Por uma democracia mais madura

Na última quinta-feira, completaram-se 30 anos da eleição de Tancredo Neves. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito no Congresso como o primeiro presidente civil após 21 anos de Ditadura Militar. Em uma eleição indireta, o colégio eleitoral escolheu Tancredo por 480 votos contra apenas 180 de Paulo Maluf. Sim, ainda eram eleições indiretas, mas já era um importante passo para a formação da Nova República. Tancredo venceu Maluf facilmente, mas perderia para a doença que três meses depois o matou, sem deixar que assumisse a presidência. Resultado dos compromissos feitos em campanha, seu vice, José Sarney, convocaria a Assembleia Nacional Constituinte e eleições diretas para todos os níveis de poder. Sob a luz de uma nova Constituição, em 1988, o país começaria a se livrar do entulho autoritário.

O Brasil de 30 anos depois deve muito à atuação política de Tancredo Neves que fez a costura política que permitiu – sem tiros nem rupturas, como dita o jeitinho brasileiro – a troca da ditadura por um regime de liberdade política tão ampla que até a extrema direita revoltada hoje tem o direito de berrar nas ruas pela volta dos militares.

A democracia é um regime político que, por se basear na vontade do povo, tende a gerar melhores condições de vida para a população. É o sistema onde o poder, entendido como capacidade de decidir, agir e gerar efeitos, emana do povo, tem sua origem nos membros da coletividade, sendo por isso chamado de “poder original”, do qual os cidadãos são os legítimos detentores.No entanto, não é um sistema político isento de defeitos. Adolf Hitler, por exemplo, ascendeu ao poder absoluto na Alemanha por via eleitoral e conduziu em seguida o país a um violento e desnecessário conflito mundial. Mas, apesar de seus defeitos, a democracia é o sistema político que apresenta melhores resultados quanto à harmonia social e à qualidade de vida da população. Winston Churchill disse em discurso, certa vez, que “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. E assim acredito. Embora seja um regime cheio de defeitos, a democracia ainda é a melhor das alternativas e o voto a maior arma da vontade popular.

padrão destaqueO voto secreto e direto, então, é uma grande conquista para toda a sociedade. Depois de um ciclo ditatorial de duas décadas e meia, os brasileiros podem decidir livremente quem achavam que seria o candidato mais apto para representar suas vontades e convicções no governo do nosso país. O voto é a voz do cidadão que quer melhorias, quer saúde, educação, trabalho, obras de qualidade. O cidadão que sabe valorizar seu voto não abre mão do seu direito e sua escolha é embasada por uma análise própria onde o que pesa são as propostas, as realizações e o passado de cada candidato. Não se deixa levar por discursos baseados em crenças, palavras e gestos repletos de componentes emocionais, jogos de imagem para agradar eleitorado, pois sabe que não é isso que garante um bom governo. O eleitor deve escolher o candidato que está em sintonia constante com as reais necessidades da população e cujas realizações do passado avalizam suas promessas futuras, pois sabe que o candidato que acompanha a história do desenvolvimento de sua localidade e que tem o que mostrar de realizações e melhorias para a sociedade com certeza é o que tem maior probabilidade de fazer um melhor governo.

No entanto,a esmagadora maioria da sociedade ainda não tomou consciência do valor do voto e, mesmo após mais de vinte anos de democracia popular, não tomou conhecimento de suas repercussões quando exercido de forma displicente ou irresponsável. É comum vermos políticos de carreira sendo reeleitos eternamente, mesmo envolvidos até o pescoço em conluios escusos e maracutaias expostas publicamente. Mas essa sociedade aparentemente revoltada é a responsável por colocá-los no poder. É através do voto popular que se perpetuam no poder aqueles que flagrantemente não têm o interesse público dentre suas preocupações primárias enquanto representantes do povo.

Portanto, falta encarar o momento do voto com a devida seriedade. Falta tomar consciência de que o momento em que nos dirigimos às urnas é o ápice do exercício de nossa cidadania. É o momento no qual concretizamos o instrumento pelo qual podemos fazer valer nossos direitos enquanto cidadãos. Falta analisar com extrema diligência os candidatos que pleiteiam os cargos eletivos, pois uma vez eleitos, são eles que irão materializar a vontade do povo em ações que poderão ser um serviço ou um desserviço a toda sociedade, conforme suas vontades. Falta, acima de tudo, aprendermos com nossos erros. Votar com consciência, além de dever, é muito mais um direito e oportunidade de contribuir para a melhoria da sociedade.

 

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