Nossa história

“Era 11 de julho de 1971, e a gente tinha a cabeça cheia de sonhos e idéias. Quando se é jovem, são poucos os impossíveis. A ousadia e a audácia às vezes causam desastres, mas são capazes de operar milagres. Este jornal é, de certa forma, um bom exemplo de improbabilidade tornada possível pela força de um ideal e pela irreverência da juventude”Flávio Scaldaferri

Ele chegou a Itapetinga em 30 de abril de 1968. Era um domingo de Exposição Agropecuária na cidade. Passou no Parque Juvino Oliveira para dar uma olhada na festa, nos animais, mas estava cansado, precisava arrumar a mudança e ajeitar tudo para começar uma nova vida. Jovem, recém formado, cheio de sonhos. No dia seguinte, fez sua placa e colocou em cima da mesa: “Flávio A. S. Scaldaferri: Advogado”. Começavam suas atividades profissionais.

Saído da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, Flávio chegara a Itapetinga a convite de Carlos Pedreira Lapa, advogado veterano, amigo da família de longa data, desde o tempo em que residiam em Itambé. Lapa estava pretendendo voltar ao exercício da advocacia após alguns anos de afastamento.

A Itapetinga que encontrou era uma cidadezinha jovem e pouco desenvolvida mas com muito potencial de crescimento. Tudo parecia ainda começar a se estruturar. A cidade tinha um aspecto rural, rodeada de grandes fazendas de pecuária e de muitos sítios, mas o encantara. Não somente pelo aspecto físico – esse, talvez, ainda deixasse muito a desejar, mas pela sua história. Homens vindos dos mais diversos pontos da Bahia e de outros estados chegaram à cidade, encantaram-se com a beleza natural do lugar, tiveram a sensibilidade de acreditar na sua potencialidade, trouxeram uma imensa disposição de trabalho que transmitiram aos seus descendentes. Com esse lastro, fizeram a cidade, e porque a fizeram com trabalho pessoal sentiram-se como parte dela. Daí o impulso que davam às suas iniciativas em favor do seu progresso. Essa ligação do homem criador com a cidade criada é que a tornava ainda mais bonita.

A política local era um exemplo dessa força de transformação que o município possuía. Todos se sentiam um pouco donos daquela terra e defendiam, cada um a seu modo e com suas convicções, o seu direito de governá-la e de tentar impulsioná-la. Flávio chegara à cidade já contaminado pelo “vírus político”. Logo ao chegar a Itapetinga, se destacou entre os manifestantes que haviam se revoltado com atos de tortura e terrorismo da Polícia Militar.

Dois anos depois da manifestações, já em 1970, veio a campanha política que resultou na vitória do Pe. Altamirando para a prefeitura de Itapetinga. Altamirando Ribeiro dos Santos havia chegado à cidade no ano de 1962, como o novo pároco da Igreja Nossa Senhora das Graças. Muito rápido conquistou a simpatia dos fiéis e, principalmente, da comunidade estudantil que via nele um símbolo de renovação política e maior transigência no trato de assuntos burocráticos.

Flávio envolveu-se por inteiro na defesa das idéias da campanha do padre. Junto ao amigo e colega, o também advogado Emerson Campos, e alguns colaboradores, começou a fazer um jornalzinho intitulado “Padre Altamirando”.

Nos comícios, além de pronunciar belos discursos, serviu como apresentador de oradores, em várias ocasiões. Era o mais entusiasmado e alegre da linha de frente daquela campanha. Vieram as eleições, o Padre Altamirando foi parar na Prefeitura. Passados cinco meses da posse do popular vigário, quatro companheiros – Flávio Scaldaferri, Laécio Alves Sobrinho, Evandro Andrade e Emerson Campos – se reuniram e, com a ajuda financeira de Juvino Oliveira, fundaram um jornal em Itapetinga. Na mesma oportunidade, foi escolhido o nome “Dimensão”. Era o ano de 1971, mês de julho, quando o jornal circulou pela primeira vez, com lançamento na Coopardo. Naquele instante, Laécio disse com firmeza que “o jornal Dimensão veio para ficar”. Foi uma segunda-feira, dia 12 de julho de 1971 (a primeira edição foi datada de 11 de julho), 17 horas.

