Sim ou não?

José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares são corruptos. Isto é um fato. Uma certeza. A partir do instante em que o Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte da Justiça no país, proferiu sua decisão nesta semana, condenando-os por prática delituosa, o assunto está encerrado. Nada mais há a se discutir. Não há o que questionar. São criminosos.

O episódio que os levou à condenação, amplamente conhecido como o escândalo do mensalão, envolveu ainda vários outros malfeitores, e revelou ao país que a cúpula do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava infectada. Era um foco de crimes: corrupção ativa, corrupção passiva, compra de parlamentares, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro. É o que definiu o Supremo Tribunal Federal. Ponto final.

Diante dessa certeza que o Supremo Tribunal Federal legou ao país, sobressai agora uma indagação que necessariamente precisa ser respondida, literalmente uma pergunta que não quer calar: E o Presidente Lula? Era cúmplice desses crimes?

Pelas informações que vieram a público, trazidas fartamente pela mídia, mas, sobretudo, avaliando o conjunto de provas em que o Supremo Tribunal Federal sustentou sua decisão, naquele que talvez tenha sido o julgamento mais importante de sua história, apenas duas alternativas possíveis existem para responder a esse ponto em aberto. Vamos a uma e outra, e então que cada cidadão escolha a sua:

a) Sim. Lula era cúmplice de tudo isso. É óbvio que era. É escancaradamente óbvio. José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares são seus companheiros de longas datas. Eram da mais estrita confiança do presidente. Eram verdadeiramente próximos a ele. E não era uma confiança e uma proximidade superficial. Longe disso. Percorreram uma trajetória longa, na qual estiveram juntos em todos os momentos. Sempre compartilharam idéias, traçaram planos, dividiram projetos, combinaram táticas. Conheciam-se mutuamente. Afinavam-se. E não seria justamente quando todos chegaram juntos ao governo, e que estavam mais unidos do que nunca, pois entrelaçados em altos cargos estratégicos, que Lula se dissociaria deles.

E nem é necessário mergulhar muito a fundo no sólido vínculo de amizade que une os criminosos ao ex-Presidente da República, para se alcançar a certeza de sua participação nos delitos. Dispensável buscar o ensinamento do “diz-me com quem andas e te direi quem és”, ou, para ficar no mais popular, do “quem com porcos se mistura, farelo come”. Pode-se até deixar de lado José Genoíno e Delúbio Soares, que à época dos crimes eram presidente e tesoureiro do PT, partido que tem Lula como fundador, comandante, líder e estrela maior.

Basta apenas que se foque na atuação do ex-ministro José Dirceu. Ele foi o chefe da Casa Civil, que é o mais importante cargo do Governo, abaixo apenas da própria Presidência da República. Tudo que diz respeito à Presidência passa pela Casa Civil. É uma ligação direta. Não há segredos. Justamente por isso, para essa pasta só vai alguém que seja da absolutíssima confiança do Presidente. E José Dirceu sempre foi isso. Tamanho era o entrosamento entre os dois que Dirceu tinha acesso inteiramente livre ao gabinete de Lula. Entrava sem pedir licença, sem marcar hora. Portanto, é virtualmente impossível que o Presidente não tivesse pleno conhecimento do esquema criminoso conduzido pelo homem com quem praticamente dividia o comando de seu governo.

Finalmente, admitindo-se a improvável hipótese de que todo esse esquema tivesse sido orquestrado sem a participação do ex-Presidente, a coisa tomou uma proporção tão grande, ramificando-se por tantas esferas do poder, que fatalmente, obrigatoriamente, chegaria ao seu conhecimento. Isso era inevitável. Não havia como ele ficar alheio a esse universo criminoso que o cercava. Assim, mesmo que não participasse ativamente desses delitos, ele certamente sabia que eram praticados. Sabia como, quando, onde e por quem eram praticados, e se comportava de maneira conivente.

E para completar, agora que o Supremo Tribunal Federal encerrou o assunto, Marcos Valério, um dos expoentes da bandalheira, depois de rigorosamente condenado e já sem mais nada a perder – nem a temer – veio a público afirmar que o ex-Presidente não apenas sabia de tudo, como também atuava diretamente como chefe de todo o esquema. Declaração que, se ainda não dá plena certeza de sua participação, de tão contundente que é, deveria provocar no mínimo uma nova e mais bem direcionada investigação. Sobretudo ao se perceber que a reação do ex-presidente foi o silêncio, refugiando-se acovardado para não ter que enfrentar acusações que estão por um triz para se confirmar como verdades.

Em síntese, por qualquer ótica que se observe, a conclusão do julgamento do Supremo Tribunal Federal pôs o ex-Presidente Lula em xeque. É impossível não enxergar sua participação. Até a mais vendada das inteligências pode ser capaz de ver isso. Ele era cúmplice, sim.

b) Não. Lula não era cúmplice. Ele é uma fonte de pureza e inocência e jamais poderia imaginar o que acontecia à sua volta. Ele, coitado, como candidamente afirmou no auge do escândalo… não sabia de nada!

São essas as duas alternativas de que dispomos. Extensas, cada uma delas, na exata proporção dos fatos que se apresentam para fundamentar uma e outra.

Dúvida que perdurará indefinidamente. A não ser que, diante das verdades que agora se consolidaram, o Ministério Público resolva colocar o ex-Presidente no banco dos réus. Sendo processado, ele teria a oportunidade de promover sua ampla defesa para afirmar sua inocência. Sendo absolvido, dissiparia a nuvem de desconfiança que hoje paira sobre sua pessoa. Do contrário, essa sombra que cada vez mais vai lhe recobrindo, poderá ser capaz de comprometer para sempre sua tão decantada biografia.

Enfim, esse episódio deixou dois grandes aprendizados. Primeiro, pela firmeza implacável com que o Supremo Tribunal Federal julgou os criminosos, tornou claro que nossa democracia está cada vez mais sólida, com instituições firmes, independentes e ciosas do papel que têm a desempenhar. Que finalmente chegou o tempo em que o rigor da lei é para ser aplicado a todos, indistintamente. “Nunca antes na história do país” se tinha visto isso.

E, segundo, serviu para mostrar que, por detrás de um grande líder, com discurso messiânico, linguagem simplória e gracejos palatáveis ao público, pode estar um partido cujo grande objetivo seja pura e simplesmente o poder. Que pelo afã do poder seja capaz de qualquer coisa, sem nenhum pudor, da sedução de humildes à compra de poderosos.

Felizmente, pelo que se viu nessas últimas eleições, um partido com essa índole criminosa é varrido dos grandes centros.

Sua sobrevida atualmente se dá muito mais nas cidades interioranas.

Nesses lugares as questões de âmbito nacional, por mais graves que sejam, acabam ficando em segundo plano, pois são as rivalidades e os interesses locais que movem o eleitorado.

E, aliás, falando-se em eleições, ficam os parabéns à nação gabiraba pela demonstração de força e fidelidade, e à onda azul, pela participação marcante e corajosa. E, claro, parabéns aos vencedores. Agora é esperar que, para o bem da cidade, venha um bom governo, pautado pela ética que as lições da Justiça estão impondo a todos os gestores. Então, boa sorte ao prefeito eleito – do PT.

 

 

* Adriano César Pessoa de Alcântara é Advogado

alcantara.adriano@hotmail.com

 

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