O Nordeste falou mais alto e o mundo não acabou

kaluQuando Euclides da Cunha escreveu “Os Sertões”, uma frase ficou marcada: ”O sertanejo (nordestino) é, antes de tudo, um forte”. Foi isto que se viu em uma eleição disputadíssima para eleger o futuro presidente do Brasil, onde a elite, parte da imprensa e grande mídia quiseram impor o tom, fazendo de tudo para mudar o rumo da democracia, mas acabaram perdendo para o gigante Golias, chamado povo brasileiro. Não se muda o destino de uma nação da noite para o dia, muito menos tentando separar o Brasil entre regiões ricas e pobres, entre escolados ou não, brancos ou pretos. A discriminação e o ranço de ódio que se viram nesta eleição demonstrou que o brasileiro não possui toda aquela cordialidade que se apregoa pelo mundo a fora. A começar pelo grão-mestre tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em uma fala infeliz, em tom de discriminação contra pobres e nordestinos. Faz a diferença entre ricos cultos e pobres desinformados, conforme veiculado pela imprensa. Uma tristeza. O que ele conseguiu ganhar com esse tipo de atitude? O pouco que ainda restava da sua biografia acabou sendo levada ao vento. O Nordeste teve um peso fundamental nesta eleição, mas segundo o jornalista Ricardo Kotscho, quem assegurou a vitória do PT foram exatamente os eleitores do Sul e Sudeste, que deram 26,6 milhões dos votos totais obtidos por Dilma, ou seja, mais de 2 milhões de votos a mais do que os obtidos por ela no Norte e Nordeste, com 24,5 milhões de votos.

O que importa é que são mais quatro anos de governo, cuja prioridade deve continuar sendo os programas sociais das classes menos favorecidas, diminuindo ainda mais esse enorme fosso de desigualdade. Gostem ou não, queiram ou não, a presidente foi reeleita com a maioria dos votos, não interessando o percentual. Nesse aspecto o jornalista Eduardo Guimarães foi taxativo: “Essa gente perdeu as quatro últimas eleições presidenciais por uma única razão: não entende o princípio democrático basilar: um homem, um voto.”

O fato é que a presidente Dilma teve votos no país inteiro e isto deve ser respeitado. Os seguidores do roqueiro Lobão (que graças a Deus não conheço nenhuma música) e companhia limitada que diziam que iriam deixar o país se ela fosse reeleita, têm toda liberdade e trânsito livre. E é bom que o façam. Quem sabe um longo período longe de um país tão grandioso como o Brasil, não lhes ensinem a serem mais educados, a terem cordialidade e respeito pelo povo/irmão brasileiro. No que se refere à reforma política tão conclamada e aí incluindo a reeleição, o jornalista Carlos Chagas chamou atenção para o conselheiro Acácio: “Oportuno se torna lembrar o Conselheiro Acácio, personagem ímpar de Eça de Queirós, para quem ‘o poder é muito poderoso’. E acrescenta que no fundo de tudo está a responsabilidade dos tucanos, porque deles foi a iniciativa de impor a reeleição.”

O cidadão é quem representa a ferramenta fundamental para que tais mudanças possam ocorrer e sejam postas em práticas e aprovadas pelo Congresso Nacional. Muitas feridas foram abertas separando amigos e família e precisam ser cicatrizadas. A mídia perversa teve uma enorme parcela de culpa e a sua regulamentação também precisa ser revista. Cito aqui um texto do experiente jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, sobre a atitude da revista Veja nesta eleição: “Esse tipo de jornalismo não existe. Eu acho que a Veja cometeu um erro, uma irresponsabilidade. O jornalismo é algo muito mais sério, mais organizado, metódico do que um furo que derruba tudo. Isso é uma visão passada de um jornalismo primitivo, afirmou. E aí termina nesse espetáculo horrível, nesse golpe de baixo jornalismo. Não é salutar pra imprensa brasileira o que a Veja fez”.

