Oh, linda situação!

Era começo da noite de sábado quando aterrissei no Recife. Havia táxis em abundância no aeroporto e logo eu estava a bordo de um deles a caminho do hotel. Durante o trajeto fui puxando papo com o motorista, mas ele, embora muito educado, era um sujeito de poucas palavras. Lá para as tantas, como não havia assunto que rendesse, perguntei-lhe: “O senhor conhece esse hotel para onde eu vou”. “Conheço sim, senhor”, respondeu-me. “E presta?”, indaguei-lhe novamente. Ao que ele me respondeu, num tom de quase advertência: “Tem melhores…”.

Aquela resposta tão lacônica me causou um frio na barriga. Minha estadia na capital pernambucana seria muito rápida, apenas até a manhã da segunda feira quanto iria tentar um visto no Consulado Americano, por isso o critério que determinou a escolha da minha hospedagem foi, sobretudo, o preço. Como a localização do hotel era boa e as fotos no site da internet agradavam bastante, fiz a reserva sem pestanejar. Uma pechincha!

Em frente ao hotel, o silencioso taxista ainda me fez uma última colocação: “O senhor tem certeza de que quer ficar aí mesmo…?”. E eu, já temendo o que poderia estar ao meu aguardo, respondi resignado: “Agora não tem mais conserto, amigo. Paguei tudo antecipadamente, o jeito é ficar”. Desci meio cabisbaixo do táxi e rumei para a entrada.

A porta, bem estreita, era em vidro, o que permitia à funcionária da recepção ver que eu estava me aproximando. Ela acionou o destrancamento e pude ingressar sem precisar tocar o botão da campainha instalado do lado de fora. A mulher, bem volumosa, usando jeans e blusa nitidamente incapazes de acomodar sua corpulência, respondeu ao meu cumprimento sem sequer se levantar, passando-me uma ficha para que eu preenchesse com os meus dados.

Enquanto escrevia naquele pedaço de papel fotocopiado, um homem relativamente jovem, exibindo um corpo trabalhado em certamente muitas horas diárias de academia, chegou à recepção para deixar as chaves de seu apartamento. Visivelmente produzido para sair à noite, ele trajava uma camiseta verde, sem mangas, bem decotada e justa, colocada por dentro das calças brancas, mais justas ainda. Debruçou-se sobre o balcão, apoiando o queixo no dorso das mãos entrelaçadas pelos dedos, fazendo pender a corrente prateada que trazia no pescoço, combinada com o brinco que adornava sua orelha, e perguntou à sisuda recepcionista: “Querida, você sabe onde fica a boate Sodoma e Gomorra?”.

Enquanto ela lhe explicava o endereço do sodomítico estabelecimento, acelerei o preenchimento da bendita ficha. E com respostas monossilábicas às perguntas com as quais o indivíduo insistentemente tentou estabelecer alguma aproximação comigo, imaginei tê-lo feito perceber, na medida da boa educação, que, em determinado assunto, minhas preferências são diametralmente opostas e incompatíveis com as suas – que, aliás, pela sua explícita linguagem corporal, ele fazia questão de evidenciar…

Desconfiado, peguei as chaves e segui em direção ao quarto, atravessando um salão escuro, sem janelas, sem ventilação, com quadros espalhados por todas as paredes e teto rebaixado em forro de madeira, de aspecto bastante envelhecido. Ao fundo um palco com pouco mais de um palmo de altura, com microfones postos em pedestais, em nítido estado de desuso, anunciava que aquilo ali, em outros tempos, fora local de intensas apresentações noturnas – sabe-se lá, porém, de que tipo!

Ante o estado de decomposição que fui observando ao longo desse trajeto interno, a condição do apartamento tornou-se previsível, mesmo antes de conseguir destrancar a emperrada fechadura da porta. Para meu alívio, uma bancada, cuja fórmica desbotada se descolava nas extremidades, não desabou quando pus sobre ela o modesto peso de minha pequenina mala. Deitei-me numa minúscula cama de solteiro, jogando ao chão o cobertor fétido que a recobria, para descansar um pouco e tentar me preparar psicologicamente para enfrentar a noite que me aguardava.

