O Ponto Certo é mais velho que o Bairro Camacã

Os escritores que até agora relataram a história de Itapetinga foram unânimes na afirmativa de que a fundação da cidade de Itatinga começou pela Praça Augusto de Carvalho, ficando aquele feito histórico como o ponto de partida ou o “marco zero” da cidade. A escritora Judith Jabur de Moura em “Histórias e Causos de Itapetinga”, vai nos dar a idéia de que o primeiro bairro da cidade foi o Ponto Certo, porém, analisando com mais cuidado o que a nobre escritora relata no referenciado livro, encontramos a taciturna destruição de um pequeno bairro com população estimada em 250 habitantes, mais ou menos, se considerarmos 5 habitantes por residência, que funcionou do outro lado do Rio Catolé, extinto pelas correntezas do rio em uma grande enchente que aqui aconteceu na década de 40.

Analisemos juntos esta questão. Na página de número 83 do citado livro consta o seguinte: “Na enchente que aconteceu em Itapetinga no ano de 1947, o Catolé Grande extravasou do seu leito e, do outro lado do rio, no Ponto Certo, nas terras que hoje (1998) pertencem a Arnaldo Nunes, havia um bairro muito humilde, com 50 casas, e tudo foi levado rio abaixo, pela forte correnteza. Guilherme Dias, que era o administrador daqui, junto com o prefeito de Itambé, Aparício Couto Moreira, pediu ao deputado estadual Joaquim Hortélio da Silva Filho e ao deputado federal Luis Regis Pacheco Pereira, para conseguirem uma verba federal para os desabrigados da enchente. A verba chegou 10 meses depois, em setembro de 1948. Com o dinheiro, compraram todo o terreno do Bairro Camacã, em mãos de Otávio Camões de Araújo (Tavinho), e deram as posses para o povo ir construindo suas casas. As posses que sobraram foram doadas a quem ainda não tinha casa. Parte das pessoas que havia mudado daqui após as enchentes por não terem onde morar, aos poucos, Guilherme Dias foi localizando-as e as trouxe de volta, dando-lhes o direito de moradia no terreno”…

Todavia, o que eu gostaria que você me ajudasse analisar, levando em conta dois dados importantes, é o seguinte: o relato histórico contido no livro, não deixa a menor dúvida de que já existia em Itapetinga, à margem esquerda do Rio Catolé, nas confrontações do Ponto Certo, um pequeno bairro que, talvez, por lapso dos moradores de então, não se atentou para o seu nome, mas que foi um bairro habitado por pessoas reconhecidamente pobres e que se tornou no bairro dos flagelados das enchentes de 1947.

Partindo-se do pressuposto de que há um raciocínio rápido e lógico pertinente, fica muito mais fácil entender que aquela humilde aglomeração populacional formava “o Bairro dos Humildes”, que por sua vez poderia ser o mais velho bairro da cidade ou pelo menos contemporâneo do Bairro Ponto Certo a que a autora da obra se refere na mesma página. E, se assim entendermos, o Bairro Camacã passa ser na ordem cronológica de crescimento urbanístico da cidade, o terceiro bairro de Itapetinga, enquanto que o Ponto Certo pode ser o primeiro ou o segundo, se todos entendermos que o humilde bairro recôndito no tempo, foi o responsável pela origem do Bairro Camacã, e tenha sido o primeiro gerado fora do centro da cidade. A conclusão que podemos fazer agora é que o pequeno bairro que não existe mais, foi mesmo o primeiro construído paralelamente à fundação da cidade de Itapetinga, mas que devido as precariedades das construções das suas casas ou barracos, foi levado pela calamidade pública…

 

Primeiro comício

1945, este foi o ano em que se realizou em Itapetinga o primeiro comício em praça pública para candidatos de fora do Município. O General Juracy Montenegro Magalhães entrou em campanha por todo o Estado da Bahia, em favor da candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da República pela UDN – União Democrática Nacional, e visitou o distrito de Itatinga fazendo uma grande concentração pública em prol do seu candidato.

Em 29 de novembro do mesmo ano também houve em Itatinga a segunda concentração partidária e desta vez para o candidato General Eurico Gaspar Dutra do PSD – Partido Social Democrático – que tinha apoio do administrador de Itatinga Guilherme da Silva Dias.

Muitos oradores fizeram uso da palavra naquele dia: a jovem Maria Helena Santos Moreira falou em nome da mulher itatinguese; Auterives dos Santos Maciel e Valdívio Santos Silva, de Itambé; Hugo de Castro Lima e Luis Regis Pacheco, de Vitória da Conquista; Landulfo Alves de Almeida, de Salvador; Guilherme Dias e Vespasiano Dias falaram pelo distrito de Itatinga.

O ano de 1947 não só foi o ano das enchentes em Itapetinga, mas foi também um ano de eleições gerais e que entrou para a história como o ano em que se registrou um monumental comício de Itatinga.

A mesma fonte geradora dessas informações dá conta de que foi em 1945 o primeiro comício polêmico realizado em Itatinga, tendo como candidatos a prefeito de Itambé os Srs: Coriolando José Fagundes pelo PSD e Jorge de Souza Heine pela UDN.

Era o dia 19 de novembro, às 16 horas, na Praça Augusto de Carvalho, tendo como primeiro orador o Sr. Guilherme Dias, depois Auterives dos Santos Maciel; Pe. Orlando Pereira; Aurélio Seixas; Cel. Gentil dos Santos Flores presidente do Partido Trabalhista Brasileiro, secção de Itambé que usava da palavra quando começou um grande tiroteio em meio a multidão deixando baleado o tenente Artur Santos e o soldado Valdete, ambos da Força Pública da Bahia. Nelson Ribeiro Campos que estava próximo ao palanque, quando sentiu o barulho dos estampidos olhou para trás para ver se alguém conhecido se envolvia na confusão, mas quando se virou para frente não viu mais ninguém em cima do palanque. Ele saiu rápido e entrou na padaria em frente, esperou tudo se acalmar, depois saiu para perguntar se alguém havia se ferido e foi informado pelo amigo Neinho Meireles que por ironia do destino só aqueles que ali estavam para manter a ordem público no local, o Tenente Artur e o Soldado Valdete, foram os únicos que se feriram.

Zito Correia dos Santos, Valdívio Santos Silva, Cel. Firmino Gusmão, Aloísio Velame do Nascimento, Manoel Antonio da Silva, Cel. Osório Ferraz de Oliveira, todos de Itambé, faziam parte da comitiva do candidato Coriolando José Fagundes e de Itatinga também faziam parte da mesma comitiva o escrivão Otávio Lacerda Rolim, o pastor Saturnino José Pereira, além do administrador Guilherme Dias.

 

Deputados de Itapetinga

Elencamos agora os deputados de Itapetinga desde distrito até a conquista da Comarca: Otávio Lacerda Rolim que não se elegeu em 1950, ficou na suplência, vindo a assumir uma cadeira na Assembléia Legislativa do Estado antes de findar a legislatura; Dr. Guilherme da Silva Dias foi eleito deputado estadual em 1954; Vespasiano da Silva Dias e Clodoaldo Costa foram eleitos deputados estaduais em 1958; em 1962 Vespasiano Dias foi reeleito deputado estadual; em 1966 foi eleito deputado federal o Dr. Clodoaldo Costa; em 1982 é eleito deputado estadual o Dr. Luis Nova que foi reeleito em 1986; em 1994 foi eleito deputado estadual o Dr. Arnaldo Teixeira; em 1998 é eleito deputado estadual o Sr. Michel Haage Filho e finalmente em 2006 foi eleita deputada estadual a Sra. Virgínia Haage. O cantor Edgar Evangelista (Mão Branca), se candidatou a deputado federal, não se elegeu, mas foi diplomado suplente, em seguida foi empossado parlamentar na Câmara dos Deputados. O Dr. José Vaz Sampaio Espinheira se candidatou a deputado federal por duas vezes, mas não chegou a ser eleito…

 

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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