Passando o recibo

modelo 1O cansaço que atinge a sociedade brasileira com a política desenvolvida ao longo dos últimos doze anos pelo Partido dos Trabalhadores não se explica apenas pela ausência de um programa de governo, renovado e atualizado, para atender aos mais justos anseios da população. Explica-se, também, pelo uso desenfreado da máquina administrativa, manipulada sem a menor cerimônia em todas as esferas da federação, com manifesto desprezo aos princípios mais elementares da moralidade pública, e a estrutura de governo posta a serviço dos interesses dos dirigentes petistas para assegurar-lhes a sobrevivência política e a manutenção do poder. Tornou-se público e de conhecimento geral que a corrupção corre solta e que os casos denunciados pela imprensa são apenas a ponta de um iceberg de gigantescas proporções. E, nesse caso, valem tanto a realidade quanto a imaginação, derivando-se esta daquela, que é mais frondosa e produz frutos com maior poder de delinquência.

Além das causas acima apontadas, há, entretanto, a meu modesto entender, um outro fator que influencia diretamente essa fadiga experimentada pelo povo brasileiro em relação ao prolongado tempo de domínio do PT: refiro-me à ausência de quadros com suficiente densidade dentro da legenda a ponto de lhe oxigenar a engrenagem, fazendo-a girar ao encontro dos seus propósitos estatutários vigentes, ainda que desprezados. Como toda agremiação que endeusa o populismo, o PT é partido de um homem só, um único, absoluto e incontrastável líder. A tal ponto que não é exagero dizer que quando Lula espirra a companheirada corre aos postos de saúde para tomar vacina contra gripe. Se, por uma fatalidade do destino, Lula faltar o PT receberá atestado de óbito.

Mesmo quando se trata de uma liderança de reconhecido carisma, e ninguém pode negar a Lula essa qualidade, a sua habilidade em criar situações, a sua privilegiada inteligência, um partido político não pode ficar a mercê de um único pensamento; para sua continuidade, necessita formar novos e qualificados quadros em suas fileiras. E, precisamente, nesse detalhe surge o grande empecilho: o todo poderoso chefão é cioso de seu comando e não admite que outros, com novas ideias, possam lhe fazer sombra. Enquanto Lula viver, o PT será ele e ele será o PT, e os petistas meros componentes da legenda, sempre prontos a render-lhe irrestrita obediência e muitos aplausos, agradecidos com a última palavra de ordem. Nesse particular, mostra a história que o PT não faz nenhuma inovação; todos os outros partidos políticos que cultivaram líderes populistas sofreram do mesmo vício e pagaram o mesmo preço por não permitirem o surgimento de sucessores.

Longe dos meus propósitos formar convencimentos, o que faço neste espaço é manifestar a minha opinião, após analisar os fatos sobre os quais ouso comentar. E, tomando por foco o quanto noticia a imprensa sobre a situação atual do PT, com candidata assumida e em franca campanha para a sua reeleição à Presidência da República, sou levado à conclusão de que o PT passou recibo quanto à procedência e veracidade dos números revelados pelas pesquisas de intenção de votos divulgadas pelos mais variados institutos que auscultam a opinião pública. A reeleição da presidente Dilma Roussef, em primeiro turno de votação, o que, antes, era tido como favas contadas passou a ser descartado, e, agora, o que se põe em dúvida é a sua capacidade de eleição, em muito provável segundo turno.

O reconhecimento desta crítica situação obrigou o PT a movimentar-se na tentativa de estancar o prejuízo e equilibrar os pratos da balança, que, pelo andar da carruagem refletido nas pesquisas, estão empenados e com propensão a empeno maior, para o lado da oposição. Não por acaso a constatação de que mais de dois terços das pessoas consultadas manifestam o desejo de mudanças do quadro atual. E o PT sabe que isto significa mudança na forma de dirigir o país, mudanças que dificilmente serão alcançadas com a “simpatia” distribuída com o “sorriso fácil e generoso” da Presidente, e muito menos com seus incongruentes pronunciamentos, tanto mais curtos quanto mais grossos, quando feitos de improviso, e, quando lidos, entrecortados de incompreensíveis lapsos de retórica, mostram a incapacidade da oradora em se comunicar, parecendo-se satisfeita com as palmas do público oficial ao seu lado.

E a movimentação do PT, o rolo compressor, isto é, Lula e sua tropa de elite, em favor da sua candidata, que, nos limites fronteiriços do honroso cargo que ocupa, mal dissimula a ostensiva campanha em que está empenhada, não separando a figura da governante com a de declarada candidata a reeleição, o revide oficial, portanto, veio anunciado pelos ecos das trombetas do passado, difundindo os mesmos tons alarmantes e que produziram sabidos efeitos em eleições anteriores. Ao passar recibo da preocupante situação instalada em seu quintal, o PT, em sua última propaganda, difundida pela TV, em rede nacional, apelou abertamente para a pedagogia da intimidação coletiva, na base do “nós ou o dilúvio”, o “céu ou o inferno”, a “banda sadia e a banda podre”, auto proclamando-se o lado positivo da relação, reservada à oposição a negatividade da representação midiática. Tão grotesca foi a peça que o TSE, em oportuno pronunciamento, determinou a suspensão do programa.

Em sua fala, o PT comete o erro de desconsiderar o progresso experimentado pela sociedade brasileira ao longo dos últimos anos, progresso que não traz a marca de nenhum partido político em particular, mas que é fruto do esforço de cada homem e de cada mulher; progresso que é resultado da força da indústria e do comércio, impulsionado pelas inovações tecnológicas providas nos laboratórios das universidades. E, também, pelo efeito cumulativo do trabalho dos governantes. Enfim, essas ameaças e comparações toscas que o PT quis espalhar já não penetram o espírito do brasileiro, cada dia mais agente do seu destino.

 

 

* Laécio Sobrinho é advogado

laolsadv@hotmail.com

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