A primeira edição esgotou nas bancas em poucas horas. Flávio contava a notícia aos amigos cheio de orgulho e satisfação. Mas não tinham tempo para comemoração. Era necessário correr para fechar a próxima edição. O jornal era impresso em Itabuna. Todo o material precisava ser levado para a gráfica, na quarta-feira, por Evandro Andrade que, na época, tinha um escritório de assessoria naquela cidade. Na sexta, quando Evandro voltava a Itapetinga, trazia o Dimensão pronto para ser distribuído, nas bancas, no sábado pela manhã. “Flávio, como uma máquina turbinada, corria aqui, corria ali, corria acolá, para juntar tudo que era produzido, mostrando uma grande força no sentido de ver ´Dimensão´ cada vez mais forte e vibrante”. (Emerson Campos – “A história de Dimensão e Flávio Scaldaferri )

As dificuldades de manter aquele hebdomadário em uma cidade de interior exigiram, daqueles que o confeccionava, muito jogo de cintura e um esforço inenarrável. Todo o Dimensão era feito entre o domingo e a terça-feira de cada semana. Eram apenas três dias para discutir pauta, selecionar matérias, ir às ruas, colher as informações necessárias, redigir e montar o semanário. Na busca de alternativas para facilitar o trabalho e baratear os custos, o grupo arrendou uma antiga tipografia em Itambé, que já estava desativada há muito tempo. Para tornar possível a impressão do jornal, os responsáveis por sua confecção tiveram que enfrentar até os ratos que comiam a gelatina com que eram revestidos os rolos da velha impressora.

As aventuras daquele jornaleco pareciam estar apenas começando. Mas começaram, também, a aparecer as dificuldades financeiras. Então o Dimensão deixou de ir às bancas após cinco meses de circulação resumidos em 18 edições.

Mas o jornal não haveria de morrer. Flávio era “jornalista por vício”, como costumava dizer. Durante quase cinco anos ele se inquietou. Nesse período, montou a “Dimensão Gráfica e Editora” que, entre outras coisas, editava e imprimia o “Gazeta da Semana”, um jornal irreverente e descontraído que, defendia as propostas do MDB. Mas a falta de recursos – sempre ela… – levou os seus fundadores – Ubaldino Coelho e Thomaz Monte – a desistirem da empreitada. Tudo levava a crer que estava sepultada mais uma frustrada tentativa de fazer imprensa escrita em Itapetinga. E seria esse mesmo o final da história se não fosse o inconformismo de Flávio e o protesto de Hidelbrando Oliveira que topou envolver-se na aventura.

A cidade crescia e a necessidade de um jornal continuava a desafiar a inteligência e a capacidade das pessoas que aqui passaram a viver e que acreditavam no seu desenvolvimento. Era preciso arranjar soluções, meios para financiá-lo, corrigir erros anteriores, trabalhar em dobro, em triplo, em quádruplo e em quanto mais fosse necessário. O que não podia era deixar o jornal acabar assim. O sonho e as “horas de ócio advocatício” fizeram Flávio tomar uma decisão: O Dimensão iria voltar a circular mesmo que fosse aos trancos e barrancos.

Não passou mais de uma semana entre a morte do Gazeta e o renascimento do Dimensão.

Escancaradamente opinativo

“Nossa opinião foi sempre expressa claramente, e sempre procuramos transmitir os dados que nos levaram a adotá-la. Evidentemente que conseguimos, em cada edição, desagradar a muitos e entusiasmar a outros tantos. Felizmente houve sempre a alternância das correntes políticas entre satisfeitos e descontentes. Acreditamos no poder da palavra e vamos procurar tornar-nos fortes, para nos constituirmos, aqui, de fato, no quarto poder que a imprensa representa”. – Flávio Scaldaferri

Era 06 de junho de 1976 quando o jornal Dimensão voltou a circular. Manteve-se no mesmo formato tablóide, com diagramação bem semelhante e com a mesma média de páginas por edição semanal. Vinha, agora, de “maneira descontraída e consciente de sua insignificância”. Já não defendia anteriores ideais político-partidários. Padre Altamirando havia deixado a prefeitura e o semanário não mais era formado por um grupo político. Flávio assumira, sozinho, a direção, edição e responsabilidade pelo Dimensão. O seu dono e editor passou a utilizar o jornal para dizer as coisas que pensava, sobre os fatos ou questões que lhe parecessem dignos de comentários.

