Rita e PM: falta de equilíbrio e sensatez

aqui nesta página dois. Recordo-me nunca ter recebido tantos e-mails – a maioria em protesto ao que foi dito – do que quando escrevi sobre a truculêPor diversas vezes o tema polícia e bandido foi abordadoncia desnecessária da polícia em algumas abordagens. Sempre fui contra a ação de policiais que atiram primeiro e perguntam depois ou que “invadem a favela e deixam corpos no chão”, como diz o rap. Mas nunca neguei sua essencialidade para sobrevivência da sociedade. Segurança pública é ponto fundamental para que nos mantenhamos longe do caos. Justamente por isso acredito que o assunto deva ser sempre muito bem debatido para que conquistemos o equilíbrio nas ações do setor.

E equilíbrio parece ser artigo em falta no mercado. A greve da polícia na Bahia está completamente desequilibrada. Primeiro, porque todos nós sabemos que policiais militares não têm direito à greve pelo cargo que ocupam. Acho justa – e louvável até – a reivindicação por condições melhores de trabalho, por um salário melhor ou pelo que acharem que não está digno, desde que esta reivindicação seja feita de maneira pacífica e responsável. O que se vê na Bahia, no entanto, principalmente na capital, é terrorismo, baderna e descontrole. É a verdadeira inversão entre bandidos e mocinhos.

Todos sabemos que as condições de trabalho da polícia são precárias. No nosso Estado, a segurança pública é um caos. Um caos porque falta infra-estrutura e um caos porque, com um salário ruim, muitos policiais tornaram-se afeitos à extorsão, cada vez mais cotidiana no meio. Trata-se de um grupo de servidores familiarizados com a brutalidade, a brutalidade do seu dia-a-dia, no que diz respeito, principalmente, à dignidade de trabalho que lhes falta. Mas o sentimento de insatisfação não pode dar lugar a um movimento grevista ilegal que está completamente fora do controle.

Os erros destes profissionais neste movimento, no entanto, não invalidam a luta deles. E justamente por sabermos das dificuldades que o cargo impõe e da autoridade que ele tem é que devemos respeitá-lo quando os mesmos estão no desempenho correto de suas funções. A polêmica da semana, talvez tão forte quando a greve, foi a despedida desastrosa e desrespeitosa de Rita Lee dos palcos. Parece que a cantora também não encontrou o equilíbrio para suas ações. Rita quis se aposentar em grande estilo, mas errou na dose.

Ao avistar policiais na plateia, a cantora declarou que não os queria em sua apresentação. Tendo se aproximado do palco, os policiais foram xingados pela cantora de «cavalo”, “cachorro”e “filho da puta”. Aos berros e cheia de gestos obscenos, a cantora fala: “Não tem que agredir, seus cachorros, coitado dos cachorros, cafajestes. Vocês estão fazendo de propósito. Eu sou do tempo da ditadura. Vocês pensam que eu tenho medo, porra? (…) Cadê por escrito que vocês têm que fazer isso? Cavalaria aqui não. Não vou esperar, esse show é meu. As pessoas estão esperando eu cantar, não vocês. Seus filhos da puta, agora vem me prender. Por causa de um baseadinho, é isso? Cadê o baseadinho para eu fumar aqui agora?”

Pelas imagens que circularam na internet não dá para saber se os policiais agiram com violência ou apenas com a rigidez que a função exige. Mas, de qualquer forma, nada justifica a reação exagerada e o desrespeito à autoridade. Muitos outros artistas já sofreram com conflitos em seus shows. O segredo dos experientes e equilibrados, mesmo nos trios elétricos, é parar de tocar, cruzando os braços e aguardando a paz voltar ao ambiente. Se Rita Lee fizesse isso nada de grave teria acontecido. Mas ela teimou em se aposentar como Ovelha Negra, agora com franja artificialmente ruiva. Ao xingar os PMs durante seu show em Sergipe, ela imaginava ser consagrada como a última roqueira do pacotinho. O máximo que conseguiu foi a solidariedade inútil de um ou outro twitteiro.

Usar um palco e um microfone como embaixada ou território livre exige muita responsabilidade e um discurso minimamente relevante. Deve ser um ato de coragem. O que a tia Rita fez foi chilique. Imagina se aquela plateia levasse a sério o rompante da ex-roqueira e decidisse enfrentar a sétima cavalaria? Imagine o caos que não seria um show com mais de 20 mil pessoas sem policiamento?

Aquela era uma grande oportunidade para a cantora se retirar em grande estilo e deixar saudades de suas boas cantigas. Mas faltou equilíbrio e sensatez essenciais em qualquer momento, a qualquer geração. Se o bom senso prevalecer o governo arquivará as acusações de desacato e apologia ao crime – afinal, a roqueira não é nenhum marginal – e o rock subversivo descansará em paz. Na Bahia, a polícia voltará ao trabalho, permitindo que a folia do Rei Momo transcorra da melhor maneira possível e não acabe de maneira tão ou mais desastrosa como findou-se a carreira de Rita Lee.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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