Quando tudo era mais simples

“MEUS OITO ANOS

(Casimiro de Abreu)

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!”

 

kaluDeixemos um pouco de lado as eleições que já deu o que tinha de dar e chega de blá-blá-blá, nhém-nhém-nhém e ti-ti-ti da turma perdedora. É hora de arregaçar as mangas e tocar a vida pra frente. Chororô não vai resolver nada. Como diz o jornalista Ricardo Kotscho: É vida que segue. Eu continuo tocando minha vida, trabalhando como sempre com dedicação e afinco e já decidi que de agora em diante vou varrer do mapa uma série de blogs que foram acessados por mera curiosidade e que no frigir dos ovos não deu para aproveitar nada de útil. Melhor mesmo é falar de cosias mais amenas, do nosso povo e da nossa cidade.

Andando pelas ruas da nossa cidade fico relembrando construções antigas de casas e pontos comerciais de tempos atrás. A maioria levava o nome do dono ou do proprietário. Comumente eram conhecidas como vendas, lojas ou armazém. Por exemplo, em qualquer ambiente que rolava uma rodada de cerveja e se estas não estivessem bem geladas, a decisão era unânime: vamos pra venda de Toin Sena. Era lá que se encontrava com frequência a cerveja estupidamente gelada, que todo mundo tanto apreciava. Na realidade o local não era precisamente um bar, mas na geladeira da venda de Toin Sena nunca faltou a cerveja no ponto. Não sei qual era o segredo dele. O fato é que acabou virando referência e até folclore. Meu amigo Augusto Pimenta, que o diga. Como não havia grandes lojas de materiais de construção e ferragens, o local certo era o armazém do Sr. Nenzinho, onde se comprava tanto a vista, quanto fiado. Não havia este negócio de compra a prazo. Bastava apenas anotar em uma surrada caderneta o nome do cliente e o dia da compra, que pouco importava, pois não havia reajuste e nem cobrança de juros. Em contrapartida a freguesia era fiel e cativa. Se fosse para comprar selas e arreios, a selaria de Júlio Seleiro foi pioneira e ficava bem no centro da cidade, com serviço de boa qualidade e beleza. É certo que continuou com substitutos à altura, representados por Nelson Seleiro e Mário Almeida. Já os serviços de soldas e ferragens eram com Mané Gato ou Néu Vieira, ambos compadres do meu pai. Ali se fazia as encomendas de ferros para ferrar gado, serviços de bater e apontar alavancas e vários tipos de soldas. Não havia outro lugar. A família Lago também compunha este leque de lojas e armazéns, com representatividade e aceitação da comunidade, através da Casa Lago. Outro dia fui comprar um zinco para por na cabeça dos morões dos currais lá da fazenda e brinquei com um dos herdeiros da família, perguntando-lhe se ali ainda vendia fiado. De maneira alegre e gentil, respondeu-me que se eu quisesse poderia levar até a loja inteira, relatando a amizade e o respeito que meu pai Silio Dutra tinha pela família Lago e cuja recíproca também é verdadeira.

As farmácias, apesar de levarem os nomes de: Popular, Nova, Lia e Sudoeste, eram conhecidas pelo nomes dos proprietários. Farmácia de Adonias, de Rolim, de Wálter. O mesmo acontecia com o Bazar Rucas da família Saliba, a loja de confecções de Antonio Freitas, os armarinhos de Dedé Costa e Osvaldo Brito, ou a livraria da família Couto. As barbearias eram conhecidas conforme o nome do barbeiro. França, Vavá, Zuíno. Foram barbeiros e cabeleireiros de grande clientela por toda a cidade. Da nova geração a representação da classe ficou por conta do amigo Solon, local onde frequento e aproveito sempre para uma boa prosa.

No setor de calçados onde boa parte era feita manualmente, ficou na lembrança a sapataria do Sr. Natanael Mota. Recordo-me que certa feita meu pai lhe encomendou uns sapatos bem fortes e pediu também que fossem fornidos, para que durasse muito tempo, já que a meninada gostava de chutar bola e tudo que visse pela frente. Ele criou um modelo forte, mas desprovido de qualquer beleza e logo que vimos denominamos de: testa de bode. Para meu pai, estava de bom tamanho. Quanto a nós, achamos feios de doer. Mas a gente usava assim mesmo. Isto no tempo em que os sapatos ao terem os solados gastos ou furados, eram aproveitados substituindo o solado velho por um novo. Colocava-se o sapato com a boca para baixo, em uma peça de ferro apropriada e ia pregando em volta as chuliadeiras (hoje também chamadas de taxinhas), para fixar o solado novo. Após o retoque era como se estivesse usando um novo calçado. Era um serviço de rotina. Hoje em dia, não sei se por comodidade e onde impera o desperdício, tais concertos não mais são feitos. Na compra de tecidos e chapéus, o campeão sempre foi o Bazar Fascinação. Mas a loja do Sr. Arlindo Andrade também reinou por muito tempo. A Movelaria Três Irmãos, marcou ponto na venda de móveis da cidade. De lá tenho uma antiga peça de madeira para colocar bebidas, que conservo até hoje, pela beleza do móvel. As padarias não ficavam de fora. A mais famosa era a de Nelson Lima, que no final da tarde vendia pães quentinhos e feitos na hora. Para cozer roupas masculinas a opção era a alfaiataria do Sr. Braulino e Dete Alfaiate. Dona Ana Pires era a costureira preferida de muitas mulheres, mas também cozia muito bem camisas de homem. No mercado de carnes os açougues levavam também o nome dos donos: Sinhô Bodô, Sinísio Pedrosa, Marraiá, Pau Vestido, Néu Doca e tantos outros. As bicicletas que havia na cidade ficavam por conta e aos cuidados de Zé Pezinho, que possuía uma lojinha no final da Rua Santos Dumont, local onde residi por muitos anos. A primeira loja de máquinas de costura situava-se onde está localizada hoje a Coopardo e era de propriedade do Sr. Francisco (Chico) Almeida. Teve uma grande importância para a cidade. Sei que muitos outros locais ficaram gravados na mente das pessoas, principalmente da geração anterior a minha, mas foi o que pude me lembrar para compor este artigo, certamente mais ameno e preferido dos meus poucos e seletos leitores. Mas, sem sombra de dúvidas o Maringá, localizado no coração da cidade, na Praça Augusto de Carvalho, foi o cartão postal que mais ficou guardado na minha lembrança, talvez por ter sido o local onde primeiro pude degustar um delicioso picolé de coco. Depois dele, o Cine Teatro Phoenix, que já mereceu uma atenção especial aqui neste espaço. Bom fim de semana para todos.

 

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