Para garantir o direito de expressar sua opinião claramente, ele decidiu montar um pequeno parque gráfico. Em 1976, encontrou numa revista a publicidade de um equipamento que prometia revolucionar a indústria gráfica, utilizando um novo processo de impressão que dispensava os antigos tipos móveis inventados por Gutemberg. Foi uma das primeiras gráficas em offset do interior da Bahia. No final da década de 70, ele já dispunha de modernos equipamentos que permitiam a elaboração e execução de todas as etapas que compõem a feitura de um jornal. Todo o processo gráfico, a partir da diagramação, passando pela composição eletrônica, fotolitagem, impressão e acabamento, era realizado dentro da empresa. O Dimensão era feito, desde a coleta das notícias pelos repórteres até a distribuição, utilizando pessoal e equipamentos próprios. E eram os serviços da gráfica que bancavam os custos e cobriam os buracos deixados pela insuficiente receita do jornal. “Isso, evidentemente, nos dá uma autonomia e uma independência invejáveis, requisitos que reputamos indispensáveis para a consolidação de um veículo de imprensa”. (Dimensão Sul, 25.02.89).

No dia em que o jornal retornou às ruas, Flávio ficou da janela do seu apartamento observando a receptividade desse novo lançamento. Dali conseguia enxergar a principal banca da cidade. Via a movimentação dos leitores. A praça Augusto de Carvalho era ponto de encontro e discussões. Desceu do 5º andar do prédio Juvino Oliveira e se juntou àqueles que recebiam de maneira curiosa e ansiosa o primeiro número da nova fase do Dimensão. Percebeu a expectativa que o jornal causou na população, como ele movimentou a cidade e, principalmente, a responsabilidade que teria que assumir se decidisse, realmente, levar o projeto com a seriedade e com a importância que ele merecia ter. E foi exatamente assim que decidiu agir.

No último dia de 1977, Dimensão já chegava ao número 100. No comentário publicado naquela edição, Flávio ressaltou que o jornal “se arraigou e se entranhou na vida e nos hábitos da população de Itapetinga. Virou costume para muitos, vício mesmo para alguns”. Mais de 1600 números depois, o vício permanece. Itapetinga pareceu se acostumar e se encantar com o caráter escancaradamente opinativo, parcial, na medida em que, sem pretender apenas noticiar, toma partido, aplaude ou critica, defende ou condena.

O Dimensão sempre adotou uma postura de engajamento político e de defesa dos interesses de Itapetinga. Para isso, analisava de perto cada passo dos governantes da cidade. A posição que o jornal defendia era expressa claramente em toda e qualquer ocasião, seja de maneira explícita na linguagem utilizada, ou na omissão ou super-exposição de fatos, fatores e personagens.

Quando renasceu, em 76, o Dimensão manteve uma postura de eqüidistância política. A partir de 77, no entanto, quando José Espinheira assumiu a prefeitura pela terceira vez, o jornal viveu uma fase de franca e dura oposição ao então prefeito. Nos dois governos de Michel Hagge, resolveu apóia-lo abertamente, desde sua campanha até o final do segundo mandato. Entre os mandatos de Michel, assumiu a prefeitura José Marcos Gusmão, também eleito com o apoio do grupo político de Flávio, mas com o qual romperia no meio do período governamental, passando novamente a atuar como oposição decidida e clara. Manteve-se opositor, também, nos dois governos de José Otávio Curvello, o primeiro em 1997 e o segundo em 2001. Em seguida, o jornal assumiu-se, novamente, como posição, apoiando o terceiro mandato de Michel. Hoje, volta a franca oposição de idéias, com o governo de José Carlos Moura. Com todas essas naturais idas e vindas o Dimensão persistiu, ao longo dessas quatro décadas, sem jamais submeter seus princípios e suas convicções a qualquer interesse menos digno.

