O vendedor de manteiga e requeijão

modelo 1Levado à pia batismal, logo que chegou ao mundo, tendo por naturalidade a cidade de Itabaianinha, do pequenino Estado de Sergipe, quando decorria do ano de 1900, o dia 10 do sétimo mês, para receber o nome de José Lucas de Alcântara, mais tarde apelidado por “Passa Bem”, foi mais uma criança do sexo masculino, oriunda da união matrimonial de João Honório dos Santos e Antonia das Virgens da Conceição, que entraria para o rol dos egressos da burguesia de senhores de engenho que ficara aquém da sorte depois que seus engenhos ficaram de fogo morto, devido à abolição da escravatura.

José Lucas de Alcântara herdou do seu pai essa alcunha de “Passa Bem” e levou isto a sério, adotando inclusive como filosofia de vida. Dizia ele: “para minha família, posso não dar riqueza, mas educação e alimentação procuro dar da melhor”.

O Sr. João Passa Bem, seu pai, era muito espirituoso e talentoso na arte de fazer trovas e quando as mocinhas daquela época o cumprimentavam dizendo: – Como vai Seu João Passa Bem? Ele, gesticulando com as mãos, logo respondia trovando: – Assim, assim, meu bem!

José Lucas de Alcântara viveu parte de sua juventude em Itabaianinha, sua terra natal, levando uma vida simples, dentro dos padrões e costumes das famílias daquelas bandas do nordeste. Nos idos anos 30 do século passado, enxotado pela seca que castigou todo Norte e Nordeste do Brasil, José Lucas de Alcântara resolve embarcar num navio no Porto de Aracaju e rumar-se para a terra grapiúna onde se tinha notícia de que chovia diuturnamente. Desembarcando em Ilhéus, toma destino ao distrito de Macuco que mais tarde se chamaria Buerarema. Sem nenhuma profissão definida, o jovem sergipano teve mesmo que enfrentar a dureza do trabalho rural como lavrador, expressão que se usava naquele tempo na carteira de trabalho de qualquer pessoa que exercesse a atividade lavoureira.

No ano de 1935, o desinibido José Lucas, laborando naquela região rural, conhece e se engraça com a beleza da encantadora filha de um conterrâneo seu que também havia fugido da seca para aventurar a vida nas terras do Sul da Bahia. Aquela que haveria de ser seu eterno par familiar se chamava Maria Soares até ganhar o sobrenome Alcântara, mas era conhecida apenas por Marieta, filha de Chiquinho do Riacho do Boi. Foi amor à primeira vista, José Lucas, de pronto, se apaixonou pela beleza da senhorita Marieta que exibia lindas tranças do seu longo cabelo debruçadas sobre os ombros, deixando os rapazes da região babando quando ela passava. José Lucas era poeta e boêmio, qualidades que também herdara do seu pai João Passa Bem. E por ali ele fez farras e muitas serestas, finalizando o idílio no seu casamento, ainda naquele ano de 1935.

Casadinhos de novo, José Lucas e Marieta vão morar na localidade de Rio do Cipó no mesmo município de Buerarema, distante duas léguas da hoje Estância Hidromineral de Olivença, sendo testemunha da revolução do caboclo Marcelino, conflito entre os Índios e os brancos, que ainda prevalece nos dias atuais. Ainda em Rio do Cipó, nasceu sua primeira filha, que recebeu o nome de Pêdrinha, devido o seu nascimento ter sido no dia de São Pedro.

A luta entre brancos e índios se acirrava ainda mais e isto fez com que o casal retornasse à cidade de Buerarema, onde nasceram outros filhos: Naomar, Vanildes e Valquísia, mas a dificuldade para a subsistência, daquela nova família, já um pouquinho numerosa, a levaria a se mudar para “Santa Rosa” que em breve passaria a Pau Brasil, onde o novo chefe de família montou um pequeno comércio de secos e molhados, complementando a renda com negócios de caprinos e suínos. Ali nasceu mais um filho, Geovane. Mas as dificuldades continuaram ainda mais e levaram o sonhador José Lucas de Alcântara que tinha como lema a previsão de que “Querer é Poder”, a procurar dias melhores para amparar sua família, e incentivado pelo seu sobrinho e padrinho da sua filha mais velha, Tarick Fontes, partiu para a cidade de Itapetinga numa difícil viagem de metade a lombo de burro, até Potiraguá, e a outra metade na carroceria de um caminhão que eu não duvido ter sido Zé Prudêncio ou Chiquinho Bahia 2, caminhoneiros bastante conhecidos naquele tempo, que trafegavam por lá. Mas Passa Bem estava sempre alimentando a esperança de que poderia não dar riqueza para seus filhos, mas tinha obrigação de dar lhes uma boa alimentação e uma boa educação. Em abril de 1950, José Lucas de Alcântara e família chegavam a Itapetinga, “terra firme de gado forte” que ainda não era emancipada. Logo assim que chegou, sentiu que ali ainda não era o local ideal para residir, educar seus filhos e ter uma vida mais amena. E outra vez com ajuda do sobrinho Tarick Fontes é levado à última mudança da sua caminhada em busca de dias melhores. Finalmente para na cidade de Itororó, a terra prometida, no dia 06 de agosto de 1950, fixar sua residência na Rua Itabuna (JK), e instalar seu pequeno, mas promissor negócio de venda de requeijão e manteiga, na Avenida Manoel Novaes onde permaneceu no ramo até a sua morte.

