O Legado de Billie Holiday

modelo 1Ninguém cantou “Sunshine on My Shoulders”, como John Denver; “Mona Lisa”, como Nat King Cole; “It’s Now or Never”, a versão popular americana da canção italiana “O Sole Mio”, como Elvis Presley, e Luciano Pavaroti, em sua língua pátria; “Chão de Estrelas”, como o próprio Sílvio Caldas ou Nelson Gonçalves; “Ben” e “Happy”, como Michael Jackson com sua encantadora voz do início de carreira; “Jamaica Farewell”, como Harry Belafonte; “Ne Me Quitte Pás” (1959), como seu autor, o belga Jacques Ramain Georges Brel; “The And”, como Earl Grant; “Il Mare Calmo Della Sera”, como Andréa Bocelli; “Butterfly”, como Daniel Gérard; “L’mour C’est Comme Un Jour” e “La Boheme”, como Charles Aznavour; “True Love”, como Bing Crosby (e Grace Kelly), no filme Alta Sociedade; e “God Bless The Child”, como Billie Holiday. A lista é grande, e você deve ter a sua também. Alguns cantores, como Wilsom Phillips, Paul Overstreet e Sylver, tentaram imitar Billie Holiday, mas não chegaram nem próximo do elevado nível de expressão, do refinamento e da intensidade vocal que ela transmitia.

Jacques Brel escreveu “Ne Me Quitte Pás” em 11 de setembro de 1959, num extremo momento de tristeza e angústia, quando se separou da esposa, a atriz e cantora Suzanne Gabriello, filha do ator Gabriello. Ao se separar, Suzanne uniu-se ao diretor Guy Lauzin (1930-1996), um dos sócios de Brel. Seu verdadeiro nome era Yvonne Henriette Marie Galopet. Nasceu em 24 de janeiro de 1932 e morreu de câncer, em 9 de agosto de 1992. “Ne Me Quitte Pás” é considerada a canção mais triste escrita até hoje. Nina Simone, Jonny Halllyday, Edith Piaf e Maysa também a cantaram, mas sem o lamento, o sofrimento triste e destruidor de Brel.

É bom cantar. Durante um ano cantei como primeiro tenor no coral “Carlos Gomes” do colégio interno, o Instituto Adventista de Ensino – IAE, na cidade de São Paulo. Lembro que, no tempo em que eu cursava o ginásio, nossa professora de francês, Eunice Walting, que também cantava no coral com seu esposo, Jorge Walting, nos fazia recitar “Le Printemps”, de Victor Hugo, “Réveil”, de Mme E. de Pressensé, e cantar “Savez-Vous Planter Les Choux?”. Cantávamos com todo ardor da mocidade “La Marseillhaise” (Canto de Guerra para o Exército do Reno), de Claude-Joseph Rouget de Lisle, que o contingente armado de Marselha levou para Paris, durante a Revolução Francesa de 1789, e que a França adotaria como hino nacional, em 1795. Em 2006, 36 anos depois, ao sair da igreja, na cidade de Vitória (ES), encontrei a professora Eunice e seu esposo, Jorge Frederico Walting, meu ex-professor de Contabilidade. Ele é um letônio que, por muito tempo, ficou sem pátria, porque, por 51 anos, desde 1940, a União Soviética incorporou a Letônia, a Estônia e a Lituânia ao seu território, libertando-as somente em 1991, pouco antes do fim do império soviético. A Letônia, cuja capital é Riga, fica entre a Estônia (Norte) e a Lituânia (Sul). Ele naturalizou-se brasileiro. Recitei, de propósito, todo o poema de Victor Hugo, para fazê-la recordar. E ela, surpresa, perguntou-me: “Quem é o Senhor?”. Respondi-lhe apenas: “Fui seu aluno nas aulas de Francês, no IAE” – Instituto Adventista de Ensino.

Uma vez ou outra, “tento” (tento!) cantar “Un Dì, Felice, Etérea”, da ópera La Traviata, de Verdi, “Una Furtiva Lagrima”, da ópera L’Elisir D’Amore, de Donizetti. Tento também “Recondita Armonia”, da ópera Tosca, de Giacomo Puccini, “Rondine Al Nido”, de Vincenzo de Crescenzo, e “Core ‘Ngrato”, de Salvatore Cardillo. O irmão mais novo do meu pai, meu tio Djalma, gostava de “Core ‘Ngrato”. Cheguei à conclusão de que minha pronúncia do idioma de Pavarotti precisa melhorar muito, se quiser cantar mesmo alguma coisa em italiano. Também, quanta pretensão! Que tal ouvir “Ideale”, com Tito Schipa, “Santa Luzia”, com Caruso, “L’Ultima Canzone”, com Giovanni Martinelli, e “Se…”, com Beniamino Giglio? Quer tentar? É, simplesmente, magistral. Jamais serei páreo para eles.

Gosto de ouvir Ray Charles cantar “I cant’t Stop Lovin’ You” e “Georgia on My Mind”. Gosto de Frank Sinatra, Lester Young, Ella Fitzgerald, John Foster, Donna Summer, Billie Holiday, Sarah Vaughan, Diana Ross, Ben Webster, Aretha Franklin e outros que se tornaram eternos, por seu estilo e pelo tipo de música que escolheram tocar e cantar. Não gosto de Sammy Davis Jr., mas ouço Dean Martin (o inseparável amigo de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford). Billie Holiday vem cutucar minha imaginação. Gosto de ouvir Billie cantar.