Evidentemente, tomar partido claramente fez com que o jornal conseguisse, em cada edição, entusiasmar a muitos e desagradar a outros tantos. Nada, no entanto, fez com que a independência deixasse de ser uma das principais características mantidas e ressaltadas durante todos os anos de permanência do Dimensão. Segundo Flávio, a “imprensa deve ser absolutamente livre e o jornalista deve dispor de todos os direitos e garantias que lhe assegurem total liberdade no exercício de sua função. Limites prévios de nenhuma maneira devem prendê-lo”. Assim conduziu o Dimensão: sem “senhores ou patrões”. Mantendo-o às próprias custas, defendendo suas próprias opiniões a respeito da política local e dos demais acontecimentos da cidade.

Sem vocação para avestruz

“Quem estiver disposto a fazer algo mais do que simplesmente enfiar a cabeça na areia deve dar-se conta de que os problemas que nos afligem são de tal magnitude que será impossível resolvê-los individualmente. Ou os itapetinguenses assumem decididamente a idéia e coletividade, compreendem que há uma inseparável interligação de destinos entre os que aqui vivem, ou Itapetinga vai, daqui a pouco, virar mesmo uma cidade dormitório” – Flávio Scaldaferri

O editor do jornal Dimensão não se preocupava apenas com a política partidária da cidade de Itapetinga. Acreditava que naquele promissor município caminhos amplos poderiam ser abertos. Não havia como não se encantar com aquela cidadezinha de hábitos e costumes tão peculiares. Era impossível não se envolver com seus problemas e não querer buscar soluções para eles.

Como possuía um veículo de comunicação nas mãos, Flávio resolveu fazer da força desse jornal algo além do que simplesmente informar a população sobre os acontecimentos locais. Foi a partir daí que criou o Sistema Dimensão de Comunicações. Sob a mesma marca do jornal, começavam-se a reunir outras ações que tinham como principal objetivo auxiliar na formação de uma identidade cultural forte para aquela jovem cidade. O Jornal Dimensão buscava alternativas para abarcar os mais diversos setores da sociedade, através das mais diferentes formas de comunicação.

Em 1979 surgiu, então, a idéia de promover a I Mesa Redonda Sobre os Problemas de Itapetinga. Na semana de aniversário da cidade, o jornal decidiu homenageá-la. Pensou-se em algo mais do que os tradicionais cadernos laudatórios. Flávio resolveu, então, convidar algumas pessoas que ali viviam, trabalhavam e se dedicavam a fazer de Itapetinga uma cidade mais acolhedora e mais humana. Chamou algumas pessoas importantes – não pela posição ou cargos que ocupavam, mas pelo que representavam como cidadãos – para juntos discutirem os problemas da cidade.

No dia em que Itapetinga completou 27 anos, os 17 componentes da mesa discutiram temas relacionados à economia, à estrutura fundiária, drogas, educação, saúde e cultura. Transcorreram-se quatro horas do mais produtivo debate sobre os mais variados temas da atualidade. “Uma radiografia de corpo inteiro de Itapetinga. Foi, no nosso julgamento, um documento da maior importância. Com todas as possibilidades de vir a se tornar um marco histórico. Nele, cremos, foi lançada uma breve semente que dará excelentes frutos”.

E, com certeza, os frutos vieram. O trabalho foi tão salutar que motivou a formação de novas mesas de discussões. Nos anos de 1980, 81 e 84, novas reuniões aconteceram. Mudaram-se, claro, alguns nomes que compunham a mesa, mas o objetivo era sempre o mesmo: reunir pessoas que se destacasse em diferentes setores para buscar soluções para os mais diversos problemas que a cidade apresentava. Itapetinga era uma cidade que, apesar de pequena e ainda pouco desenvolvida, tinha grandes qualidades, pela força, pela vontade, pela ânsia de progresso que o povo carregava.

Não se sabe, ao certo, o real motivo dessa iniciativa não se estender por muitos anos mais. Talvez o momento tenha passado e Itapetinga, madura de 30 anos, já não comportasse tais debates. Talvez as discussões haviam se esgotado e começava a chegar a hora de por em prática as soluções encontradas.

