Portabilidade insuperável

Dezembro chegou e com ele intensificaram-se as movimentações natalinas fazendo este parecer ser o mês mais curto e mais corrido de todo o ano. Para agilizar nosso já tão curto tempo, a tecnologia é a nossa maior aliada. Nesta semana começaram a chegar alguns dos presentes que havia comprado pela internet para encher a nossa árvore de Natal. Fazer compras sem ter que ir ao centro da cidade, sem precisar lutar pelas poucas vagas de estacionamento, nem se equilibrar de salto nos paralelepípedos das nossas ruas, evitando enfrentar o calor escaldante típico de Itapetinga e o mau humor de alguns vendedores é, realmente, um dos grandes benefícios que a tecnologia nos trouxe.

Além disso, não vai ser por falta de tempo de reunir toda a família que deixaremos de fazer o sorteio do nosso amigo oculto. Isso mesmo, aqui em casa ele também será feito via internet. Alguém já pensou em um programa específico para isso: todos cadastram seu e-mail e, na data marcada, o programa faz o sorteio e manda o nome de quem deverá ser presenteado por você. No mesmo programa você pode criar um perfil, marcar valores médios e dar sugestões de presentes. Chegou o fim dos papeizinhos com nomes e dos vários sorteios em que alguém tira o próprio nome e precisamos começar tudo de novo. Falta pouco para as crianças mandarem um post na rede social do Papai Noel.

Os meios eletrônicos – ou digitais – tornaram-se efetivos no Brasil há pouco mais de 20 anos. Rapidamente foram ganhando espaço. Chegou com tanta força que fez muitos comércios se reinventarem e já começaram a fazer que reinventemos, inclusive, a nossa rotina. Como não poderia ser diferente, mudaram, também, os meios de comunicação. Realizaram uma série de ataques aos jornais impressos. Erodiram sua principal fonte de receitas, os classificados, e roubaram-lhes parte considerável de sua base de leitores. Trouxeram instabilidade às mídias tradicionais e são apontados como causa principal tanto do fechamento quanto do encolhimento de impressos importantes em várias regiões do mundo. Embora o epicentro da tempestade ainda não tenha passado, é possível afirmar que os impressos começam a enxergar algumas luzes no final do túnel.

A primeira luz a ser vista é a percepção de que a credibilidade do papel vai fazer muita falta, se desaparecer, tanto para a democracia quanto para a articulação da sociedade. Em resumo, essa credibilidade significa o seguinte: um governo não responde a um ataque ou a uma crítica que venha pela internet, mas responde, instantaneamente, ao ataque que venha pelo papel. Um impresso independente tem toda a credibilidade do mundo e a web já nasceu sem ela, sem nenhuma credibilidade. São características intangíveis dos meios. Só o papel – e de certo modo também a TV aberta – tem condições de dizer, em nome da sociedade, “isto é inaceitável” e desse modo pressionar para que os procedimentos sejam trazidos para dentro do comportamento republicano ou da democracia.

Além disso, a portabilidade do papel é insuperável. Jornal, você lê em qualquer lugar e a qualquer hora. Para consumir uma informação pela web precisamos estar em lugar servido por energia elétrica, por sinal, e dispormos de certos equipamentos de acesso. Os impressos levam a informação até os consumidores e a torna pública através da exposição em bancas; para consumir uma informação na web, é preciso antes encontrá-la num cenário difuso que exige paciência e certas habilidades. Pelo celular, vem apenas a superfície da superfície da informação.

Não se pode negar que os jornais impressos vêm recorrendo em uma série de erros e têm muito que se adequar nessa nova era tecnológica que traz rapidez e comodidade, mas ainda acredito na força do impresso e justamente por isso o permanecemos fazendo.

Não dá para ter certeza se haverá, em vinte ou trinta anos, jornais. Mas o que sabemos é: daqui a duas ou três décadas, as pessoas ainda precisarão se locomover, por isso terão algum meio de transporte. Igualmente, as pessoas ainda não conseguirão se informar sobre todos os assuntos por contra própria, muitos não vão querer ter o trabalho de selecionar tudo e, por consequência, existirão pessoas cujo trabalho será auxiliá-las nisso. Provavelmente, esses profissionais serão chamados de jornalistas. Enquanto houver palavras, haverá jornalismo para escrevê-las.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

Tags: ,

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário