“Têm-se um campo eficiente tolhido por uma infra-estrutura incompatível”

modelo 1Dimensão- O atual governo tem tido um olhar cuidadoso para a agricultura no Brasil?

Adriano Alcântara – Infelizmente não. Há algumas ações que de certa forma satisfazem o setor, como a disponibilidade de linhas de crédito razoavelmente adequadas às necessidades do campo. Porém, essas mesmas linhas vêm com um formato de contratação que dificulta o acesso ao crédito para uma boa parcela dos produtores, o que acaba inviabilizando sua aplicabilidade.

Por outro lado, o governo se mostra muito complacente com inúmeras ações, flagrantemente ilegais e abusivas, praticadas contra a ordem no campo, que criam um quadro de insegurança, reduzindo sensivelmente a perspectiva de possíveis investimentos no setor. Isso em escala nacional representa um prejuízo incalculável, pois o Brasil, que é o país com maior potencial para produção agropecuária no mundo, acaba ficando muito aquém da sua capacidade. Perdas impossíveis de se quantificar.

 

D. – Alguns especialistas afirmam que, apesar do investimento anunciado pela presidente, o Brasil ainda não tem estratégias para a agricultura. O que falta para que o país desenvolva o setor?

A.A. – Falta, primeiro, uma política efetiva de garantia de preços. Isso decorre da ausência de uma estratégia mais eficaz na construção das relações comerciais externas, voltadas para assegurar um amplo mercado de exportações aos produtos agropecuários. Porém, mesmo assim, a pujança da agropecuária é tão poderosa, que o setor já representa um dos mais significativos percentuais na balança comercial do Brasil, encabeçando inclusive o PIB nacional.

Todavia o grande gargalo para a agropecuária no Brasil é mesmo a falta de infra-estrutura. As malhas rodoviária, ferroviária, e a hidroviária do país são absolutamente precárias, o que compromete toda a logística de escoamento da produção. Os portos nacionais funcionam também precariamente, onerando todo o processo de exportação. Enfim, têm-se um campo cada vez mais eficiente, quebrando recordes atrás de recordes, tolhido por uma infra-estrutura nacional nitidamente incompatível com a grandeza desse setor, porque obsoleta e mal conservada.

 

D – O governo anunciou, no ano passado, um investimento de mais de 20 bilhões no Programa Fortalecimento da Agricultura Familiar. O que este programa representa para o desenvolvimento do setor?

A.A – A agricultura familiar representa uma categoria dentro do agronegócio de inegável importância, e todos os investimentos que forem destinados a esse segmento são muito bem vindos. Tão importante quanto os grandes, médios e pequenos produtores, são os componentes da agricultura familiar, pois é essa diversidade que mantém o equilíbrio no campo. Porém, não basta apenas e simplesmente alocar recursos para esse segmento. Acima de tudo, é necessária a implantação de um programa de desenvolvimento muito mais completo, envolvendo educação, capacitação e assistência técnica para os membros da agricultura familiar. Só isso lhes dará verdadeira capacidade produtiva, e, consequentemente, renda satisfatória e boa qualidade de vida. E só assim é que se estará realmente promovendo o desenvolvimento da agropecuária como um todo.

 

D – Itapetinga tem acompanhado a contento o desenvolvimento da agricultura no país?

A.A. – Eu diria que sim. Ainda há um razoável número de propriedades rurais em nossa microrregião que precisam se modernizar. Porém, o que já se percebe, e com muita nitidez, é que a grande maioria dos produtores rurais locais já assimilou a necessidade premente de imprimir evolução às suas propriedades. E esse quadro já é uma realidade consistente por aqui. Há uma corrente poderosa que tem transformado a região, conciliando os recursos naturais que sempre fizeram de Itapetinga um eldorado para a pecuária, com os recursos tecnológicos necessários para praticar uma agropecuária moderna e produtiva. Esse é um movimento transformador definitivo, que tem elevado cada vez mais o patamar produtivo de nosso município. Com isso Itapetinga continua cada vez mais se reafirmando como a verdadeira capital da pecuária no estado da Bahia.