Em 1984, lazer era algo difícil de encontrar em Itapetinga. Não havia teatros, nem espetáculos com música ao vivo; não se encontravam bons restaurantes, nem bons pontos de encontro. Havia apenas um cinema mal conservado. Era preciso, então, reunir gente interessada em melhorar a situação. Para Flávio, isso era fácil. Existiam várias saídas, as mais variadas, baratas, práticas e fáceis. Bastava procurar e querer.

E dessa vontade surgiu o I Festival de Música. O jornal Dimensão de 31 de março de 1984 anunciava: “O circo da Coca-Cola, gentilmente cedido pela direção da fábrica de Ibicaraí, chega nesta manhã de sábado a Itapetinga para abrigar o I Festival de Música do Interior, promoção deste jornal que começa sábado próximo, dia 7 de abril, com apresentação da ‘Noite da MPB’, espetáculo musical que contará com a participação dos mais destacados músicos da cidade. Será a abertura do ‘Espaço do Festival’ a todas as correntes, tendências e propostas da moderna música popular brasileira”. A notinha da primeira página retratava a euforia com que os organizadores preparavam o evento.

Em 85, o Festival teve sua segunda edição, esse ano em Macarani. O circo da Coca-Cola foi armado na praça da Prefeitura Municipal. Novamente, 40 músicas foram pré-selecionadas e apresentadas nas eliminatórias. O sucesso dessa segunda edição foi ainda maior do que a realizada em Itapetinga. Mas a falta de apoio e de recursos acabou deixando morrer mais uma grande iniciativa.

Foi invenção do Dimensão, ainda, o Canal D, um sistema de televisão montado a fim de criar um programa experimental feito em Itapetinga. Era um canal de expressão para a população, que assim podia ver suas críticas e sugestões divulgadas de forma a obter repercussões e gerar mudanças. Não por um acaso foi escolhido o slogan “Neste canal você aparece”. O povo participava de uma forma direta, identificando-se com o que estava sendo mostrado.

Com recursos técnicos e de pessoal estritamente locais, foram produzidos, durante algum tempo, imagem e som que chegaram a todos os aparelhos de TV de Itapetinga e cidade circunvizinhas. Com o tempo, as dificuldades de montar o programa foram aumentando. A fiscalização tornou-se mais forte e os responsáveis pela edição foram impedidos pela justiça de substituir a transmissão nacional pela programação local. O Canal D passou, então, a ser apresentado apenas pelo Telão, outro projeto do jornal conhecido como “Kombi Nasa”. Dentro de uma Kombi ficava todo o equipamento necessário para montar, editar e transmitir o programa. Em cima dela o telão, daí o apelido para o projeto: o automóvel, com aquela “trapizanga” toda no teto, mais parecia um dos transmissores da Nasa.

Um dos últimos projetos “faraônicos” – como eram chamados pela turma da oficina algumas das invenções do jornal pelo seu tamanho e aparente inviabilidade – foi o de nome “Coisas Criativas”. Partindo da proposta de sofisticar e aperfeiçoar o setor de serigrafia, o jornal acabou desenvolvendo um projeto novo, que juntou computação gráfica à transferência térmica de imagens. Em um espaço de tempo não superior a 20 minutos, era possível fazer uma fotografia digital, trabalhar uma arte na forma idealizada pelo cliente e entregar-lhe uma camiseta de malha estampada com o resultado da criação orientada por ele.

Um dos projetos que durou por mais tempo foi o Troféu Dimensão. Em 1998, como forma de reconhecimento àqueles que se destacaram durante o ano no exercício de suas atividades, contribuindo para o progresso da cidade, o jornal promove um evento com a participação de toda a comunidade itapetinguense.

Procurando encontrar a maneira mais correta e objetiva de ouvir a opinião pública, o jornal pediu a sugestão dos leitores para a definição das regras. Após muitas tentativas, estabeleceu-se que qualquer pessoa poderia votar nas mais de 40 categorias selecionadas pelos organizadores do evento. Em uma urna eletrônica itinerante, os interessados em participar da eleição dos melhores profissionais do ano precisam apenas apresentar o número do CPF e indicar os nomes que acreditam ser merecedores do prêmio.

