O mundo editorial está de pernas para o ar

Meu amigo, o médico Carlos Dutra Amorim, mandou-me um email, no último fim de semana, acompanhado de um artigo do jornalista Clovis Rossi, da “Folha de São Paulo”, edição de 16/03, a respeito da crise que vêm sofrendo as publicações, em face da substituição do papel pela Internet. Assustados, não?

Este articulista já vinha sentindo o problema. Em 2011, o advogado e meu primo Wilson de Oliveira Ribeiro, de Itapetinga, solicitou-me a aquisição, em alguma livraria de Salvador, de uma edição nova comentada, artigo por artigo, do Código de Processo Civil. Não achei. Fui informado que as editoras estavam em dificuldade, em face da concorrência da Internet. Para os que não sabem, hoje em dia um advogado ou um médico acha no Google tudo o que quer. Os médicos, no particular, já usam até a expressão “Dr. Google”, substituto da consulta profissional.

Pois é. E para onde vão os grandes pensadores? Os doutrinadores do Direito? E o resultado dos avançados estudos da Medicina e de outras ciências? Somente uma ida ao computador e tudo está resolvido. E para onde irão as bibliotecas? Pior ainda, os meninos copiando na Internet e entregando os seus trabalhos escolares aos professores, sem nem ao menos dar uma lida para aprender um pouco.

O jornalista Clovis Rossi ficou assustado ao saber que “a Enciclopédia Britânica, com 244 anos de existência, migraria do papel para a Internet”. A “Britânica” ainda faz parte da vida de muitas famílias, mas vai desaparecer. É ali que, ainda, a juventude busca a maior parte dos assuntos relativos aos seus trabalhos escolares. Mas os tempos vão passando e tudo mudando. Semana passada, mesmo, a diarista, que presta serviços na casa de minha filha, pediu ajuda a minha esposa para fazer um trabalho escolar sobre a vida de Jorge Amado. A tarefa veio para mim. Fui à Internet, mais precisamente no Google, e de lá retirei uma bela biografia do grande escritor baiano. Precisei da “Enciclopédia Britânica” ou “Delta Larousse”? Não. Quem tem computador em casa (todo mundo tem) não precisa quebrar a cabeça. E a culpa é da modernidade.

Vejam como os tempos estão mudando. Escrevi, um dia, no meu livro “Itapetinga: a persistente busca de sua história”, que. nos anos 30 do século XX, no povoado Itatinga (atual Itapetinga) existia um homem conhecido por “Correio”, que, a cavalo, levava e trazia correspondências e tudo o mais, até dinheiro, para cima e para baixo, entre o lugarejo e as cidades de Itambé e Conquista, gastando vários dias nessa missão, refém ainda mais das chuvas e das enchentes dos rios. Hoje, por email, faz-se até transferências bancárias, sem falar em fax e sedex, que resolvem inúmeros problemas. E isso tudo até entre países distantes.

Tudo mudou, inclusive no mundo do jornalismo. Alguns jornais brasileiros, como a “Tribuna da Imprensa”, o “Jornal do Brasil” e a “Gazeta Esportiva” não têm mais suas edições impressas no papel. Só online, que dizer, pela Internet. O nosso “Dimensão”, faz tempo, tem suas edições em papel, distribuída na cidade de Itapetinga, e a edição online.

O mundo mudou e virou tudo de pernas para o ar. Nos meus tempos de menino, um fazendeiro, em Itatinga, vendia uma boiada, em ponto de abate, a boiadeiros de Feira de Santana, visando o mercado de Salvador, e o gado viajava a pé; emagrecia na estrada; alugavam-se pastos para os bois novamente engordar e depois seguir viagem. Eram seis meses pela estrada. Uma loucura. Hoje, eu, morando em Salvador, como carne fresca de bois abatidos em Itapetinga, na véspera, à venda nos supermercados daqui. Nem os tais “caminhões de bois”, de uma fase intermediária, existem mais. Agora, a carne de boi vem de caminhão-frigorífico, que faz a viagem numa noite e nem passam mais por Feira de Santana, pois o caminho já é outro: BR-101, via Itabuna. É “vapt-vupt”.

Pois é, meu caro Dr. Carlos Dutra Amorim. Até em nossos contatos sobre o artigo “Acabou o papel, não o jornalismo”, do articulista Clovis Rossi, da “Folha”, são rápidos. E nós, de uma geração um pouco mais antiga, tivemos que também nos adaptarmos à ação dos computadores e da Internet. Pois os nossos filhos e netos – a criançada toda – está muito à frente, no uso das máquinas da Informática.

Voltando ao caso dos jornais, em Salvador os diários “A Tarde”. “Correio da Bahia” e “Tribuna da Bahia” não têm mais a grande tiragem de tempos atrás. O jornaleiro, que passa aqui pelo prédio em que moro, já se queixa da pequena vendagem. É que, nos dias atuais, a maioria das pessoas já lêem os jornais online bem cedinho, via Internet. Não precisam mais comprá-los das mãos do jornaleiro. E a publicidade cobre tudo, não havendo prejuízo para o dono do jornal.

Isto tudo é agora. Novos tempos virão, rapidamente, dentro de poucos anos, meses ou dias, e ninguém poderá imaginar de que lado e em que momento surgirá cada novidade. Precisamos ficar atentos.

 

* Emerson Ribeiro Campos é jornalista, advogado e escritor

emersoncamposc@bol.com.br

 

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