 

D – A agropecuária ainda é a nossa principal economia? Se sim, podemos esperar um maior desenvolvimento econômico por conta do seu crescimento?

A.A – Sem dúvida que sim. Em âmbito nacional nem se precisa comentar, pois é justamente o agronegócio o grande propulsor da economia, representando o mais expressivo percentual de participação na construção do PIB, e sendo o maior responsável pelo superávit em nossa balança comercial.

Aqui, em âmbito local, a agropecuária consolida-se como a base de toda a microrregião. E uma base sólida, consistente, capaz de atravessar gerações, assegurando emprego e renda. Empresas, por maiores que sejam, às vezes vêm, às vezes se vão. O campo é fixo. E é esse campo que abriga aqui em Itapetinga a maior concentração de bovinos por hectare no Brasil.

 

D – Estamos em pleno processo político eleitoral. Como o Sindicato Rural de Itapetinga irá se posicionar?

A.A – O Sindicato Rural de Itapetinga, enquanto instituição, se mantém em sua linha de não praticar política partidária. Essa postura vem sendo adotada há alguns anos pelo atual grupo que compõe a direção do Sindicato e talvez seja uma das razões de seu sucesso. Assim, o Sindicato se coloca aberto a todos os representantes políticos e todas as correntes partidárias; todos passam a ser bem vindos, desde que estejam comprometidos com o engrandecimento da agropecuária em nossa região. A política do Sindicato é estritamente classista, voltada para os interesses da categoria dos produtores rurais, seu partido é o do produtor rural.

 

D – Sendo assim, e então Adriano Alcântara, não como presidente do Sindicato Rural, mas como cidadão, já tem seu posicionamento?

A. A – É importante que se estabeleça essa distinção entre o ocupante do cargo de Presidente do Sindicato Rural e o cidadão. Como presidente, sigo as diretrizes que norteiam a instituição e, por isso, não me utilizo das prerrogativas que esse cargo me confere para praticar qualquer ato político.

Porém, como cidadão, e como itapetinguense, tenho total liberdade e independência para fazer minhas escolhas, atuando como agente ativo e participativo. Nesse perfil tenho a satisfação de fazer parte de um grupo altamente qualificado, formado por cidadãos de bem desta cidade, que até então não tinham nenhum envolvimento político, mas que perceberam a necessidade de participar de forma mais efetiva e direta do processo político eleitoral. Um grupo inteiramente novo, que está demarcando seu espaço, para dar sua contribuição, apontando e criticando erros, mas, sobretudo, propondo idéias e soluções.

Nesse grupo temos as nossas candidaturas, que estão sendo apresentadas à comunidade. Todavia, o mais importante, o essencial, é termos a intenção de construir um projeto consistente de desenvolvimento para nossa cidade e para nossa região. É nisso que estamos focados, e é para isso que estamos trabalhando.

 

D – Finalmente, têm surgido muitos comentários de que seu nome seria apresentado como candidato à prefeitura de Itapetinga nas próximas eleições. O que há de verdade nisso?

A.A – Tenho sido muito questionado quanto a isso e encaro esse comentário como um reconhecimento da comunidade ao trabalho desenvolvido pelo grupo que vem dirigindo o Sindicato Rural nos últimos anos, promovendo, dentre várias outras ações, o resgate da nossa Exposição.

No momento, estou inteiramente voltado para cumprir da melhor maneira possível o meu mandato de presidente do Sindicato Rural, pois sei que assim, junto com nossa diretoria, estaremos dando nossa contribuição para a cidade.

Porém, o que deve prevalecer, acima de qualquer coisa, é a consciência de que isso não pode ser encarado como um projeto pessoal de quem quer que seja. Dentro desse espírito estarei sempre pronto para dar minha contribuição, independentemente de estar ou não exercendo algum mandato eletivo, pois tenho senso de coletividade e nunca fui homem de fugir de desafios.

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