A primeira edição foi um sucesso repetido nos anos seguintes até 2006. Aos poucos novos projetos iam surgindo e os antigos desapareciam pelas dificuldades encontradas no caminho, por obstáculos que muitas vezes se impunham como intransponíveis.

Mas o Dimensão não se deixava desanimar e muitas outras idéias foram postas em práticas. Todas com a tentativa de formar, em Itapetinga, uma identidade cultural forte e enraizada. Dimensão foi, e continua sendo, memória, quando traz, em suas páginas, o arquivo de tudo que aconteceu na cidade, desde 1971; fantasia, quando cria, inventa, arquiteta e sonha um futuro melhor; narrativa, quando conta casos e relata fatos; e hoje, torna-se um mito pela história que carrega e por ter conseguido resistir com bravura às dificuldades de manter-se numa cidade de interior.

O segredo da sobrevivência

“Ouço muitas pessoas referirem-se às dificuldades que encontram pra tocar seus empreendimentos pela carência de material humano. Digo, com satisfação, que este nunca foi um problema para mim. A turma que consegui reunir e que vem se modificando vez por outra com o passar dos anos constitui, ao contrário, o fator maior do sucesso que conquistamos. Vocês podem até achar que estou como coruja gabando o toco. É isso mesmo. Tenho o prazer, e não é pouco, de falar bem dessa troupe de malucos que me acompanha”. – Flávio Scaldaferrri

Numa pequena empresa como a Dimensão a polivalência e o espírito de amizade e companheirismo são dogmas indispensáveis. Durante todos esses 40 anos de existência, a equipe responsável por confeccionar o jornal foi composta por pessoas da maior envergadura por suas qualidades profissionais e pela fidelidade à causa defendida pelo jornal.

É sintomático notar que nem um só dos membros da equipe tinha tido qualquer experiência jornalística antes de começar a trabalhar no Dimensão. Nenhum deles tinha anteriormente posto o pé numa redação nem numa gráfica. Todos chegaram muito jovens, alguns pouco mais que meninos. Foram, devagar, dominando seu ofício, especializando-se segundo suas aptidões e vocações. Aprenderam fazendo, na prática do dia-a-dia, confrontados com as imposições do momento. Hoje formam um grupo de extrema competência, comprometimento e dedicação.

Fazer jornalismo no interior é um exercício diário de abnegação. Uma luta constante para suprir as deficiências materiais. O Dimensão, até hoje, é confeccionado de maneira bem artesanal. A impressora que a gráfica possui, teoricamente, só permite a impressão em tamanho ofício, mas arranjou-se um jeitinho de utilizá-la para fazer um jornal tablóide. Edmilson Moreira, responsável pela arte final, corta daqui, cola dali, monta, passa durex… E assim o Dimensão pode ser impresso em offset. A multilit também faz muito mais do que aquilo para a qual foi projetada. Para fazer policromia a máquina tem o trabalho quadruplicado. Primeiro, coloca-se o papel, passa-se a tinta da cor ciano, roda todo o material; lava-se o rolo da máquina, devolve a mesma resma de papel já rodada em tom de azul, passa-se a tinta magenta e o material é novamente processado. O mesmo acontece ainda com o amarelo e o preto. Ailton “Mãozinha” – que chegou ao jornal em 87 para fazer a limpeza da gráfica e hoje é impressor dos mais capacitados – vai procurando registro. Em pé, junto à antiga multilit, fica atento para não deixar passar nenhuma página com as cores fora do lugar.

