O racismo está em nós

Sem título-1No último sábado, o cantor Jorge BenJor foi alvo de mais uma manifestação grosseira de racismo. Segundo o jornal O Globo, no meio da apresentação, durante um solo de sopro, Jorge interrompeu o trombonista, permitindo apenas que a base de bateria e baixo seguisse adiante. Olhou para alguém da plateia, que estava no gargarejo e assoviava alto sem parar. Chamou, então, o sujeito ao palco e começou uma discussão. Após ter os ânimos acalmados, pelos colegas de palco, Jorge se recompôs e explicou: “Esse cara ficou me chamando de crioulo sujo. Não vou aceitar isso”. Segundo o músico, há tempos ele vem sendo provocado com ofensas sussurradas após longos assobios.
Vem crescendo o número de manifestações preconceituosas. Já acompanhamos os casos com a atriz Taís Araujo, a apresentadora Maria Julia Coutinho, o lateral Daniel Alves, o goleiro Aranha… Alguns assuntos são tão repetitivos, chatos e óbvios que me fazem querer desistir de tratar deles aqui nesta página. Mas a gente não pode subestimar a maldade e a ignorância humana.
Eu ouço muita gente dizer – e eu também já disse muito – que “o racismo está nos olhos de quem vê”. Hoje, não sei se pela maturidade ou pela ampla exposição da nossa podridão pelas redes sociais, acho que a tão propagada frase deve ser relativizada. É muito fácil repetir esse lugar comum quando quem vê é aquele que atravessa a rua quando percebe mais de um negro caminhando em sua direção. Ou aquele que não passa pela revista policial porque sua cor da pele não desperta desconfiança. O Brasil é, sim, um país racista e é preciso modificar este comportamento, muitas vezes aceito como normal. Quanto a isso, não se discute mais.
Durante o carnaval, no entanto, um fato relacionado a racismo criou polêmica e gerou discussão. O casal Cyntia e Fernando Bustamante resolveu curtir o carnaval de rua de Belo Horizonte fantasiados dos personagens da Disney, Aladim e Jasmine. Para completar a turma, vestiram seu filho adotivo, Mateus, como o personagem Abu, o macaquinho do desenho animado. A imagem causou polêmica na internet após ser associada a um ato racista. Fernando foi xingado e acusado de racismo, por conta da associação entre a criança, negra, e o macaco, e acabou publicando no Facebook um texto no qual explicou a situação e pediu desculpas a quem se sentiu ofendido. Nele, o produtor teatral diz que jamais imaginava tamanha repercussão diante das fantasias escolhidas para o Carnaval e classificou a polêmica como “descontextualizada da realidade”. Segundo o pai, Abu, o companheiro e melhor amigo de Aladim, é o personagem favorito do seu filho.
Esse – em minha humilde opinião de branquela que nunca sofreu nenhum tipo de discriminação – é um caso que demonstra como o racismo é difundido no país, as conseqüências do politicamente correto e um dos casos de que, sim, algumas vezes, o racismo está nos olhos de quem vê. O casal optou por adotar um menino negro em um país que opta, predominantemente, por loiros dos olhos claros e foi acusado de racista por gente que faz a associação imediata entre negros e macacos. Há alguma coisa muito errada nesta confusão.
A onda do politicamente correto, embora muitas vezes passe do ponto, chegou com o intuito de que no futuro os mais jovens não achem divertido, fazer qualquer tipo de escárnio com aqueles que julgam diferentes pela cor da pele, nem façam correlações pejorativas. É preciso tomar cuidado sim, para que pequenos atos do nosso cotidiano – antes tidos como normais – possam ser revistos como preconceituosos para que não sejam mais repetidos. Mas é preciso nos manter atentos para saber distinguir se o que estamos vendo como racismo não é apenas a projeção do nosso próprio e escondido preconceito.
O Brasil tem um pouco mais de 500 anos. Destes, pelo menos 300 anos foram de escravidão da população negra, maltratada e violentada das mais diversas formas. Assim, temos um pouco mais de um século de abolição da escravatura e de uma inserção social do negro que luta diariamente para se auto afirmar.
Então, infelizmente, demoraremos ainda alguns passos para nos assumir racistas ou preconceituosos. Já estamos falando sobre o racismo e isso ainda é algo necessário neste momento. Mas só atingiremos o mundo ideal, que respeita as diferenças, quando não precisarmos falar mais delas. Certa vez, em uma entrevista, Morgan Freeman disse não gostar do “Dia da Consciência Negra”, porque todo dia é dia de se conscientizar sobre a importância histórica dos negros na sociedade. Quando questionado sobre, então, qual seria a melhor forma de se combater o racismo ele falou: “Não falando mais sobre isso”. Só quando tivermos a total consciência da igualdade entre brancos, pardos e negros, poderemos parar de discutir o preconceito porque ele não fará mais o menor sentido. Só nos tornaremos uma sociedade justa e igualitária, livre da discriminação quando macacos e negros não for uma associação automática. Quando pretos e pobres não forem mais barrados de ir à praia, simplesmente por serem negros e pobres. Quando um pai puder fantasiar o filho do que ele quiser, motivado pela rotina de amizade e carinho que conquistam juntos, sem ser apontado na rua.

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