Renúncia no Cristo: o hospital….

susNa quinta-feira a cidade de Itapetinga voltou a viver momentos de apreensão com a notícia de que nova crise teria se instalado no Hospital Cristo Redentor. Mais uma vez a diretoria da Santa Casa de Misericórdia alega que o acordo firmado com a Secretaria de Saúde para o repasse das verbas não foi cumprido e que isto teria levado o provedor Reinaldo Santos, e mais outros integrantes da diretoria, a renunciarem ao cargo. Para falar sobre o assunto, esteve na redação de Dimensão o médico Marcelo Gomes, que faz parte da diretoria. Ele conversou com a repórter Eliene Portella.

Jornal Dimensão – O HCR renovou o convênio de cooperação técnica com a Secretaria de Saúde recentemente. Agora, vemos o hospital novamente em um impasse, que resultou inclusive na renúncia do provedor e outros diretores. O que aconteceu de fato, doutor?

Marcelo Gomes – No dia 31 de janeiro houve uma reunião na prefeitura com o prefeito José Carlos, a representante da secretaria de Saúde Zoraide, o provedor do Hospital dr. Reinaldo Santos e o promotor público José Junseira, quando foi assinado o convênio de cooperação técnica no valor de R$ 299 mil e mais o repasse de alguns outros valores, como R$ 80 mil que havia sido retirado da verba repassada em dezembro e os sobreavisos de R$ 21 mil de dezembro e janeiro, destinados ao obstetra, ortopedista e pediatras que fazem a parte de neonatologia do Hospital, onde nascem cerca de 100 crianças por mês. Passados aí 20 dias e diante da insistência do provedor Reinaldo Santos em tentar contato com o prefeito José Carlos e a secretária de Saúde, e não ter conseguido, ele apresentou a carta de renúncia, juntamente com parte da direção do HCR, permanecendo na diretoria apenas dr. Jilvan Silveira, dr. Arnaldo Texeira e eu, Marcelo Gomes. E olhe que o nosso provedor tem acesso direto ao secretário de Saúde do Estado, representantes de outros setores da Sesab e até ao vice-governador Otto Alencar, mas não conseguiu aqui na cidade falar com essas duas autoridades citadas antes.

J.D. – Então quer dizer que do acordo firmado em janeiro, nada da verba foi repassado ao Hospital?

Marcelo Gomes – Os R$ 299 mil foram, mas os R$ 80 mil não. A secretária alega que os R$ 80 mil seria de um empréstimo que o hospital fez junto aos bancos, o que não é verdade. Na realidade é preciso que se entenda que quando o prefeito assinou a municipalização da Saúde Plena, ficou especificado que a cidade goza de todos os serviços a serem prestados à comunidade de Itapetinga e à região que a circunda, tendo que ter a média e alta complexidade, o atendimento ambulatorial nas suas especialidades: cardiologia, cirurgia, urologia, gastroenterologia, psiquiatria e tem que ter a alta complexidade, ou seja, um tomógrafo, a ressonância, serviço de hemodiálise, a UTI, a quimio, a radioterapia e até algumas cirurgias oncológicas teriam que estar funcionando em Itapetinga. No que diz respeito aos R$ 80 mil, o Estado repassava ao Cristo Redentor duas verbas, o Reforsus e o Integrasus – uma de 12 e a outra de 7 mil, perfazendo um total de R$ 19 mil. É um direito adquirido do Hospital e a partir do momento que o prefeito e a secretária assinaram a municipalização, esse direito foi perdido e o Ministério descontou este valor, perfazendo 4 parcelas que chegariam à casa dos R$ 80 mil. Então, em uma reunião na Promotoria Pública, a secretária concordou em descontar R$ 40 mil em dezembro e repassar em janeiro quando assinasse o contrato. Mas ao contrário, a secretária Zoraide descontou os 80 mil de vez em dezembro. E para o serviço não parar nós tomamos a atitude de quebrar a folha de pagamento dos médicos pelo meio e pagamos 13º, salário, equipamentos, material para o HCR funcionar e fornecedores. E agora, diante do difícil diálogo, parte da diretoria renunciou.

J.D. – E como vocês que ainda ficaram na diretoria resolveram agir?

