O ódio é a nossa maior crise

padrão destaqueEstamos vivendo uma grave crise econômica, é verdade. A inflação tem reduzido em muito nosso poder de compra, a conta de luz tem nos feito passar menos tempo com os benefícios dos eletrônicos, os bancos estão negando empréstimos até mesmo aos clientes mais fiéis. O dinheiro sumiu dos bolsos e das contas. Mas, otimista como sou, acredito que este é um problema passageiro, que até o final do ano que vem, como afirmam alguns economistas, as coisas vão voltar ao eixo e a economia voltará a crescer devagar. Atualmente, o que vem me assustando de verdade, não é o preço da cebola ou da carne, ou o quanto a bandeira vermelha tem aumentado o valor da minha conta de energia elétrica. O que me assusta, e muito, é o discurso de ódio que vem tomando conta dos mais variados debates. Dizem que é na crise que as pessoas se revelam de verdade. E o brasileiro tem se mostrado um povo nada cortês ou tolerante.
Uma fotomontagem em que a presidenta Dilma Rousseff aparece de pernas abertas, na boca de um tanque de automóvel, jogou mais combustível na fogueira de ódio e insensatez que se espalha por todo o país. A imagem é chocante e não ofende apenas a mais alta autoridade do país. Ao ver a reprodução do adesivo que insinua uma penetração sexual, eu me senti ofendida como mulher, antes de qualquer coisa. A imagem tida como “engraçadinha” é um crime à dignidade humana. Por trás desses gestos raivosos e imbecilizados, está a disseminação do ódio. Como disse no parágrafo anterior, a crise é inegável, mas esse tipo de reação odiosa e desrespeitosa não pode ser tolerado. O que esse tipo de insatisfeito político promove não é um golpe contra o resultado das urnas, mas contra boa parte dos avanços civilizatórios duramente conquistados desde o fim da ditadura de 64. Ele não só desrespeita o resultado de uma eleição feita nos moldes democráticos, como também ignora as conquistas feministas e de respeito e tolerância que o país já conquistou. Eu pensei em não colocar, aqui ao lado, o adesivo ao qual me refiro, pensei que a imagem era grosseira demais e não deveria banalizá-la com a reprodução que poderia gerar comentários machistas. Mas é preciso mostrá-la a quem ainda não viu, para que percebam a extensão do que acontece hoje no Brasil e acordem a tempo de evitar o pior. Não há como esconder as atrocidades que o ser humano já foi capaz de perpetrar, ao longo de milênios.
Se somarmos a esse episódio, a intolerância religiosa capaz de agredir e ofender desde o pontífice católico até o mais simples dos cidadãos – sejam eles ateus ou cristãos – espalhando seus slogans de ódios, já teríamos uma sociedade doente, apodrecendo cada vez mais rápido.
Mas o desrespeito e o ódio vão além. 127 anos depois da abolição da escravatura no Brasil, ainda somos capazes de manifestações racistas das mais ridículas. A jornalista Maria Júlia Coutinho, conhecida popularmente como Maju, foi vítima de comentários racistas na página do Jornal Nacional no Facebook, em post publicado na noite de quinta-feira, dia 2. Maju é uma jornalista linda, talentosa e competente que, independente da cor e etnia, logrou o espaço no mais cobiçado telejornal brasileiro por mérito próprio. Digna de nossa admiração e respeito, a simpática Maria Júlia sentiu na pele a ira dos preconceituosos. Os comentários na rede social eram ridículos e agressivos e, diferente da foto de Dilma, não merecem ser reproduzidos. Os comentários racistas de internautas na página do “Jornal Nacional” no Facebook e em outras mídias sociais, diferente da foto de Dilma, não merecem ser reproduzidos por nenhuma razão. Eles não podem ser admitidos e merecem investigação que leve à punição de seus autores.
É verdade que a crença de que vivemos em uma democracia racial é uma utopia. Meu otimismo não chega ao ponto de ignorar esse fato. Costumeiramente percebemos que o Brasil não se furtou de discriminações raciais, apesar de ser uma nação constituída por tantas pessoas e culturas heterogêneas. Embora ainda me revolte muito todo e qualquer tipo de manifestação racista, o que me assusta hoje, não é a simples manifestação do preconceito, mas a sensação do aumento do ódio.
Glória Maria apareceu no telejornalismo ainda nos anos 70 e não despertou – ao menos publicamente – manifestações de ódio e de racismo entre internautas e público de modo geral. Na década de 80, Heraldo Pereira começou sua carreira na Tv e, segundo se tem conhecimento, também não foi alvo de discriminações raciais expressas na internet. Talvez o crescimento profissional de Maju tenha incomodado mais aqueles que ainda não saíram do século XIX, e não sabem que os negros podem ser lindos, talentosos e competentes, como a “menina do tempo”.
Os Crimes de Ódio são praticados em razão da raça, sexo, desprezo à forma estética, religião, orientação sexual ou etnia da vítima. Portanto, são mais do que crimes individuais; são delitos que atentam à dignidade humana e prejudicam toda a sociedade e as relações fraternais que nela deveriam prevalecer. Eles produzem efeitos não apenas nas vítimas, mas em todo o grupo a que elas pertencem. É de extrema importância que se discuta formas de sairmos da crise econômica, é verdade. Mas é essencial e urgente que discutamos soluções para nos curarmos de uma crise capaz de destruir uma sociedade, transformando seres humanos em animais raivosos capazes de atrocidades sem precedentes.

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