Possibilidades de expressão

yoniEm visita ao Brasil, mais do que um fenômeno político, a blogueira Yoani Sánchez representa um fenômeno cultural e social. Uma mulher comum, simples, sem traços de carisma pessoal, consegue em sua visita ao nosso país mobilizar a imprensa, provocar manifestações de protesto e ser apresentada ao plenário da Câmara dos Deputados como se fosse uma chefe de Estado, graças às possibilidades de expressão criadas pela tecnologia digital de comunicação e informação. Acontece que, com o advento da internet, vozes como a de Yoani podem ser ouvidas em qualquer lugar.

A internet e a avalanche de páginas digitais, portais informativos e blogs, favoreceu uma democratização do jornalismo e da informação. E criou também um desafio para as instituições tradicionais, mas ao mesmo tempo gerou uma ilusão de falso profissionalismo.

O número de usuários da rede social Facebook já bateu em um bilhão de pessoas. A quantidade de blogs existentes na internet provavelmente já passou dos 200 milhões de páginas. Com as facilidades digitais, recolher, editar e publicar notícias hoje em dia já não é mais um atributo exclusivo de quem fez curso de jornalismo ou trabalha na imprensa.

Tudo isso porque uma descoberta tecnológica, tão revolucionária quanto a invenção da tipografia há 500 anos, deu às pessoas a possibilidade de publicar fatos, imagens, dados, opiniões e comentários sem que elas possuam uma gráfica, uma estação de rádio, televisão ou uma empresa de produção cinematográfica.

As páginas virtuais se multiplicam e, com elas, aumentam os debates sobre a influência e a qualidade jornalística de sites ditos jornalísticos. Chega-se a questionar o tempo de vida dos jornais impressos. No entanto, blogs como o GeneracionY, escrito por Yoani Sanchez, não representa uma unanimidade no vasto mundo da internet e o número de blogs sem qualidade nem responsabilidade jornalística vem crescendo vertiginosamente. Há quem acredite que muitas pessoas descobriram, na criação de blogs, uma forma de ganhar dinheiro fácil não só vendendo espaços publicitários, mas vendendo, também, informações falsas e sem credibilidade, ofendendo terceiros ou criando polêmicas sem conteúdo. Esquecem a função do jornalismo, passam por cima de princípios e valores e desconhecem o significado da palavra ética.

Em 2005, quando preparava meu trabalho de conclusão de curso, o que na Uesb chamamos de PEJ – Programa Experimental em Jornalismo debrucei-me por meses sobre as edições antigas do jornal Dimensão, na tentativa de escrever um livro reportagem sobre a nossa história. Passeei pelos nossos mais de 1000 números, li matérias das quais nem tinha conhecimento e dei uma atenção especial a cada um dos editoriais escritos pelo nosso eterno editor. Eram nesses editorias que se desenhavam a nossa cara, o nosso jeito. Era ali que eu encontrava a essência do nosso jornal, seus valores e princípios que, até hoje, tentamos conservar. Um desses textos que preenchiam a página dois, em especial, ficou gravado em minha memória com muita clareza. A ousadia me impressionou, a sinceridade me encantou. Mas, acima de tudo, o que fez com que eu registrasse aquele editorial com impressionante riqueza de detalhes foi a expressão clara e definitiva de princípio, caráter e independência dos quais o jornalista não pode, em hipótese alguma, abrir mão. Dizia o editorial de 1981:

“Este pessoal não tem jeito mesmo. Por mais que a gente diga, por mais que a gente procure ensinar pelo exemplo, eles não se tocam. (…) Bolas, camaradas. Eu não tenho patrão, não tenho senhor, sou dono absoluto do meu nariz. Enfrento qualquer parada, topo qualquer dificuldade para não abrir mão do meu direito de pautar o meu comportamento segundo os ditames da minha consciência. Sou um homem independente, camaradas, coisa difícil de se encontrar hoje em dia. Independente, sabe? Sabe nada. Se algum dia soube, já esqueceu como é. (…) Acolhi na primeira página deste desaforado jornaleco as queixas dos humildes funcionários do Gerfab. É verdade. Dei de graça a primeira página quando cobro quarenta mil cruzeiros da Gerfab por uma página interna. Dei porque quis, porque este jornal é meu e faço dele o que bem quiser e entender e ninguém tem nada a ver com isto. Quem não gostar que coma menos – que leia menos, seria o caso.”

Já falei por algumas vezes sobre a dificuldade de se manter um jornal no interior, principalmente com todos os adventos da tecnologia, a rapidez e o imediatismo dos blogs. Mas nos mantemos de pé, por todos esses anos, apesar de todos os desafios, porque acreditamos no trabalho que fazemos, pela seriedade que o encaramos, pela independência e pela credibilidade que conseguimos conquistar nessas mais de quatro décadas de circulação. Enquanto pudermos continuar desempenhando bem o nosso papel como porta-voz da nossa comunidade de maneira ética e mantendo os nossos princípios, permaneceremos com o nosso trabalho reto sem nos render a interesses menos dignos nem mergulharmos na onda dos falsos jornalistas. A internet, assim como sempre foi o jornalismo impresso, é uma arma poderosa e deve ser usada com responsabilidade para defender aquilo que realmente acreditamos.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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