Durante a impressão, boa parte da equipe se reúne em volta da mesa para fazer o que ficou conhecido como “o vira”. A multilit que a gráfica dispõe tem capacidade para rodar, apenas, material de tamanho A3, ou seja, uma única página do Dimensão. Para fazer o jornal, então, o grupo passa a madrugada dobrando e desdobrando o papel para que possam ser rodadas as quatro páginas que cabem – frente e verso – em uma folha de papel tamanho tablóide. Detalhe: para um jornal de 20 páginas, é preciso fazer cinco “viras” para cada um dos mais de 3000 exemplares rodados. Antes dessa finalização, ainda, os responsáveis pelo conteúdo do jornal se desdobram entre as funções de pauteiros, repórteres, redatores, diagramadores e, muitas vezes, secretários, vendedores e qualquer outra função que aparecer. A garra desse grupo é, de fato, algo que merece exaltação. Se for levada em consideração a precariedade dos recursos técnicos que a gráfica possui, é indispensável reconhecer que nada é verdadeiramente impossível diante da inteligência e do decantado jeitinho brasileiro. “Acho que este é, na verdade, o grande segredo da sobrevivência e do sucesso de Dimensão. Ao longo de todos estes anos, tive sempre a sorte de contar com uma equipe de primeira linha, gente capaz de se superar e vencer obstáculos que se insinuam com jeito de intransponíveis (…) O time atual é tão bom quanto o que começou o jogo. Cada um com suas características próprias, todos se juntam e se somam sem posição definida buscando sempre dar o melhor de si para conseguir alcançar o objetivo pretendido”

Flávio costumava dizer que o que salvava o jornal era o espírito de companheirismo e amizade que unia a todos. “Como atividade estritamente profissional certamente não conseguiríamos a décima parte do que milagrosamente produzimos”. Assim manteve-se o Dimensão. Se precisou, em algum momento, endurecer para sobreviver, não perdeu, contudo a alegria e a descontração. Discussões? Só para saber o que jantariam na sexta-feira, na hora do “vira” – noite que, invariavelmente, era passada às claras para dar conta de compor e rodar todo o jornal a tempo de levá-lo às bancas no sábado pela manhã.

Em muitos dos fechamentos de edição, alguns amigos apareciam pela gráfica para compor a “mesa do vira”. Orlando Piau, Júlio e Hildebrando Oliveira, por muitas vezes, saíam de suas casas nas noites de sexta e se enfiavam na copa do jornal para desempenhar o papel de mestre cuca e preparar, para toda a equipe, o “rango” que forraria o estômago e daria força para varar a madrugada.

De tempos em tempos, finalizada mais uma empreitada, era hora de reunir a turma para rir um pouco das dificuldades enfrentadas que, depois de passadas acabam ficando engraçadas. Qualquer coisa era motivo para tomar uma cervejinha, descontrair, comemorar mais uma etapa vencida aos trancos e barrancos, sem perder a fé e a alegria.

Embarcação sem timoneiro

“Queixo-me amargamente da marcha inexorável do tempo. Não me conformo com a velhice, embora sabendo-a inevitável, permanecendo-se vivo. Mas começo a buscar compensações. Entre elas certamente esta: poder recordar, rever o que viveu, a partir da lente de contornos atenuados que nos propicia a idade. Acompanho o crescimento dos meus filhos, mantendo-me próximo a eles, interessando-me pelas experiências que vivenciam. Sinto-me personagem, participante efetivo e direto do show da vida. Interessante ver, de repente, que outros ocupam agora o proscênio, numa troca permanente em que vamos sem perceber trocando de papel e posição. Bom sentir que, apesar de tudo, não nos dói estar chegando o momento de ocupar a chorus line”. – Flávio Scaldaferri

 

30 de março de 2003. Uma tarde de domingo. Flávio Scaldaferri sente-se mal e não resiste ao terceiro enfarte. A família perde um líder. Itapetinga, um baluarte. A “nau Dimensão” fica a deriva sem seu timoneiro. Mais uma vez a cidade passa pela iminência de ficar sem o veículo que tinha sido, até agora, o porta-voz da comunidade. Em 1971, as dificuldades em se manter um jornal no interior tiraram de circulação o recém-lançado Dimensão. 32 anos depois, a perda prematura e inesperada do dono, editor, fundador, financiador, corpo e alma do jornal deixou a sociedade itapetinguense temerosa por saber que poderia ter chegado ao fim a bela trajetória do semanário que, por mais de três décadas, participou ativamente da construção da cidade que o acolheu.

