Procurando causas e culpados

Na última sexta-feira, mais um crime brutal assumiu posição de destaque nos noticiários. Uma criança de 10 anos pegou a arma do pai policial, atirou na professora e depois se matou. Mais de uma semana se passou e o caso não teve explicação. Os depoimentos descrevem um garoto tranquilo, criado em uma família equilibrada e bom aluno. Nenhum indício de causa, nenhum fato que poderia ser dado como motivador foi descoberto ainda. Mas, como não poderia faltar, especulações surgiram apontando o bullying como motivo para o crime. Segundo o jornal 247, o menino teria uma deficiência na perna que o fazia mancar e isso seria alvo de brincadeiras entre os colegas. No entanto, parece que neste caso, a desculpa da “moda” não se encaixa.Há algum tempo o bullying não sai mais da mídia. Depois do caso do atirador de Realengo, então, nenhuma atitude que envolva escola e aluno está livre da justificativa. Mas a hora é de pensar e ter a definição clara de bullying. Nem toda violência é bullying. Ele é um tipo de violência, mas com características que o tornam bem singular: é intencional, repetitivo, envolve um desequilíbrio de poder de alguma forma, a vítima é incapaz de se defender e sofre em silêncio.Hoje, ao falarmos constantemente no bullying como “o mal do século nas escolas”, estamos repassando, mais uma vez, para as escolas a responsabilidade de resolver a “doença da sociedade”. As crianças escutam constantemente seus pais chamarem a vizinha de baleia, o amigo de veado, o filho do dono do mercado de anãozinho, aquele tio deficiente físico de perneta, o Ronaldo Fenômeno de gordo, fofômeno e tantos outros nomes e ainda dizem que o problema está na escola!Embora o bullying tenha reflexos na escola ou se reproduza nela, não é no ambiente escolar que as crianças aprendem a discriminar, a desrespeitar e a violentar. Não com os professores. Grande parte do problema que a sociedade tem hoje com as crianças, vem da própria convivência familiar ou da falta dela.Na busca por encontrar causas e culpados, há uma certa tendência para considerar diversos fenômenos violentos como bullying. Bullying não inclui atividades criminais que podem ter começado como um conflito e escalado para assalto físico, vandalismo, uso de arma. Estas requerem intervenção legal, procedimentos disciplinares e intervenção terapêutica, mas não são bullying. É preciso entender, também, que brincadeiras e apelidos sempre farão parte da vida escolar. Se não magoam, se todos se divertem, isto não é bullying! Não haveremos de querer salas de aula sérias, sem brincadeiras normais que fazem parte do relacionamento entre pares. Quando era criança todos tínhamos apelidos desagradáveis. Sempre houve no colégio um gordinho,  magrelo, narigudo, esquisito, retraído, nerd… e sempre haverão pois o mundo é composto por pessoas diferentes e isso não é ruim, é uma forma de equilíbrio. No maravilhoso mundo dos educadores infantis, todos vivem em harmonia, dão “bom dia” e não jogam papel no chão. No mundo real, infelizmente, a coisa é diferente. Brigas e desentendimentos ocorrem a toda hora. Diante disso, é de se perguntar: devemos fazer com que os pequenos adultos se portem como se estivessem num mundo que não existe? Ou é melhor prepará-los para aprender a reagir e enfrentar, de cabeça erguida, o mundo real?A maior parte dos leitores deste jornal freqüentou escola no tempo em que bullying era simplesmente chamado de “brincadeira” ou “zoação”. Quem de vocês nunca tirou onda com uma criança mais gordinha? Ou com aquela menina mais magrinha, a “Olívia Palito”? Pelos parâmetros atuais, todos nós poderíamos ser acusados de bullying. Curiosamente, acho que em nenhum dos casos alguma de nossas “vítimas” tornou-se um psicopata ou teve transtornos mentais severos. Na sua imensa maioria, aceitavam a brincadeira, adotavam o apelido e seguiam em frente.Não sei se com o passar do tempo as crianças ficaram mais maldosas ou menos preparadas. Talvez o fato de nossos pais não darem tanta importância a apelidinhos escolares e briguinhas bobas de colégio, fez com que aprendêssemos a lidar sozinhos com a situação. E mais do que isso, descobrimos ao longo do tempo que o mundo não era perfeito e que teríamos que superar nossas frustrações. Talvez tenhamos conseguido entender que isso era bom para formação de nosso caráter e que as dificuldades e obstáculos nos tornariam seres humanos melhores.Não estou aqui defendendo os apelidos pejorativos e nem ignorando suas consequências emocionais em cada pessoa, mas é preciso ter prudência e bom senso. Nem tudo é bullying, nem tudo é perseguição e ninguém pode invadir escolas, bater em pessoas e muito menos matar com a desculpa de ter sido vítima de bullying. Quem age dessa forma só está colocando para fora a doença crônica de uma sociedade violenta que procura responsáveis na escola.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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