Marcelo Gomes – Pois bem, resolvemos comunicar às autoridades constituídas de Itapetinga – Judiciário, a Delegacia do Conselho Regional de Medicina, bem como a todas as outras e à população, que só iremos atender à emergância e a urgência. Claro que não vamos fechar o Hospital Cristo Redentor, isto só aconteceria caso não tivéssemos condição de adquirir o mínimo necessário para manter o hospital funcionando. Queremos também restabelecer o diálogo com o gestor municipal, porque as urnas foram soberanas e ele foi eleito para representar o povo e diante disso ele tem um contrato social com o povo e que precisa ser honrado. Precisamos sentar para conversar, não adianta brigas. São quatro anos de mandato e se isto não chegar a um acordo, quem vai sofrer é a população mais carente. Ela sabe, a população sabe que tem no Hospital um grupo de médicos comprometido. A população sabe que o baleado, o esfaqueado, o apendicite, o atropelado, eles chegam e são atendidos em Itapetinga. A grávida também vai ser atendida. Para se ter uma idéia, ao assinar a municipalização, a Secretaria de Saúde trava a situação de transferência de uma grávida que precise de uma UTI neonatal para seu bebê, pois os hospitais da região alegam que Itapetinga tem a Plena, que o caso teria que ser resolvido aqui.

J.D – E hoje como está o Hospital Cristo Redentor no que diz respeito a atendimento?

Marcelo Gomes – O hospital hoje está com a emergência aberta a despeito de a secretária já ter ido às rádios e tentado mais uma vez conturbar a situação. Estamos funcionando e abertos também ao diálogo junto ao prefeito, ao vice-prefeito, ao seu secretariado, enfim, a todos os que queriam ir à Santa Casa e averiguar o seu funcionamento e estejam dispostos a sentar conosco para chegarmos a um consenso que possa ser bom principalmente para a população. Não adianta também o prefeito falar que a população vizinha não pode ser atendida aqui. Existe uma pactuação e o prefeito tem que cumprir isto. Ele tem que comprar o serviço, seja aqui, Itororó, Itambé, Conquista, enfim, ele precisa comprar o serviço para atender essa região. Ele municipalizou a saúde de Itapetinga e se tornou responsável pela gestão do montante de recursos que chega na cidade, inclusive para atender um paciente que tem uma hérnea, uma vesícula que não pode ser operado em Maiquinique, Macarani e Itarantim. E diante dessas dificuldades, é preciso que se estude a melhor maneira de socorrer a população, pois o número de médicos está cada vez menor na região. Aqui por exemplo temos apenas 30 e eu já estou aqui há oito anos e conto comigo, que chegaram apenas mais quatro para a cidade nesse período.

J.D. – O que vocês da diretoria que restou tem então a dizer à população de Itapetinga?

Marcelo Gomes – Volto a afirmar que existe um compromisso do hospital em resolver os problemas da população e o prefeito precisa restabelecer o diálogo, pois ficará quatro anos à frente da prefeitura e a população que confiou em dar a ele mais quatro anos de mandato, precisa corresponder ou então comprar o serviço em outro hospital. Ele tem também o direito de falar que não quer contratar o HCR. O que não dá é para comprar um serviço aquém e querer além. A secretária de Saúde quer pagar pelo que faz, mas ela não vai achar profissional disponível para ficar em casa e ir lá fazer uma AIH que custa 80,00 uma apendicite, um baleado que custa R$ 100,00 e para receber daqui a três meses. O médico que trabalha no sistema de sobreaviso ele quer o salário a que tem direito, sobreaviso já é plantão, não pode se ausentar, não pode fazer outro compromisso, não pode sair da cidade, enfim.

Repito ainda que os serviços de urgência e emergência estão garantidos, não estando garantida a cirurgia eletiva, a de hora marcada e o atendimento no Pronto Socorro que era de 2.500 atendimentos/mês, este aí não vai ter mais, está suspenso até segunda ordem. O Hospital tem lá o plantonista, mas apenas para atender a risco de vida ou aquele paciente que suscite dúvida. Vamos atender a urgência e a emergência até a gente suportar, pois não adianta dizer que podermos estar plenamente funcionando se não tivermos dinheiro. E para completar, precisamos pagar nossos funcionários, somos praticamente o 4º maior empregador da cidade, com 120 funcionários com salários e insumos todos em dia, mesmo diante de todas as dificuldades, contando com os recursos de particulares e convênios, pois se dependesse apenas do SUS não suportaríamos.

J.D – E afinal de contas, com tantos altos e baixos, é ou não gratificante esta função de ser um dos diretores do HCR?

Marcelo Gomes – É muito gratificante, ainda mais pra mim que nasci, me criei, saí e voltei para a minha cidade. Tenho um compromisso com isto aqui, sou filho de Itapetinga e não estou médico, eu sou médico, vou morrer médico. Então eu preciso defender aquilo que eu acredito e defender a população da minha cidade.

Também quero deixar registrado que essa situação que estamos vivendo agora só não está pior, porque houve a intervenção do Ministério Público através do promotor José Junseira. São 12 meses de Municipalização Plena e este impasse vem se arrastando. O promotor tentou mesmo fazer a sua parte, marcou reuniões, buscou a intermediação, mas agora, ao que parece, ele cansou de intermediar e isto é lamentável.

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