Os caminhos apontados de vermelho: memórias de uma professora de Português

“Notei que descobrir novos lados

De uma palavra era o mesmo que descobrir

Novos lados do ser.” (Manoel de Barros)

 

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Quem nunca teve uma professora (ou professor) de Português que brincava com as palavras não sabe o que é descobrir os horizontes. E descobrir horizontes não é só saber que horizonte é com h. Não é só saber empregar a vírgula em seu devido lugar. Brincar com palavras é, como afirma o poeta desta epígrafe, descobrir os outros lados do ser.

Eu descobri brincando com os textos em sala de aula, que do outro lado do ser está o extrovertido, o musical, o teatral, o performático, o roteirista, o cômico, o imitador, o emotivo, o amigo, o cooperador, o desenhista, o roteirista, o expert em internet, o escritor que vê beleza em tudo o que sua lente, ainda que amadora, capta – e a lente pode ser a da máquina fotográfica, ou os próprios olhos, ou as mãos que trabalham com a caneta e o papel.

Alguns alunos trazem consigo ares de escritor, performances encantadoras. Outros desenvolvem habilidades quando lhes damos liberdade de voar com as palavras. Há horizontes, e ao final está o fruto do conhecimento que envolve a disciplina de Língua Portuguesa, basta junto com os alunos a entrega às palavras no descampado da escrita. Quando nas aulas, a busca era incessante pelo melhor texto, pela melhor estratégia, era tudo para fazer brilhar os olhos daqueles jovens que estavam sob minha responsabilidade no tocante à prática da leitura e da escrita proficientes. Buscava apontar luzes aos alunos que junto comigo trilhavam os caminhos por vezes firmes, por vezes tortuosos da escrita. Sempre apostava no reescrever, ora coletivo, ora na solidão de cada escritor aprendiz. A escrita era emoldurada em gêneros diversos! a referencialidade da notícia de jornal, a magia das canções, a astúcia da crônica, a leveza dos versos livres, o performático cordel.

E a minha velha e boa caneta vermelha? Professor de Português que se preze tem uma sempre à mão. É só tingir o caminho com delicadeza. A delicadeza é a bússola do bom ensinar. Mas, voltando à caneta vermelha, digo que não traumatiza ninguém, ao contrário, nunca houve desatino ou desencanto. Era só um “Ah, riscou meu caderno de vermelho?” Ou um “Ah, Ionã Scarante…” Mas logo, logo retornavam com algo mais aprimorado para me mostrar.

Foram tantos os alunos que passaram por minha vida nesses meus quase.. enfim, alguns anos de ensino: Cristianos, Tárcilas, Pablos, Bárbaras, Felipes, Lavínias, Rafaéis, Danielas, Melquisedeques, Rodrigos, Pedros, Anas, Marias, Karolines… Todos eles enveredaram pelos caminhos apontados de vermelho, como se esses fossem uma cor luminosa, sem vacilações, nem perigos. Segundo Cecília Meireles, em sua crônica Qualidades do professor, o professor deveria morar para sempre na vida dos alunos, orientando-os e fortalecendo-os com a inesgotável fecundidade da sua lembrança. Bom mesmo é se ele pudesse ser perfeito para que fosse um exemplo amado por seus alunos.Reescreve, escolhe, seleciona, revê e aprimora seu enlaçamento de frases. Aprimora-se. Esses devem ser os verbos mais utilizados nas aulas quando o assunto é escrever. É assim que vou adentrando sorrateiramente no escrever de cada aluno, adiantando-lhe pistas, sugerindo novas leituras, ajudando-lhe a dar vida às suas produções, proporcionando mudanças, novas estações; despertando mãos, ainda selvagens, para a tarefa de escrever, reinventando-nos, revisando-nos e descobrindo juntos novos caminhos.

 

* Ionã Carquejo Scarante é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura (PPGLitC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora de Língua Portuguesa do IFBaiano – Campus Valença.

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