Partilha que não interessa mais a ninguém

padrão destaqueNa quarta-feira passada, dia 26, o Jornal da Band divulgou matéria com a denúncia de que cidadãos baianos estavam sendo coagidos a fazer cadastro na Funai – Fundação Nacional de Índios – como se fossem índios para engrossar invasões de terra no sul da Bahia. A área pretendida pela Funai fica numa região conhecida como Costa do Cacau e do Dendê. Até agora, mais de 100 propriedades já foram invadidas por grupos armados liderados por caciques que se dizem índios Tupinambás. A matéria, que inclusive tem depoimentos de não índios que se cadastraram ilicitamente, revela como é feita a fraude e como se organiza o grupo que tenta aumentar seu exército.

No início de fevereiro, terras da região de Palmares foram invadidas por um grupo que se dizia da tribo Pataxó. Os funcionários das fazendas, com medo da truculência dos invasores, deixaram as terras desertas. As cerca de 10 fazendas invadidas são comprovadamente áreas de propriedade privada destinadas à prática da agropecuária, mas ao que parece os limites estão cada vez menores e bandidos começam a se esconder atrás da história indígena na tentativa de permanecerem na impunidade.

Há alguns dias, li um texto polêmico de Roldão Simas Filho, jornalista e escritor, que afirmava que a proteção aos índios era apenas um pretexto para a implementação de uma política ideológica. Segundo ele, “os episódios conflituosos envolvendo indígenas em vários estados, neste início de 2014, não deixam margem a dúvidas: ou a sociedade brasileira se decide a interromper o avanço do “indigenismo” como ideologia motivadora das políticas do Estado para os povos indígenas, ou o País corre o risco de ver multiplicarem-se de forma explosiva os conflitos entre estes últimos e os não-indígenas, com sérias ameaças para a ordem social e, no extremo, até mesmo para a sua integridade territorial”.

O avanço dos índios – e dos falsos índios como a gente pôde ver na matéria da Band – sobre as terras declaradas ou não como indígenas chegou a uma proporção tão grande que a população das regiões que circundam as terras que eles invadem começa a se rebelar contra eles. O resultado a gente confere com freqüência nos noticiários: protestos, mortes, destruição de estradas, incêndio de imóveis e veículos da Funai.

A revolta da população e, principalmente, daqueles que têm suas terras invadidas é bem justificável. A maioria das tribos que ainda se denominam indígenas parece já bastante afastada dos modos de vida tradicionais de seus antepassados. Uma matéria da Folha de S. Paulo demonstrou que a comunidade dos índios Tenharim, que ocupam o sul do Amazonas, possui muito pouco da cultura tradicional. Eles já não têm pajés e a maioria da comunidade é evangélica, torce pelo Corinthians e pelo Flamengo e moram em casas de madeira com eletricidade paga com o auxílio do programa Luz para Todos. Além disto, quase todas as famílias são bilíngues, têm aparelhos de televisão e motocicletas e duas de suas oito aldeias estão conectadas à internet.

Como os tenharins vivem muitas comunidades indígenas que hoje ocupam territórios gigantescos do nosso país. Em tais condições, é simplesmente absurdo que sejam tratados como indígenas atrasados e incapazes de um processo ordenado de integração à civilização (que deveria ser o objetivo de uma política indigenista séria), e abandonados às mazelas de uma política segregacionista que, além de não atender às suas necessidades, os coloca em confronto com os seus vizinhos não indígenas.

Segundo Roldão, “em nome de uma tarefa histórica necessária – preservar uma cultura que distingue o país e integra a memória da nação -, criou-se uma partilha que não interessa mais a ninguém. Nem aos descendentes dos primeiros brasileiros, que têm direito ao bem-estar e ao progresso do século XXI, nem ao conjunto do país, que procura espaços e caminhos para um desenvolvimento para beneficiar uma população de 190 milhões de brasileiros”.

Desde a colonização, a nação brasileira vem se formando a partir do convívio de culturas e sociedades muito diferentes. Com o tempo, o país avançou e é preciso que o avanço continue sem prejudicar parcelas menos protegidas em sua força e sua memória, mas também sem atrasar um país inteiro em nome de benefícios para essa parcela. A prova de que é muito difícil encontrar um ponto de equilíbrio entre esses dois objetivos é que até hoje não se conseguiu uma pacificação sobre o assunto. E justamente por isso é importante se debater a situação de forma urgente, sensata e coerente.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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