Suverteu

Não é comum dizer que isto ou aquilo suverteu, pelo menos nos dias atuais. Já em tempo não muito remoto este linguajar era bem corriqueiro. “Procurei minhas enxós a morrer e não encontrei. Parece que suverteu”, dizia meu pai quando não encontrava a tal ferramenta que tanto precisava. Isto quando não sumia de vez e ele atribuia o sumiço a algum dono do alheio que por ventura a levava. Se alguém toma um chá de sumiço, também se diz que suverteu e não deu mais notícias. Por falar em enchó me lembrei de muitas ferramentas que eram guardadas lá na fazenda, em local específico, no tão falado quartinho das ferramentas, que com o passar do tempo foi acumulando outras tranqueiras e passou a ser conhecido como museu. Quando algo não servia mais, não era jogado fora e sim levado para o museu, na esperança de que um dia ainda tivesse alguma utilidade. Pedaços de arame, grampos usados, chaves velhas, cadeados, pedaços de corda, ferros que não prestavam mais. Ali se guardava de um tudo, desde: enxadas, enxadões e enxadecos, serrotes, serrotões e traçadores, alavancas, picaretas, livião, pás, cavadeiras, pés-de-cabra, rastelo, ancinho, gandanho ou seja lá que nome for, facão, foice e machado e também machada, martelo, marreta, torqueza, torquezão e alicate, pua, plaina, trado de mão, formigão para colocar na venta do gado, ferrão, ferro de ferrar, correntes para medir cerca, esticador, prumo, nível, pedra de amolar e até um esmeril.

Agora a coisa é bem mais moderna. A pua e o trado de mão deu lugar às furadeiras elétricas. Serrotão e traçador foram substituídos pelo moto-serra. Furar morão de curral com trado dá um trabalho do cão e é coisa do passado. É certo que há muitos que ainda utilizam tal ferramenta, mas em número bem reduzido. O serrote ainda mantém uma certa posição de destaque.

Além das ferramentas o nosso museu servia também para guardar os arreios e outros utensílios: Selas, bacheiros, cabrestos, cabeção, chicotes, chibatas, taca, cruvelanas, bridas, esporas, caçuás (panacum), cangalhas, baldes de armazenar e tirar leite, que nos velhos tempos ficavam lá mesmo, da noite para o dia, no sereno ou em currais cobertos, rebuçados ou tileiros, no tronco ou pendurados em algum varão de cerca, juntamente com os laços, o arreador e o banquinho de sentar, que ninguém roubava. Hoje em dia quem cair na besteira de deixá-los expostos, ficarão sem eles num piscar de olhos. Sempre se diz que desde que o mundo é mundo havia ladrões. A própria bíblia faz referência. Mas, o fato é que parece haver ladrão prá bater de pau. Tem ladrão saindo pelo ladrão. Se rouba de tudo. O famoso ladrão de galinha perdeu o status e deu lugar para um tipo mais agressivo e de má índole, que não se contenta apenas com o roubo, partindo para a agressão e destruindo tudo que encontrar pela frente. É o mundo da selvageria. Roubam nas cidades e no campo. Muitos fazendeiros, donos de sítios ou de chácaras protegem as propriedades de todas as formas. Mesmo assim criou-se a impressão de que nada dá jeito em ladrão, nem mesmo a prisão, pois, em poucos dias, com a impunidade que impera, estão de volta às ruas como se nada tivesse acontecido. A única esperança é se apegar na crença divina, pois somente Deus é quem pode nos guardar. Isto me fez lembrar das noites e mais noites vividas lá na Fazenda Liberdade, ouvindo histórias e casos na balaustrada da casa, com a luz da lua ou um simples candeeiro ou fifó aceso, vendo o brilho e o farolzinho dos vagalumes a piscar na noite, e ao longe as corujas cantando. Tudo no maior sossego e tranquilidade. Com o passar do tempo veio o Aladim, o lampião de gás e a energia elétrica que trouxe mais alegria e segurança, mas também um número enorme de mosquitos e mariposas que rondavam as lâmpadas. Surgiram então umas lâmpadas amarelas que afugentavam os mosquitos. Mas isso tudo é coisa do passado. Nem mesmo nas fazendas se tem sossego e tranquilidade.

Para não dizer que também suverti e para dar o ar da graça, mais uma das minhas histórias para vocês.

 

 

* Carlos Amorim Dutra (Kalú) é médico Cardiologista, médico do Trabalho e músico

e-mail: carloskdutra@gmail.com

 

Um comentário para “Suverteu”