Flávio esteve à frente de 1234 edições. O jornal de número 1235 não atrasou. Na manhã do sábado seguinte, 05 de abril de 2003, como de costume, o Dimensão estava nas bancas. Nessa edição, nada de notícias, matérias ou reportagens. Nas páginas do jornal estava um painel um pouco desorganizado, mas bem representativo do jornalista, advogado, amigo, marido, pai e cidadão itapetinguense. Não poderia ter sido diferente. Não haveria melhor maneira de homenagear Flávio Scaldaferri. Ele teve mais da metade da sua vida ligada ao jornal que criou. O criador e a criatura mantinham uma interação tão estreita que acabaram moldando-se mutuamente. O Dimensão tinha o jeito de Flávio e o seu jeito foi moldado, até certo ponto, em função das coisas que aconteciam em decorrência da circulação do jornal.

Os leitores receberam o primeiro Dimensão que não passou pelo crivo, pelas críticas nem pela edição de Flávio Scaldaferri. Ver o jornal nas bancas era, sim, uma esperança. Nada, no entanto, garantia a permanência do semanário. Na verdade, nem mesmo a família ou os funcionários do Dimensão sabiam como seguiriam daqui para frente.

Mas, acreditando que “nem tudo acaba assim, definitiva e bestamente, quando o carro vira, quando o revólver dispara” – no caso, quando o coração pára – equipe Dimensão e família Scaldaferri resolveram tocar o barco. Trocou-se o timoneiro, mas a embarcação continuou na mesma direção. Mudou-se, talvez, o jeito de navegar. Diferenciaram-se, algumas vezes, as formas de driblar as intempéries e de atravessar marés revoltas. Permaneceram, no entanto, os ideais, as metas, o rumo, o norte.

15 dias após a morte de Flávio, o Dimensão estampava na capa a manchete: “O jornal continuará circulando”. Como imagem ilustrativa, uma foto de toda a equipe e muitos amigos, rodando, dobrando e encadernando o jornal. Tarde virando noite, noite virando madrugada, madrugada virando dia e continuava ali, em volta da mesa, uma troupe formada por velhos e grandes amigos, parceiros de longa data. Gente disposta a dar a força necessária para que o jornal acreditasse que “navegar é preciso”. Estavam presentes naquela edição, além dos filhos de Flávio, a equipe formada por Portella (redatora-chefe), Schultz (repórter) e Ailton (impressor). Desceram a serra do Maçal os irmãos Hidelbrando e Júlio Oliveira. De Itabuna vieram Luiz Marques, cunhado de Flávio, e Milton Scaldaferri, irmão. Entre os amigos de Itapetinga estavam Orlando Piau, que preparou uma fatada e chegou com os filhos Simão e Catarina e Rivaldo que trouxe a carne, churrasqueira e uma infinidade de histórias. Edmilson, antigo funcionário do jornal, assumiu sua velha função e montou toda a edição. Passaram pela gráfica, ainda, Laércio, Rivaldinho, Ernesto, Rogério e mais uma série de amigos que permaneceram por muito tempo envolvido por um clima de amizade e fiel companheirismo.

O “velho Dimensão” continuou vivo, firme no seu compromisso com Itapetinga e consciente da sua importância para a comunidade. Ele foi, e agora continuará sendo, responsável por suscitar debates, envolver a comunidade em torno de assuntos relevantes, discutir problemas, defender idéias, oferecer entretenimento à sociedade, além de ter sido fator fundamental na formação da identidade cultural da cidade. Enquanto continuarmos a merecer a sua confiança, manifestada de forma tão lisonjeira, o velho Dimensão continuará existindo.

Este ano, Dimensão comemora muito mais do que um aniversário. Comemora 40 anos de existência, em alguns momentos, de difícil sobrevivência. Muitos obstáculos foram transpostos nessa guerra diária que travam todos aqueles que se dedicam à feitura de um jornal de interior. Muita garra, luta e amizade; muito trabalho, jogo de cintura e jeitinho; muitas noites perdidas, muita farra, muita festa… tudo junto a uma dose de competência e persistência são os ingredientes para “a inexplicável e irresistível magia do velho Dimensão”.

 

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