Em Itororó, nasceu a sua filha caçula, Letícia, e aí permaneceu trabalhando e dando, como sempre sonhou, melhores condições de vida para sua família, inclusive a possibilidade de educação superior para a maioria dos filhos, deixando todos bem sucedidos socialmente como professores, servidores públicos, médicos, advogados, promotores de justiça, políticos e procurador geral do Estado da Bahia.

Passa Bem, já velhinho, sem mais precisar enfrentar o batente do dia a dia, mesmo assim, não quis entregar os pontos. Manteve seu comércio em funcionamento até o fim da vida. Quando o seu corpo já não podia mais agüentar levar seus braços ao manuseio da pesagem dos produtos que representava, precisou contar com a ajuda indispensável do amigo Hélio, fiel escudeiro que esteve ao seu lado até o fim.

Por toda essa bonita trajetória de vida, podemos afirmar que o Sr. “Passa Bem”, não construiu patrimônio material nessa vida, talvez pela falta de ambição fundamentada em sua filosofia de vida de que o homem pouco precisa para ser feliz, qual seja, alimentação, saúde, amigos e coragem. Tanto que tinha alguns comportamentos peculiares, como por exemplo, entender que era obrigação do cristão acompanhar o enterro do irmão, ainda que não o conhecesse; não ser correntista em banco em tempo algum, por nunca ter tido dinheiro para tanto e ter convicção de sua desnecessidade.

Salienta-se, todavia, que como bom brasileiro, adorava futebol e foi freqüentador assíduo do campo de futebol desde os velhos tempos do Estádio Bariri até o moderno Estádio Odilon Pompilio onde tinha seu lugarzinho reservado sobre o lajedo do fundo do gol que dava para o parque de vaquejada onde se colocava, todo domingo ou feriado, ao lado dos seus companheiros José Boaventura de Souza e Zeinha Cardoso, os três portadores inseparáveis dos seus guardas chuvas, mesmo sem qualquer mudança de temperatura.

Católico por convicção, Passa Bem, também assistia missa pelo menos aos domingos e para dar vazão ao seu lado hilário, contava piadas e observava as coisas desiguais do dia a dia da cidade, como por exemplo: os apelidos que não combinavam com as pessoas. Cardeal, nunca fora nem coroinha da Igreja; Major, sequer foi guarda municipal; Bate Forte, de magro tropeçava no vento e caía; Zé Mãozinha tinha a mão maior que os outros homens. Certo dia eu pode observar quando ele em tom de brincadeira falou para Zé Grande do sindicato: “os únicos apelidos certos que tem por aqui são o meu e o seu, não é mesmo?” Zé Grande lhe respondeu também em tom de gozação: bem, o meu todo mundo tá vendo pelo meu tamanho, agora você eu não sei se passa bem mesmo!.. E os dois se desabaram em risos.

Este é o resumo de vida de Passa Bem, homem simples, de pouco estudo, contudo inteligente e de grande sensibilidade para música, um poeta, que cumpriu sua missão vivendo entre nós até o mês de maio de 1985, dentro dos princípios da honradez e da humildade, educando filhos para o bem através do seu exemplo de vida, deixado como o seu maior legado…

Acho que com a colaboração da família pude atender o pedido do Dr. Adriano Alcântara, colunista Dimensão, advogado de renome, empresário rural, presidente do Sindicato Rural de Itapetinga e neto do grande personagem deste artigo, Passa Bem, o vendedor de manteiga e requeijão que, apesar dos percalços que permearam seu viver, morreu feliz por ver seus filhos todos formados…

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

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