Depois de meia hora assistindo à imagem chuviscada dos dois únicos canais que passavam na pequena tv sem controle remoto, percebi que, mesmo com o aparelho de ar condicionado trabalhando a plena força, o quarto estava ainda mais abafado do que no começo. Como o interfone não funcionava, voltei à recepção para pedir que me trocassem de apartamento, no que fui atendido sem qualquer questionamento. O novo cômodo em nada era melhor do que o primeiro, na verdade eram idênticos – até no cobertor fétido – mas pelo menos tinha cama de casal. Conformei-me em ficar.

Como tática de sobrevivência, resolvi encurtar ao máximo minha permanência naquele cubículo insalubre. Minha estratégia era ir a algum bar próximo para comer e beber algo, e só voltar quando o sono e o cansaço já não fossem mais possíveis de ser suportados. E assim fiz. Retornei apenas bem tarde da noite. Como deitar-se asseado sobre uma cama tão repugnante seria um completo desperdício de sabonete, abdiquei do banho, despejando-me com a roupa do corpo sobre os encardidos lençóis.

Minha tática funcionou, adormeci imediatamente. Nem os trancos barulhentos do ar condicionado que, num esforço heróico, tentava em vão refrigerar o quarto abafado e calorento; nem o cheiro embolorado que vinha de um pequeno armário; nem os rangidos da cama, que soavam como um aviso de que ela poderia se desmontar a qualquer instante; nada parecia capaz de me incomodar.

Porém, minutos depois, para meu desespero, uma intensa discussão surgiu no quarto ao lado, entre uma profissional da noite, que exigia o pagamento de seus honorários, e um hóspede em total estado de embriaguez, que se recusava a saldá-los. Ele alegando que a garota não fora eficiente o bastante para deixá-lo aprumado, apto a usar de seus préstimos; ela retrucando que se ele não esboçou qualquer reação aos seus pacientes e duradouros estímulos, isso era problema dele e da bebida, mas não dela. Como o debate se estendeu por toda a madrugada, em elevado tom e em termos impublicáveis, meu sono foi definitivamente afugentado.

Receoso, certifiquei-me de que a frágil portinha estava bem trancada, mantendo-me, a partir daí, de olhos e ouvidos atentos a tudo. E mesmo atormentado pela sede, já que o frigobar, além de desligado, estava caprichosamente desabastecido, só ao amanhecer, com a boca insuportavelmente seca, é que tive coragem de ir à recepção para devorar uma garrafinha de água mineral.

Após um banho obrigatoriamente frio, pois o chuveiro elétrico não funcionava, e praticamente em forçoso jejum, pois desconfiava da higiene com que pudessem ter sido preparados os escassos ingredientes do café da manhã, saí alquebrado, moído de cansaço, para um city tour. Meu único objetivo era preencher o tempo, para permanecer bem longe daquela espelunca.

Entretanto, para minha felicidade, a sorte me reservou um dia delicioso. Após visitar lugares encantadores pelas ruas do Recife e lugares lindos pelos becos de Olinda; e após uma visita a um museu impressionante, indescritível, absolutamente inesquecível, capaz de deixar boquiaberto até o mais inculto dos visitantes – como eu – chamado de Instituto Ricardo Brennand, encerrei o domingo já à noite, na praia de Boa Viagem, ao som do legítimo forró nordestino, cercado das novas amizades que fiz durante o passeio e experimentando deliciosas louras pernambucanas (cervejas).

Com o espírito renovado, exausto e com tantas louras no juízo, nem vi o que aconteceu na minha segunda noite. Só sei que, após cumprir minha consular obrigação na manhã seguinte, deixei a cidade com vontade de voltar novamente. E voltarei. Mas, claro, serei um pouquinho mais atento com a minha hospedagem. Afinal hotel barato com fotos bonitas na internet pode ser pior do que “laranja madura na beira da estrada”. Felizmente, pelo menos no meu caso, não havia “marimbondos no pé”. Só muriçocas no quarto. E muitas!

 

 

* Adriano César Pessoa de Alcântara

alcantara.adriano@hotmail.com

 

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