Piada de mau gosto…

As redes sociais hoje são capazes de suscitar debates em torno dos mais diversos temas, reunindo as mais diferentes pessoas. Esta semana percebi uma certa movimentação em defesa do jornalista e humorista Rafael Bastos, apresentador da TV Bandeirantes. Ele estaria sendo processado pela cantora Wanessa por uma piada nada engraçada feita, ao vivo, no programa CQC – Custe o Que Custar. Em meados de setembro, quando Marcelo Tas, seu colega de bancada, comentou que a cantora, grávida de 6 meses, estava bonitinha, Rafinha, como é conhecido na Band, disparou seu veneno com a frase: “Eu comeria ela e o bebê”.

Diz o bom senso, que tudo na vida tem um limite. E que a liberdade de um termina quando a do outro começa. Rafinha Bastos é talentoso e dono de uma capacidade de se comunicar e interagir com o público fora do comum. Tal capacidade levou o rapaz ao estrelato e figurar em diversos programas na televisão. Rafinha, 34 anos, formado em jornalismo, se fez na mídia através principalmente do Stand-UP comedy. Gênero importado dos Estados Unidos, do qual o comediante faz diversas piadas, normalmente em apresentações solo, sempre ao vivo. Rafinha tornou-se um dos principais membros do programa da Band CQC, outro fenômeno de audiência que vai ao ar todas as segundas-feiras. Mas, nos últimos meses, Rafinha tem se destacando por ousar nas piadas além da conta, principalmente com temas considerados tabus e dos quais machucam as pessoas. Rafinha tem disparado, frequentemente, através da sua língua venenosa, impropérios como: “Se Deus é brasileiro saibam que ele sacaneou Rondônia e o diabo deixou herdeiros por ali” ou “cadeirante tem preferência na fila do banco, mesmo sendo o único que está sentado”. Ou ainda, “hoje é dia das mães, dia muito triste para os órfãos”. E, para mim, a pior de todas: “Se uma mulher feia for estuprada, ela deve agradecer”.

É deplorável quando humoristas fazem comentários ofensivos ou preconceituosos em veículos de comunicação de massa sob a justificativa de liberdade de expressão. Quem conta “piadas” que ultrapassam o limite do bom gosto diz ser adeptos do politicamente incorreto, como se isso fosse moda e, portanto, justificasse tudo. Nunca defendi a onda de exagero do politicamente correto, mas vou defender sempre a exigência de respeito ao próximo. Exatamente por isso, sou completamente a favor da punição do humorista, acho que limites devem ser impostos e isso nada tem a ver com censura. Mas tenho consciência, também, de que a retirada do apresentador Rafinha Bastos da bancada do programa CQC, após as repercussões negativas do último caso, é bastante representativa de como as coisas funcionam no Brasil.

Quando ele disse que mulher feia deveria se sentir agradecida por ser estuprada e que o estuprador merecia um abraço, houve protestos e manifestações de rua e pedidos de investigação ao Ministério Público Federal. Mas a emissora não o tirou de lá. Agora que apareceu uma piada (de péssimo gosto, é verdade, mas menos ofensiva do que a primeira) contra a cantora Wanessa, filha do cantor Zezé de Camargo e esposa do empresário Marcos Buaiz, amigo do ex-jogador Ronaldo, houve reação.

Uns podem dizer que essa foi a gota d’água, que ele queimou a última chance ou está sendo sacado pelo conjunto da obra. Mas o caso do estupro já era forte o suficiente para repreendê-lo severamente ou retirá-lo de lá. Particularmente, acredito que a audiência é um argumento poderoso e leva à condescendência. Mais forte, porém, são relações sociais que operam redes econômicas e análises de risco apontando perdas maiores que ganhos. E aí está a justificativa da reação da Bandeirantes justamente agora.

Mas, independente dos motivos que levaram à punição de Rafinha, ela foi bem aplicada. Censura é uma coisa abominável. Mas não pode ser confundida com a proibição de usar meios de comunicação de massa para a apologia ao crime, à intolerância ou à ofensa. A campanha “pró-rafinha” iniciada pelo facebook compara os seus impropérios (agora punidos) com atos de corrupção e roubalheira praticados pelos nossos governantes (sempre sem punição), questionando sobre “que país é este”. Alguns compartilharam a frase: “Brasil: País onde os políticos podem fazer piada a vontade, e os humoristas são levados a sério”.

É claro que a impunidade política deve ser criticada e findada. Mas essa luta não deve ser a única, ainda temos muito pelo que lutar por um país melhor. E exigir respeito de todos, principalmente daqueles com a função de formadores de opinião, é importantíssimo. Esse nosso Brasil vai ficar ainda mais difícil de ser compreendido quando os brasileiros começarem a defender e aplaudir atitudes grosseiras como as de Rafael Bastos.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

Tags: , ,

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário