O problema não é a Copa…

padrão destaque“O leitor que abriu qualquer um dos grandes jornais na quarta-feira (21/5) pode facilmente concluir que o Brasil não chega até o fim do ano. A impressão que passa o noticiário é a de que a anarquia está solta nas ruas, as instituições perderam o sentido e desapareceram os vínculos que mantêm coesa uma sociedade”, escreveu Luciano Martins em um de seus artigos desta semana. E a sensação é mesmo esta. Parece que o caos começa a mostrar suas facetas e a gente vai se deixando levar.

Os noticiários da semana têm como principal notícia a greve-surpresa dos motoristas de ônibus de São Paulo, deflagrada logo após o anúncio de um acordo entre o sindicato e as empresas. Isso mesmo, após um acordo, a baderna se instalou nas tuas da maior cidade do país, parando trânsito, economia e a vida dos paulistanos.

Os transtornos que a moda do protesto vem causando, aos poucos muda o humor de toda a sociedade em relação às manifestações. De cada 10 moradores da cidade de São Paulo, por exemplo, 7 afirmam que os protestos geram mais prejuízos que benefícios. Seja para eles mesmos, seja para o conjunto da sociedade. São números altos. Em levantamentos anteriores, essas avaliações críticas nunca haviam predominado.

Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada há pouco tempo revela que o apoio às manifestações de rua no país caiu para o mais baixo índice desde junho de 2013. Logo depois que multidões saíram às ruas na metade do ano passado, com um amplo leque de reivindicações, o índice de apoio aos protestos chegou a alcançar 89% dos entrevistados. Agora, apenas 52% das pessoas ouvidas pela pesquisa continuam apoiando as manifestações. No geral, a tendência do noticiário é registrar que até mesmo a imprensa está cansada de tanta manifestação.

E assim vem sendo encaradas muitas das manifestações feitas em série no nosso país. Se os protestos tivessem se conduzido com respeito às regras da ordem democrática, haveria muito mais gente na rua. A partir do momento que esses movimentos começam a exagerar na dose, a tornarem-se violentos e a causar grandes estragos, perdem o apoio da população e, consequentemente, têm o apoio reduzido. Nesse sentido, pode-se considerar que, ao levar ao extremo o direito a expressar suas reivindicações, os manifestantes marcaram o limite que a sociedade está disposta a aceitar, na onda de paralisações que vem desde junho do ano passado.

Quando se trata de manifestações e protestos contra a Copa, o número de apoiadores cai ainda mais, embora existam aqueles que ainda gritem contra o mundial. Já dizia a oração que é preciso ter serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar. E a realização da Copa no Brasil é uma realidade imutável agora. Também era contra o nosso país sediar a Copa pelas outras milhões de prioridades deixadas de lado e por todos os absurdos que envolvem a corrupção. Mas estamos a menos de vinte dias do evento. O dinheiro já foi gasto, o roubo já foi feito, as verbas já foram desviadas. Não dá pra desfazer mais nada. O que os protestos pedem? Que desmoronem os estádios?

Nesta questão e em muitas outras eu também não apoio as manifestações. Pelo contrário, eu torço para que o país faça, sim, uma festa bonita, que atraia cada vez mais turistas – o fato de a gente sediar a copa, inclusive, já nos colocou em 4º lugar no ranking dos países mais desejados para turismo e isso é muito positivo para a nossa economia, os revoltados têm que reconhecer. Além disso, estudos apontam que a Copa trará maior visibilidade internacional do Brasil, com a consolidação da imagem do país no exterior, reconhecimento pela capacidade de organizar um evento desse porte e maior exposição de produtos e serviços para o mundo, além do fortalecimento da alta estima da população brasileira, a exemplo do que ocorreu em países anfitriões das últimas edições, como a África do Sul e, principalmente, a Alemanha em 2006.

A corrupção é um problema crônico em Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Não é exclusividade nossa. E o problema não é a Copa, é o sistema como um todo.

Temos de ir às ruas sempre que necessário, sim. Mas, ultimamente, parece que temos gasto muito o poder do povo nas ruas e isso é perigoso. Vamos sim protestar, sair as ruas, sempre que algo não esteja certo com nosso país. Mas vamos também nos informar. Vamos propor melhorias, vamos estudar o que está errado e perguntar como podemos acertar. Se sairmos à rua sempre, reclamando de tudo com cartazes de “abaixo a corrupção”, sem a menor ideia do que fazer para de fato ajudar o país, nada muda, e o que é pior: os protestos perdem a força. Com um protesto a cada semana reclamando de uma coisa diferente, e sem ninguém para sugerir a solução para o problema, o cidadão e as autoridades param de levar as manifestações a sério, e com razão.

Por isso chega de protestos mal informados, chega de passeatas que pedem o fim da corrupção e nada mais e chega de manifestações vazias e sem propostas para o país.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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