Preconceito incompreensível

padrão destaqueNo último domingo, o programa Esquenta, liderado por Regina Casé, fez uma grande homenagem a um de seus dançarinos, assassinado, ao que tudo indica, pela Polícia Militar. Não quero aqui entrar na questão da qualidade do conteúdo, no que foi ou deixou de ser dito ou nos protestos que deveriam ser feitos e ficaram sufocados na garganta. Isso é uma outra história. O que me chamou a atenção naquele programa foi a exposição de uma mazela no nosso país que se perpetua todos os dias: o assassinato de moradores do morro.

Douglas Silva, o DG como era conhecido pelos colegas do programa, era preto e favelado. E morreu por causa disso. Foi, como conta a música, “mais um Silva que a estrela não brilha”. E Silvas, como ele, preto e pobre, morrem o tempo inteiro no Brasil. Não interessa muito como eles levam as suas vidas, ser preto e favelado aqui é motivo suficiente pra serem suspeitos e “merecerem” morrer. Somos um país racista e classista e sobre isso não há muito o que se discutir. As estatísticas dão conta de encerrar qualquer argumento contra esta afirmação.

No mesmo domingo, do outro lado do oceano, Daniel Alves, jogador brasileiro que atua na Espanha, mais um episódio de racismo estampou na nossa cara a nossa ignorância. Quando se preparava para bater um escanteio, um torcedor jogou-lhe bananas. Daniel foi extremamente espirituoso: sem titubear, pegou a banana, a descascou, comeu e bateu o escanteio. O jogador encenou aquele velho dito popular que aconselha a fazer uma limonada quando a vida lhe der um limão. Ao comer a banana, Dani Alves fez muito mais do que uma bananada, ele mandou um recado para o mundo, ignorou o ignorante e primitivo preconceituoso. Foi como se dissesse: “que se dane o racismo, eu sou muito melhor que isso”. Seu ato já pode ser considerado um marco na luta contra o racismo no futebol.

Imediatamente, uma onda de apoio se espalhou pelas redes sociais. Neymar postou uma foto dele e de seu filho segurando bananas com legenda: #somostodosmacacos. O hashtag se espalhou rapidamente. Esportistas, cantores, atores, famosos e anônimos aderiram à “campanha” – até os loiríssimos Luciano Huck e Angélica.

Com a mesma rapidez q se espalhou a hashtag, muita gente se levantou contra a idéia de sermos tachados como macacos ou por achar que a campanha tira o foco real da discussão sobre o preconceito. Para mim, no entanto, não é o que se discutir sobre o racismo porque não há nenhuma lógica nele.

Como escrevi em minha página na rede social, eu havia decidido não me manifestar sobre o episódio que envolveu Daniel Alves pelo simples fato de evitar falar sobre o que eu não entendo. E o racismo, definitivamente, eu não entendo. Consigo compreender – embora não aceite – o preconceito ao homossexual, pelas religiões e pela idéia de reprodução familiar que vem arraigada por tanto tempo. Mas o racismo é incompreensível. O que leva uma pessoa a achar-se melhor do que outra pelo tom da sua pele? O que faz com que essa idéia absurda de superioridade branca continue a se propagar por aí de forma tão inclemente? Eu, sinceramente, achei uma excelente forma de ironizar os “primitivos” que se julgam superiores e agem de forma preconceituosa e desrespeitosa. É preciso sempre ridicularizar o racismo, porque o racismo é mesmo ridículo.

Na verdade, acredito que só haverá igualdade racial quando nós não falarmos mais sobre raças. O hashtag que Neymar propagou tem como objetivo, simplesmente, dizer que somos todos iguais, que tivemos a mesma origem. Se não formos todos macacos, que sejamos todos costela ou barro, tanto faz. Mas é bem louvável que se espalhe de qualquer forma a idéia de igualdade e que se ria – e muito – dos imbecis que ainda não a entendem. O que não podemos mais aceitar é essa segregação absurda, essa humilhação constante, essa discriminação irracional. Não podemos mais aceitar é que tantos Silvas morram sem ter a mínima oportunidade de brilhar. Não podemos mais calar, não podemos mais naturalizar o racismo, não podemos aceitar a discriminação racial e seguir andando. Vamos todos dar uma banana para o racismo e os racistas.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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