A revista Veja virou traque, busca-pés e deu chabú. Com a criação de um marco regulatório das comunicações, a revista Veja terá o lugar que merece. O lixo. Chegamos vitoriosos ao final de mais uma eleição em que o eleitor fez a sua escolha de forma democrática. Agora é hora de dar uma pausa e não ter que ficar passeando entre vários sites na internet, em busca de notícias sobre a eleição. É preciso ficar ativo e bem informado. Isto também é uma forma de fazer política. Nesta segunda-feira acordei cedo como de costume, abri a janela e vi surgir um novo dia, vislumbrando um futuro mais promissor para a nação. Como diz a velha canção, vesti uma camisa listada e (compondo-a com uma gravata também listada), saí por aí. Queria ver o semblante das pessoas nas ruas com a alegria da vitória estampada nos rostos. Em eleição é sempre assim. Há quem ganha e há quem perde. Aos vitoriosos e felizardos a alegria. Aos perdedores, aceitar a derrota e ter a grandeza de reconhecer que o poder do povo é soberano. As amizades sinceras permanecem sólidas, independente do resultado das urnas e da preferência de cada um. A aversão da classe médica, com o aval do Conselho Federal de Medicina (CFM) ao programa Mais Médicos e especialmente aos médicos cubanos, não a tornou mais grandiosa e muito menos bem vista aos olhos da população, principalmente daqueles que necessitam com urgência dos cuidados médicos. No momento em que a ONU saúda Cuba sobre Ebola realizada em Havana, é bom lembrar que a brigada de 165 trabalhadores da saúde enviada por Cuba a Serra Leoa é mais do que qualquer outro país tenha enviado, além de outros 255 adicionais para Libéria e Guiné. Há de considerar que em total, esta é a maior quantidade de pessoal médico que país, organismo internacional ou organização não governamental tenha enviado a esta emergência. E já que a grande maioria dos médicos apostou na vitória do candidato Aécio Neves e perdeu, o momento é para repensar e não esquecer disto. Na noite do resultado das eleições, apesar de termos tido divergências, recebi a ligação do amigo e colega Dr. Luís Carlos Faleiro, parabenizando-me pela vitória. É assim com civilidade que construimos uma nação. Só espero que entre mortos e feridos todos tenham se salvado. Tenho certeza que não perdi nenhum amigo. Se alguém continuar guardando rancor pós-derrota, saiba que este não é o melhor caminho e muito menos saudável para o coração. Após a vitória, a presidente Dilma Rousseff conclamou a nação ao diálogo e a união.

Pesquei no blog do Luis Nassif as palavras do Papa Francisco, bem apropriadas para o momento. Cidade do Vaticano, 28 out 2014 (Ecclesia) – O Papa Francisco apelou hoje à defesa dos direitos dos trabalhadores e das suas famílias, durante um encontro com os participantes no primeiro encontro mundial de Movimentos Populares. “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”.

Após decisão e escolha da população brasileira elegendo a presidenta para mais quatro anos de governo, terei mais tempo para cultivar coisas amenas e agradáveis. Preciso terminar de ler alguns livros que comecei, além de mais um que ganhei recentemente de presente do meu irmão, no dia do meu aniversário, com belas histórias sobre Tom Jobim. Tenho que trocar as cordas do meu violão, que estão gastas e semitonadas, ato que requer um certo ritual, além de esperar o tempo certo para que elas atinjam o limite máximo da sua elasticidade, chegando à afinação final. Por outro lado, como já não se usa mais tocar CD em carro, vou ter que usar da boa vontade do meu filho Gabriel, para colocar em um pendrive algumas músicas que venho selecionando e passar uma cópia ao meu amigo Luis Carlos Faleiro, que viaja bastante de carro e aprecia boa música. Reli o poema: “José”, de Carlos Drummond de Andrade e uma crônica sobre o poema, feita por José Saramago: “E agora, José?”, que repassei para alguns amigos que também apreciam boa leitura.

Com a ajuda do meu filho Gabriel, tenho projeto de reativar o Blog do Kalú no início de 2015, com ênfase e atenção especial ao mundo da música, para contrapor ao leque de músicas de péssima qualidade que se ouve por estas plagas, no dia a dia. E só para lembrar o grande escritor baiano (nordestino), João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro.

 

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