Os nós políticos da presidente

Relembrando o passado, em dezembro de 2010, escrevemos um editorial, falando das previsões nada otimistas dos jornais ingleses The Financial Times e The Guardian, para os próximos quatro anos de governo da presidente Dilma. Naquela ocasião, os dois periódicos informaram que a falta de habilidade política da presidente poderia dificultar-lhe o entendimento com os políticos e, consequentemente, por em risco a coalizão da base aliada construída pelo ex-presidente Lula e, a seguir, a própria governabilidade.

No ano anterior, embora a presidente Dilma passasse por algumas contrariedades, como quando viu o seu partido dar a presidência da Câmara dos Deputados a Marco Maia que ela queria para o deputado Cândido Vaccarezza, sua gestão correu de forma tranquila.

Porém, mal teve início o segundo ano de sua gestão, as dificuldades da presidente, no trato com o seu partido e com a base que lhe dá sustentação no Congresso Nacional, começaram a surgir e, para alguns analistas políticos, de forma até preocupante.

Insatisfeitos, os principais dirigentes dos partidos, integrantes da coalizão, passaram a exigir um novo modelo de relacionamento com o Palácio do Planalto, com menos poder para o PT, mais diálogo com os parlamentares e o cumprimento das promessas de liberação das emendas parlamentares.

Para os aliados, o PT está levando enormes vantagens sobre os demais partidos da coalizão, tanto na ocupação de espaços dentro do governo, como no ganho de dividendos políticos. E, como mandasse uma advertência ao governo, a base aliada resolveu impor-lhe uma derrota política, ao rejeitar a indicação de Bernardo Figueiredo, preferido da presidente, para a direção geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Por conta do revés sofrido, que preferiu não absolver, a presidente trocou as lideranças do governo, na Câmara Federal e no Senado, incendiando, de vez, as relações entre o governo e a cúpula do PMDB e, de sobra, produzindo grandes insatisfações dentro do PR e de seu próprio partido, o PT.

Embora os líderes substituídos representassem o governo nas duas casas legislativas e o ato seja uma mera prerrogativa da presidente, as substituições, nas atuais circunstâncias, foram tomadas pela cúpula do PMDB como uma ação contra o partido. Por sua vez, a bancada do PR, no Senado, nessa quarta-feira, aproveitou o episódio para selar o rompimento com o governo, por meio de um telefonema do líder do partido, Blairo Maggi, à Ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti: “ministra – disse o senador – nós temos uma decisão que vou comunicar-lhe agora. Nós, do Senado, não queremos mais negociar com o governo. Nossa posição é de não mais apoiar, nem acompanhar o governo no dia a dia. Estamos há nove meses conversando. Cansei! PT, saudações.”

Após o incidente desta semana, as críticas à presidente, quanto ao seu estilo de relacionar com o Congresso, chegaram de todos os lados. Alguns parlamentares disseram que ela não sabe fazer política, confirmando o que já haviam dito os jornais ingleses, antes da sua posse. Um auxiliar próximo da presidente prevê dias difíceis nas negociações. O ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, presidente do PR, declarou que o partido vai rever suas posições para as eleições municipais deste ano, e que não haverá coligações com o PT. E a eleição para a prefeitura de São Paulo foi lembrada pelo líder Blairo Maggi que descartou uma chapa com Fernando Haddad do PT.

Até o ex-presidente Collor de Mello, hoje senador da República, achou-se no direito de mandar um recado à presidente: “o diálogo precisa ser reaberto. É fundamental que o Planalto ouça esta Casa e ouça a Casa ao lado (Câmara dos Deputados). Digo isso, com a experiência de quem, exercendo a Presidência, desconheceu a importância fundamental do Senado e da Câmara para o processo democrático e de governabilidade. O resultado desse afastamento meu redundou no meu impeachment.”

Para os parlamentares dos partidos que formam a base aliada, não há dentro do governo quem se entenda com o Congresso, de forma satisfatória. Lembram a época do ex-ministro Palocci em que o diálogo, entre a classe política e o governo, era respeitoso e produtivo, e as nomeações saíam com frequência. Para o momento, fazem sérias críticas a atuação da ministra Ideli Salvatti das Relações Institucionais, encarregada pelo governo das negociações com os deputados e senadores, pela sua mudança na forma de agir. E, como a dificultar mais o entendimento, acusam-na de idealizadora da troca dos líderes do governo no Senado e na Câmara dos Deputados.

Segundo alguns parlamentares, durante o ano passado, a ministra ainda ouvia todo mundo e prometia levar suas reivindicações à presidente. Neste ano, passou a enfrentá-los e agir de forma truculenta.

No último dia sete, durante reunião na Câmara para tratar do Código Florestal, assim que o deputado Valdir Colatto do PMDB de Santa Catarina pediu a palavra, a ministra o cortou, dizendo: “Não me venha falar de mudanças no projeto do código que saiu do senado. O governo só aceita esse. E é nesse que vamos votar e aprovar.” E, assim que alguns deputados que defendiam mudanças, começaram a argumentar, a ministra Ideli ameaçou: “Quero ver alguém da base votar contra o projeto que veio do Senado.”

Se a insatisfação da base aliada já não fosse suficiente para intranquilizar o governo, a presidente mostrou-se também disposta a comprar briga com os militares. Logo que tomou conhecimento do manifesto, “Alerta à Nação,” lançado por clubes militares, a presidente irritou-se com seus signatários e declarou: eles que venham porque, por aqui, não passarão.”

Provavelmente, deverá incendiar mais ainda essa questão, as ações que o Ministério Público Federal pretende ajuizar, para responsabilizar criminalmente as pessoas envolvidas com os chamados delitos permanentes – sequestro e ocultação de cadáver – praticados por agentes do estado, nos anos da ditadura militar. Argumentando que os possíveis autores de crimes permanentes não foram abrangidos pela Lei da Anistia, os procuradores querem levá-los a julgamento.

Rechaçando a ideia do Ministério Público, militares da ativa e da reserva declararam que essa questão já foi discutida pelo Congresso Nacional e pelo Supremo Tribunal Federal e que, por essa razão, foi encerrada com a Lei da Anistia.

Nas ocasiões dos grandes desentendimentos, a sabedoria popular nos ensina que somente a tolerância e a humildade são capazes de mostrar a melhor saída.

 

 

* Djalma Figueiredo

djalmalf@hotmail.com

 

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