Pacientes do Centro de Recuperação desaparecidos

Sem título-1O senhor Clóvis Passini, 63 anos, casado, pai de 6 filhos, é o responsável pelo Centro de Recuperação União pela Fé, que semana passada, por determinação do Ministério Público, teve suas portas lacradas pela Vigilância Sanitária, numa operação que contou com as presenças de representantes da Secretaria de Desenvolvimento Social, Conselho Municipal de Saúde, Samu 192, CAPS, Polícia Militar e Guarda Municipal.
Indignado com o tratamento recebido pela equipe da Vigilância Sanitária e outros prepostos, o pastor disse ter observado a ação de esvaziamento de seu Centro com muita tristeza e indignação. “Não me deram direito de defesa. Os internos nem almoçaram, tive que jogar fora a comida preparada para eles naquele dia”, desabafou o pastor, que empunhando um cartaz, questionava das autoridades responsáveis pela ação sobre o destino dado a dois de seus pacientes – andarilhos que não tinham documentos nem família em Itapetinga – que estavam sob os seus cuidados há quatro e há dois anos. O pastor conta que o primeiro desaparecido, Joselito, foi deixado no Centro por D. Zezé, então funcionária do CAPS, hoje já falecida. “Ela disse que ele precisava pernoitar e que, no outro dia, o CAPS iria providenciar a passagem dele para a cidade de origem. Nada disto foi feito e eu acabei auxiliando o Joselito, que estava conosco há quatro anos e era pessoa educada, ajudava nas atividades do Centro e frequentava a minha casa nos finais de semana”, contou Clóvis. O segundo desaparecido, o Kelvin, após tentativa de suicido nas ruas, foi levado para o Centro por uma equipe da Polícia Militar e da Guarda Municipal. Kevin havia sido acolhido e estava melhor, o que não justificaria o desaparecimento após a interdição do local.
O Pastor Clóves disse ter sido informado por uma integrante da Secretaria de Desenvolvimento Social que os dois andarilhos teriam sido encaminhados para Vitória da Conquista, para um albergue. “Estive lá pessoalmente, na casa do andarilho e outras instituições e ninguém recebeu pacientes de Itapetinga”, comentou o pastor, que demonstra preocupação com a situação de saúde e sobrevivência dos dois senhores.
Clóves Passini conta da sua angústia ao receber uma notícia de que os dois andarilhos teriam sido deixados à beira da pista, sem ter, em hora alguma, chegado à Conquista. “Estou fazendo um apelo para ver se os encontro, fiz cartazes com as fotos deles, fui para a imprensa e se possível vou andar entre uma cidade e outra até encontrá-los. Já preparei toda a minha documentação de defesa e vou apresentar ao Ministério Público. Quero que os pacientes que estavam sob os meus cuidados me sejam devolvidos, principalmente esses dois, que não tinham ninguém por eles”, desabafou.

Denúncias
Sem título-2O pastor Clóeis Passini se defendeu ainda das acusações feitas pela coordenadora da Vigilância Sanitária do município, Cacileide Bonfim, de que uma senhora, encontrada com os pés ensanguentados e desnutrida, estaria sofrendo maus tratos em sua instituição. Segundo ele, “aquela senhora foi tirada da sarjeta na Central de Abastecimento. A encaminhei para atendimento médico no Posto de Saúde e no Hospital e nenhum dos dois se interessou em ficar com ela. O Hospital alegou que o setor de isolamento não tinha vaga e que ela então não poderia ficar internada. Os curativos dela passaram então a serem feitos lá no próprio Centro pela nossa Técnica de Enfermagem e tenho fotos e provas de que ela era bem cuidada lá. Depois, conseguimos localizar uma de suas filhas na Vila Rosa e a devolvemos à família”. O pastor questiona sobre a atenção que deveria ser dada pela Vigilância Sanitária ou a Secretaria de Saúde à senhora que já havia chegado ao centro com as feridas nas duas pernas.
O pastor também lamenta a situação de um senhor que se recuperava de tuberculose e que também teve que ser devolvido para a família e acabou falecendo, semana passada, sozinho, em uma casa sem energia e sem acompanhante. “Eles disseram que ele não poderia ficar lá conosco, mesmo já estando em tratamento contra a tuberculose lá na Maçonaria. Tive que devolvê-lo à família, o irmão me garantiu que não tinha como tomar conta dele e que o levaria de volta ao mesmo local de onde o tiramos, semi-morto, em meio a muito lixo e miséria. Por que será que a Vigilância Sanitária ou a Secretaria de Saúde não o enxergou antes de nós?”. Clóvis contou que, um dia depois de visitar o enfermo e se organizar para levar-lhe um colchão para sua melhor acomodação, recebeu a notícia de que ele havia amanhecido sem vida.

Manifestação
Na manhã desta sexta-feira, uma manifestação foi organizada pelo pastor Clóves e familiares dos pacientes que eram assistidos pelo Centro de Recuperação União pela Fé. Em frente à prefeitura, eles cobravam uma atitude do poder público municipal no que diz respeito, principalmente, ao desaparecimento dos pacientes Joselito Santos Teles e Kelvin, que até o fechamento desta matéria ainda não tinham sido localizados. “O que fizeram com eles dois foi um ato criminoso, até que me provem o contrário. São agora desaparecidos pelo poder público e eu não vou parar até que tenha notícias deles”.
Disposto a enfrentar o desafio, o pastor disse que continuará a luta para a adequação às exigências a ele feitas pelo Ministério Público e Vigilância Sanitária. “Nasci com a missão de salvar vidas. Enquanto vida eu tiver, vou lutar para auxiliar os irmãos com problemas mentais e condições mais difíceis que a minha”, registrou o pastor, acrescentando que até os cartões de benefício previdenciário de seus pacientes foram levados pela equipe que interditou o Centro. “Eu tinha alguns deles que realmente eram aposentados, outros, nada podiam colaborar e, ao invés de suas famílias me ajudarem de alguma forma, eu é que as ajudava, com doação de cestas básicas”.
Clóves Passini constituiu advogado de defesa e na próxima semana apresentará suas gravações, fotografias e documentos ao Ministério Público.

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