou ofensiva. Quero destacar, ao contrário, a história de um menino de 14 anos que espalha tolerância e respeito quando fala.
O programa Altas Horas, liderado pelo apresentador Serginho Groisman, semanalmente convida algum “anônimo” para participar de uma espécie de sabatina feita pela plateia formada por adolescentes. Aleatoriamente, os jovens vão se pronunciando e criando suas perguntas livremente a cerca do tema que levou o convidado ao palco do programa. No último sábado, dia 02, um garoto de 14 anos, chamado André Lodi, participa de um debate sobre casais homoafetivos. Ele é fruto de uma reprodução assistida, filho de duas mulheres homossexuais.
As perguntas foram surgindo tranquilamente, ilustrando o senso comum e as curiosidades típicas adolescentes, até que um menino, provindo de uma família que ele definiu como “normal”, questiona-o sobre como foi o “choque” ao perceber que tinha duas mães. A resposta de André é simples e certeira: “quando você percebeu que tinha um pai e uma mãe?”.
O ar indiferente e até blasé do menino André Lodi, ao ser questionado sobre como é ter duas mães, carrega uma mensagem bem mais contundente do que pode parecer à primeira vista. “Há de se chegar o momento em que uma pergunta como essa cause absoluto estranhamento, e mesmo certo um azedume em quem a ouve, sendo então reconhecida como a exceção, e não a regra. A televisão, como esta plataforma privilegiada para a normalização dos discursos da cultura, tem um papel fundamental nessa transformação”, como afirmou a jornalista e professora Maura Oliveira Martins.
A reprodução assistida ou a adoção por homossexuais é uma questão bastante discutida. Há quem diga que pais homossexuais causariam problemas psicológicos em seus filhos, já que estes teriam como exemplo um comportamento “errado”. Baseado nesse ponto de vista, chega-se à conclusão que a criança não teria uma referência comportamental correta e passaria a ter tendência ao homossexualismo. Ainda se levanta a possibilidade da criança ou adolescente sofrer preconceitos e ter vergonha de sua própria origem. Todas as fundamentações se baseiam única e exclusivamente no preconceito em relação a orientação sexual de uma pessoa, sem levar em conta posições legais ou científicas, e, principalmente, a afetividade. Não percebem, no entanto, que até pouco tempo, jovens homossexuais tinha sido criados por casais heterossexuais e o exemplo do comportamento “correto” não foi determinante para a orientação sexual dos filhos, assim como também não seria em caso de pais homossexuais. Esquecem também, que as crianças adotadas por homossexuais foram abandonadas por casais heterossexuais e, certamente, receberão muito mais amor e dedicação do que receberam em toda a sua curta história de vida.
Aqueles que rejeitam a adoção por homossexuais devem perceber que casais homoafetivos são cada vez mais comuns, e que as relações familiares continuam se baseando no amor e no afeto, independentemente de quem forma a família, se um casal heterossexual ou dois homossexuais; a capacidade de amar e ser amado é a mesma.
Em relação a eventual comportamento diferenciado por parte do adotado por família homoafetiva, já foram realizados estudos que comprovaram que a felicidade e o comportamento do adotado são resultado da forma como a família vive e não em como ela é formada. Já foi cientificamente comprovado que pessoas criadas por pais de mesmo sexo são tão afetivas quanto aqueles criados por pais de sexos diferentes. Estudos realizados na Califórnia, desde 1970 – olha como nosso preconceito está ultrapassado – a sexualidade dos pais não interfere na personalidade dos filhos.
A participação de André no Altas Horas registrou um daqueles momentos de tapa na cara da sociedade preconceituosa e desinformada. A serenidade e segurança ao responder cada pergunta mostrou-nos a riqueza da criação a qual esse menino teve o prazer de ser submetido. Em alguns minutos ele conseguiu provar que, como afirmou Adriana Esteves, presente no programa, “filho se faz com amor e parceria” e isso em nada tem a ver com orientação sexual. Por mais discursos de tolerância e por menos ódio e preconceito.

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário