O papa, de novo…

papaEsta semana, um amigo entrou em contato falando que, em uma busca sobre notícias da renúncia do papa, acabou encontrando um texto meu, escrito há umas duas ou três edições deste jornal. Meio agnóstico (aquele que não segue nenhuma religião) e irônico como sempre, ele comparou minha esperança de mudanças da igreja católica com as expectativas daqueles que acreditam na possibilidade de termos um país comunista lembrando uma piada capitalista que contava: “Em uma reunião política, o orador diz que o comunismo já desponta no horizonte. Imediatamente, na platéia, alguém grita – o que é horizonte? Educadamente, o comunista diz que é uma linha imaginária, onde o céu e a terra se encontram e que se afasta à medida que seguimos em sua direção”. Segundo ele, para que os brasileiros – por estatística, a maior população de católicos no mundo, sem levar em conta de que os reais praticantes são bem menos – sintam de fato as mudanças da Igreja, é preciso uma mudança drástica no Vaticano.

Por coincidência, ou não, li hoje um texto que chamou-me à atenção por sua escrita corajosa, direta e sem meias palavras sobre o que se esconde por trás da renúncia de Ratzinger. Para Ivo Lucchesi, “o ato renunciante de Bento XVI exibe, para a legião de católicos em todo o mundo, grito de alerta e um espasmo de esmorecimento. É como se dissesse: “Não suporto mais!”. Em seu texto, Ivo explica que as crescentes denúncias de corrupção e de desvios sexuais, dentro e fora das fronteiras do Vaticano, deixam claro que, quando Bento XVI declarou que não tinha mais forças, ele falava sobre força política. “O papa não está vendendo barato sua renúncia. Deixa, para o sucessor, pesado fardo. O enfrentamento ou a cumplicidade silenciosa. Enfim, a renúncia de Bento XVI envia uma mensagem, sem negociações: ou a igreja católica assume uma estratégia de varredura, eliminando todas as vergonhas de ordem sexual e econômico-financeiras, ou terá de se expor a sucessivos desgastes de sua credibilidade”.

Desde o anúncio da renúncia, no dia 11 de fevereiro, o Vaticano vem sendo investigado pela imprensa e seu tapete vem sendo levantado, mostrando a sujeira que por muitos anos estava escondida. As denúncias não param. Uma rede de corrupção que permitia o superfaturamento de contratos e sangrava os cofres do Vaticano. Em 2010, o banco da igreja católica, IOR, foi investigado por suspeita de violação das normas de lavagem de dinheiro. Existem ainda relatos de suborno disfarçado de doações milionárias para conseguir audiências com o papa. Investiga-se, ainda, denúncias de que seminaristas se prostituiriam com a ajuda de um integrante do coro do Vaticano, que atuaria como cafetão. E, como não podem faltar, inúmeros casos de pedofilia e abusos sexuais sucedem-se.

O texto de Ivo Lucchesi mexe ainda em uma questão bem delicada: o celibato. Para ele, a principal transformação necessária na Igreja é a de liberar o clero para constituir família, a exemplo do que Martin Lutero, há séculos, entendeu ser a solução.

“Estatísticas são reveladoras: quantos casos de desvios sexuais ocorreram na vertente cristã protestante, em confronto com as denúncias de perversão sexual nas hostes católicas? A diferença é assombrosa. A razão que instituiu o celibato, na Idade Média, foi de ordem econômica. Foi o modo encontrado pelo Vaticano para manter controle rígido e receita garantida sobre cada paróquia no mundo. Somente os mais crédulos ainda crêem que não houve união carnal entre Jesus e Madalena. Não há, portanto, nenhum fundamento religioso, capaz de condenar uma relação amorosa.”

Concordo com meu amigo que as transformações pelas quais a Igreja precisa passar são, em alguns pontos, bem radicais e até difíceis de acreditar, mas desejo, como fez Luccheci, que o “sucessor tenha a coragem e força para libertar o corpo de futuras gerações de cônegos, padres, bispos, cardeais e papas de uma ‘prisão’ que violenta as leis da natureza. Se o Vaticano não libertar corpos, perderá mentes. Remover o manto da hipocrisia é a palavra de ordem. Se, assim, não for, haverá de multiplicarem-se as ruínas, até as muralhas se desmancharem de vergonha”. Só assim seríamos capazes de enxergar as mudanças da Igreja bem mais próximas do que o distante horizonte onde se encontra a esperança de um comunismo brasileiro.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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