Nat King Cole cantava “I Fall In Love”, de Victor Young, um dos maiores compositores americanos de todos os tempos. Nat não parava no palco. Escuto Lester Young tocar “Love Me or Leave Me”. Lester gravava pela Verve. Foi uma pena a Verve não o incluir em sua Jazz-history, uma síntese fabulosa da História do Jazz em vinil, lançada no mercado fonográfico em 1975, três anos depois de Capitol Jazz Classics (1972) da Capitol Records Inc, que iniciou sua série com Miles Davis. A Jazz-history tem 25 álbuns duplos, que vão de Jimmy Smith a Porgy e Bess, passando por Stan Getz, Dizzy Gillespie, Harry James, Gene Krupa, Lionel Hampton, Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, Charlie Parker (grande Charlie Parker!), Louis Armstrong, Duke Ellington, Billie Holiday, Gerry Mullingan, Billy Eckstiner, Count Basie, Norman Granz e orquestras famosas da época. Cada um deixou algo de fantástico para o mundo ouvir e amar. Louis Armstrong ainda é lembrado por “It’s A Wonderful World” (algumas gravações trazem a mesma canção com o nome ligeiramente modificado – “What A Wonderful World”). Essa música leva-nos à serenidade e, também, a pensar nos soldados entrincheirados nos campos de batalha, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), à espera do inimigo. Em 1980, a Abril Cultural lançou no Brasil Gigantes do Jazz, uma cópia da série lançada na Itália em 1979 pela Fabbri Editori S.p.A, de Milão. Lá está Ray Charles como “O Gênio do Blues”.

Ouço Eleonora Fargan, ou melhor, Billie Holiday, considerada por muitos a melhor cantora de Jazz da América. Uma das origens do Jazz, as saudosas “Work Songs”, Canções do Trabalho dos escravos negros dos Estados Unidos da América, é muito evocativa. Devia ser muito comovente vê-los cantar, enquanto colhiam algodão nas fazendas do Sul, quando transmitiam suas angústias e seu sofrimento por meio do canto choroso que entoavam. Em 1958, Miles Davis disse: “Há vezes em que você pode cantar palavras todas as noites durante cinco anos, e repentinamente atinar com o significado da canção… O mesmo acontece com Billie;… Muitas cantoras tentam cantar como Billie, mas no momento em que vão retardar o compasso, não conseguem fazer com que a voz soe com a alma”.

Billie cantava retardando o compasso, seu estilo único de improvisar. É gostoso ouvi-la (Sarah Vaughan que me perdoe), principalmente cantando “God Bless The Child”. Gary Giddings, autor de Riding on a Blue Note (Oxford, 1981) e Rhythm-a-ning (Oxford, 1985), disse que “Billie era a alma personificada” do jazz. Ela sabia mesclar inocência e esperança numa só voz, pois conseguia criar efeitos vocais sofisticados, de maneira singular, emoldurada, por uma sublime dicção dramática e um belo fraseado musical. Era gêmea musical e espiritual de Lester Young, que encanta nossa alma com “Louise”. Gary Giddings afirmou que a inocência e a esperança que Billie mesclava, “representavam o derradeiro gesto da sombria força romântica, que passa pelo pathos do esquecimento, pelo desespero da autodestruição… com as verdades ingênuas de uma arte exangue e fortalecida pela sobrevivência”.

A canção que marcou sua vida foi “God Bless The Child”. Depois de uma discussão com sua mãe, ela teve um insite, um momento de inspiração sublime. Rabiscou repentinamente a letra, correu ao encontro de Arthur Hertzog Jr. e, juntos, transformaram o que ela escreveu em canção, gravada em 1950, a qual se tornaria sua marca registrada depois. Até hoje, quando algum cantor ou alguma cantora deseja homenageá-la, canta “God Bless the Child”. É como uma “As Time Goes By” (1931), de Herman Hupfield, do filme Casablanca (1943), que Sam (Dooley Wilson) toca e canta para Ilsa (Ingrid Bergman), no Rick’s Café Américain, de Rich Blaine (Humphrey Bogart) no Marrocos (na verdade o filme foi todo rodado em estúdio, em Hollywood, por causa da guerra), para se lembrar do passado de ambos, em Paris.

Billie, nascida em Baltimore, Maryland, em 7 de abril de 1915, era filha de um violinista. Em virtude dessa ligação com a música e por ouvir desde cedo os discos de Louis Armstrong e Bessie Smith, começou a cantar aos 16 anos de idade, em boates obscuras do Harlen, o bairro dos negros de Nova York, cujo primeiro núcleo eles estabeleceram ali, em 1900. Gravou seu primeiro disco em 1933, aos 18 anos. Viveu seu apogeu musical entre os anos 1936 e 1943, mas o sucesso só chegou para ela em 1940, um ano depois do ápice de sua carreira, em 1939. Sua autobiografia, Lady Sings The Blues, foi publicada em 1956.

Apesar da doçura na voz, do compasso retardado e da cadência melodiosa de suas canções, sua vida foi marcada pela amargura e pelo desespero, devido à dependência de heroína e álcool. Via-se a tragédia e o sofrimento estampados em seu rosto triste, amargurado por muito sofrimento. Chegou a ser presa no início dos anos 40. Finalmente, vencida pela amargura e derrotada pela droga, morreu na cidade de Nova York, no dia 17 de julho de 1959, aos 44 anos de idade. E o mundo perdeu uma de suas maiores cantoras de Jazz. Ela deixou-nos um legado musical inesquecível, que jamais será igualado, como nas belíssimas palavras da canção de sua inspiração maior: “God Bless The Child” (Deus Abençoe a Criança), que amaremos para sempre, mesmo “Com o Passar do Tempo” (“As Time Goes By”), de Casablanca.

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