Quando as cercas eram bem feitas

kaluOriundo da zona rural, desde pequeno vi meu pai fazendo cercas com a ajuda de cerqueiros. Seu companheiro predileto era um compadre dele, de nome Etelvino. Nunca vi alguém fazer cerca tão bem feita. Escolhido o local, era hora de fazer o balizamento. E lá iam eles abrindo os buracos para por as balizas de madeiras, tiradas na própria mata da fazenda. Andavam metros e mais metros de distância apontando as balizas, cada um em uma ponta. De longe iam fazendo a mira, no olho mesmo. Iam afastando e colocando novas balizas até o local onde seria o final da cerca. Terminado o balizamento era chegada a hora de fazer o carreiro para deixar limpo o local onde seriam abertos os buracos. Olhava da primeira baliza até a última e via que a cerca ficaria bonita e bem alinhada. Quem definia o rumo certo da cerca eram eles os balizadores, que tinham por obrigação entender do riscado. E nisto meu velho e saudoso pai Sílio Dutra e seu compadre Etelvino eram mestres. A profundidade dos buracos não podia fugir dos parâmetros normais, ou seja: dois palmos para estacas e três ou mais palmos para os mourões. Os mourões tinham que ser bem aprumados para poder segurar a cerca. A distância de um para o outro era de quatro metros e entre eles eram colocadas onze estacas, uma de cada lado, com um palmo de distância cada. Haja madeira. Ficava tão fechada que até para pular era difícil, já que não dava para passar entre os arames. Quando a terra estava muito seca ou havia muita pedra, era preciso colocar água nos buracos apontados, para amolecer. Nada de desviar o local das estacas. Muitos vezes passavam-se horas e horas em um único buraco, só por causa de uma pedra encravada no fundo. E o serviço ia andando. Depois retornavam para abrir os buracos que ficavam para trás, com a terra já amolecida. Antes de enficar (aprumar) era preciso apontar cada estaca e fraquejar os mourões. E o machado ia fazendo o serviço. Aprumados e socados mourões e estacas, o próximo passo era esticar o arame. A cerca normalmente era feita com três fios de arame farpado, bem grossos. A distância entre eles tinha que ser também medida para não fugir da bitola. O arame corria hora por um lado, hora pelo outro. Pregar grampos em estacas de madeira de lei não era tarefa fácil, principalmente se fossem aroeira ou pau d’arco. Muitas vezes ou o grampo entortava a ponta e não penetrava na madeira, ou então com a batida do martelo, voava longe. A cerca era tão bem feita que nada passava de um lado para outro. O gado respeitava a cerca. Com o passar do tempo foi-se diminuindo o número de estacas e aumentando os fios de arame de três para quatro. Com cinco metros de distância de um mourão para outro, bastava apenas cinco estacas entre eles. Concluída a cerca, gravetos ou pontas de madeira eram carregadas para servir de lenha ou para estivar cerca de quintal. A cerca ficava sempre limpa dos dois lados, fosse com distância de quinhentos, mil metros ou mais. Parecia que havia passado uma régua no local, de tão certinha que ficava. Uma beleza. Meu pai olhava a cerca pronta e comentava com o compadre: – “Eh! compadre Etelvino, esta cerca ficou mesmo um colosso”. Gostava de usar este adjetivo, quando queria elogiar algo. Tudo era feito com perfeição e zelo por homens afeitos ao trabalho, onde a palavra preguiça não existia no seu dia a dia. Dava prazer ver aquela cerca andando chão a dentro. Podia conferir cada estaca em toda sua extensão e ver que estavam bem aprumadas e socadas. Aquilo para eles era ponto de honra. As cercas feitas pelo velho Sílio Dutra e o Sr. Etelvino eram conhecidas e elogiadas. Com o tempo, não só a madeira foi ficando difícil, como também a mão de obra qualificada. Não há mais cerqueiros como eles. Nos dias de hoje não é nada fácil encontrar um bom cerqueiro. O arame farpado deu lugar ao arame liso e as estacas foram diminuindo e sumindo. Há fazendeiros que fazem cerca de arame liso com cinco metros de distância de uma estaca para outra e sem nenhuma no meio. Não há preocupação em fazer bem feita. Os mourões do estágio tem que ter dois metros e meio ou mais de comprimento, para poder segurar a cerca, sejam elas furadas ou amarradas. A profundidade do buraco varia entre cinquenta e sessenta centímetros. É o que manda o bom cerqueiro. Do contrário, se qualquer animal pressionar a cerca, o arame folga. Mas, o que interessa para muitos é que o custo seja baixo. E aí começam as intrigas entre um fazendeiro e outro, onde o gado de um começa a invadir a propriedade do outro. Sempre o lado mais forte prejudicando o mais fraco. Com as raríssimas exceções, fazendeiro rico é sinal de péssima vizinhança.

Já tive alguma experiência com três ou quatro cerqueiros em empreitada de cerca de arame liso, mas nenhum conseguiu me encher os olhos, seja fazendo-as amarradas ou furadas. Fogem com frequência da metragem de uma estaca para outra, por descuido ou má fé. Há lances com três metros, outros com até três metros e meio. Se você não estiver no pé da obra para conferir, o estrago já foi feito e é difícil consertar. A gente acaba aprendendo com os erros. Com o tempo vai se aperfeiçoando e adquirindo experiência, pois somente assim será possível cobrar um serviço de qualidade, selecionando aqueles que realmente se propõem a fazer bem feito. Para se ter idéia, fazer uma cerca de mil metros de comprimento, com quatro fios de arame liso, com três metros de distância de uma estaca a outra, é necessário trezentas estacas, sem contar os mourões. O custo total com material e mão de obra varia em torno de cinco mil reais. Isto se tiver a madeira encostada. Do contrário, passa dos dez mil reais. Daí o cuidado para que a empreitada seja bem feita, fiscalizada e escolhida a madeira de qualidade. Num futuro bem próximo não haverá mais madeira de lei e a opção será utilizar estacas e mourões de cimento, mesmo que o custo seja bem mais elevado.

 

 

Carlos Amorim Dutra

e-mail: carloskdutra@gmail.com

2 Comentários para “Quando as cercas eram bem feitas”

  1. Priscila Marissol
    12 de fevereiro de 2016 às 18:48 #

    Belissimo artigo!!!! REalidade nua e crua!!! Parabens

  2. Célio
    29 de março de 2016 às 13:52 #

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