Que nem gato de hotel

kalu2015 foi o período em que menos escrevi neste espaço aqui do Dimensão, desde que me foi gentilmente cedido pelo jornal, que muito me alegra e também me honra. Cobranças de um lado e de outro nos faz refletir e pensar no que e sobre o que escrever. Conversando com alguns amigos, aqueles ainda raros e diletos amigos, a gente percebe que após a última eleição presidencial mudou muito o comportamento das pessoas e, por incrível que pareça, para pior. Velhas e antigas rixas que ocorriam na política local deixaram algumas marcas, mas nunca o ranço de ódio como se vê atualmente. E o pior é que junto com o ódio gerou inimizades gratuitas. Há gente de todo lado reclamando de barriga cheia, tal qual gato de hotel, comendo e miando. Muitos usufruíram dos incentivos do governo para trocarem de carro novo todo ano, com IPI baixo. Empréstimos bancários com juros módicos, jamais visto anteriormente, beneficiaram o setor da agropecuária. O crescimento da construção civil também beneficiou muita gente fora do ramo, visando o programa: “Minha casa minha vida”, com financiamentos pela Caixa Econômica. Mesmo assim, se houver qualquer brecha, estarão prontos para burlar a receita federal e fugir do imposto de renda. Conforme registrado no blog do Ricardo Kotscho: “Este ano, os procuradores da Fazenda Nacional calculam que a sonegação de impostos baterá nos R$ 500 bilhões – ou seja, pelo menos dez vezes mais do que o governo pretende economizar com o pacote fiscal. E todas as corrupções somadas não chegam nem perto desta sangria incontrolável do Tesouro Nacional, mas ninguém quer falar disso, não dá manchete.”

Por outro lado, nem de longe concordam com as conquistas e os direitos adquiridos das empregadas domésticas, por exemplo. A depender deles, elas ainda estariam ganhando um mísero salário, embora prontas para entrarem no serviço às 6 horas da manhã e só saírem às 21 ou 22 horas. De agrado, receberiam peças de roupas usadas e fora de moda ou algum calçado velho que não lhes serve mais. Esqueceram que o tempo da senzala acabou.

Percebe-se no meio de toda essa euforia que novas denúncias vão surgindo na imprensa, de ambos os lados, desnudando muitos políticos e empresários e mostrando suas verdadeiras faces. Muitos que se julgavam paladinos da honestidade e da decência e participaram de cara limpa das manifestações, estão vendo suas máscaras caírem. É a velha história do roto falando do esfarrapado. No final a verdade termina vindo à tona. E aí a velha, surrada e desacreditada imprensa se quiser sobreviver, terá que seguir o caminho da verdade. A população já está cansada de tanta mentira. Basta de rede Globo, Veja, Folha de São Paulo, Estadão por aí vai. Precisamos de uma imprensa independente, não atrelada a interesses escusos e mesquinhos. A elite branca e de direita especificamente, achou lindo e maravilhoso bater panelas, desfilar seus tênis de marca pela avenida paulista, mirando-se única e exclusivamente na presidente. Quero ver mesmo é se estão prontos para lavar bem essas mesmas panelas. Como exercício aproveitariam também para lavar a boca suja depois de tantos impropérios e vitupérios. Como sou um apaixonado por dicionários, fui dar uma olhada nas palavras usadas acima e encontrei uma citação de Frei Luís de Souza, em uma de suas obras, falando sobre impropérios: “começaram a vazar pelas bocas malditas todas as infâmias e impropérios que a raiva e a paixão e a perversa natureza lhes ensinava”. Para a turma anestesiada da Rede Globo e que ainda assiste Jornal Nacional e lê Veja, com um pouco de discernimento e coragem, aconselho a assistirem via internet, a excelente e oportuna entrevista de Juca Kfouri – “Não se faz política com ódio”. Quem sabe não se tornem pessoas melhores. A entrevista de Flávio Dino, governador do Maranhão, à revista Carta Capital, é uma boa lição de cidadania e ensina muito àqueles que ouviram o galo cantar mas não sabem onde. Ler é sempre bom, principalmente quando for algo instrutivo.

E para complementar, vai aqui um presente de Graciliano Ramos, sobre a palavra.

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Graciliano tem muito a ensinar aos políticos.

 

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