O discurso político

Tempo de eleição, de embates acirrados e apimentados, quase sempre acompanhados de agressões verbais que em nada contribuem para o bom desempenho da política e muito menos dos candidatos. Há um imenso vazio e uma carência de oradores devidamente preparados, com eloquência, cujo discurso faça o público e o eleitorado se encher de entusiasmo. A oratória continua pobre e vazia. Chega ser difícil acompanhar algum raciocínio lógico, deixando de lado, como é de praxe, as raríssimas exceções. Muitos preferem o caminho oposto, optando pelos berros, gritos e xingamentos, achando ser esta a melhor maneira de conseguir os aplausos do eleitorado. Outro enorme problema são os nomes esdrúxulos de alguns candidatos, que nem sobrenome tem. Candidato que se preza tem que ter nome e sobrenome. Atrelar o nome à função que exerce não vai ajudar em nada. É fulano do cemitério, do trânsito, da geladeira, da serraria, do gás, da construção e sei lá mais o quê. E olhem que tem coisa bem pior por aí. Uma verdadeira aberração. Devia haver uma lei que só permitisse registrar candidatos com o nome de registro ou batismo. Aí certamente já faria uma boa seleção, deixando de fora os aventureiros e oportunistas. Sobre boa oratória e eloquência tenho uma vaga lembrança de quando o Ex-governador Waldir Pires veio pela primeira vez a Itapetinga e proferiu um discurso na Praça Augusto de Carvalho, que deixou a população encantada. Me recordo quando ele se dirigiu ao público presente, com sua voz pausada e com empostação, chamando-o de: “meus conterrâneos”. Acho que foi a primeira vez que tinha ouvido aquela palavra em um discurso. Não me lembro do conteúdo do discurso, pois era apenas uma criança, mas esta lembrança boa e a admiração pelo político Waldir Pires permaneceu viva até hoje, justamente pela eloquência qualidade dos seus discursos.

Dizem que o ex-governador Antonio Carlos Magalhães tremia na base quando via Waldir Pires fazer o uso da palavra, pegando o microfone e com aquele jeito todo especial e característico de fechar um pouco os olhos, como se estivesse meditando e lapidando o raciocínio para proferir as palavras certas, no momento certo. É lógico que todo orador que se preza se entusiasma com o calor do público. Mas nada disto justifica mudar o tom do partido para gritos e berros. Nunca tive qualquer pretenção política, mas acredito que aqueles que pretendem seguir carreira nesta área deveriam ter o mínimo de preparo e conhecimento ao enredarem por este caminho. Comentários semelhantes já foram feitos aqui neste espaço. Apenas para relembrar, em janeiro de 1990 adquiri o livro “Política”, de João Ubaldo Ribeiro, ex-professor da Universidade Federal da Bahia e Mestre em Ciência Política e Administração Pública pela Southern University of Califórnia, onde ele desvenda numa linguagem simples, porém precisa, os fenômenos políticos, as várias formas de governo e as correntes ideológicas. Neste livro ele destrincha com detalhes: quem manda, por que manda e como manda na política. É uma leitura bem interessante de um livro de apenas 221 páginas, que muito ajudaria aos novatos e também veteranos na política. Dei um exemplar de presente a um colega que enveredou pela política, com a seguinte dedicatória: “Política não é a arte de dar nó, mas sim de desatá-lo”.

Tenho utilizado o recurso de escrever textos mais curtos, abordando dois ou mais temas, com o intuito de facilitar a leitura, evitando cansar ou deixar enfadar meus poucos leitores.

 

Pão-duro

Em toda cidade que se preza há sempre alguém a levar a fama de pão duro, mão de vaca, mão de figa, ou qualquer outro nome que o representa. E esta fama perdurará por toda a vida. Sem querer desmerecer a família ou a memória dos que aqui serão citados, já que todos já se foram, começo minha lista com meu tio Elzevir Dutra (Vivi), considerado o mais pão duro da família. Dentre muitos que o conheceram, Gerson Costa também não ficava para trás. Mas o campeão das histórias foi, sem sombra de dúvida, o velho Cassiano, casado com dona Totonha. Minha primeira história foi passada pelo mano Salvador Dutra, que lembrou de um fato interessante. O velho Cassiano residia na Rua Barão do Rio Branco, cujo local foi por muito tempo a barbearia de Vavá. Na mesma rua e em frente à casa dele ficava a antiga ETMISA (empresa de ônibus). Certa ocasião ele foi atropelado no passeio da casa, por um ônibus da ETMISA, vindo a sofrer apenas escoriações. O motorista de pronto veio prestar-lhe o devido socorro. O velho Cassiano recusou, alegando ter sido só ferimentos leves que resolveria muito bem com o uso de mastruz que havia em quantidade no quintal da casa e que Dona Totonha saberia fazer o curativo. Ao ser informado pelo motorista que a empresa se responsabilizaria pelo tratamento, de pronto foi logo dizendo: “Pois bom! Então vamos logo à farmácia fazer este curativo”.

A outra foi contada pelo amigo Dr. Emerson Campos (Tote), sobre as goiabeiras do quintal da casa do velho Cassiano. Como havia muitas goiabas, ele pedia para os meninos subirem nos galhos mais altos para as colher. Só que com uma uma condição. Durante o tempo em que estivessem no topo ou nos galhos da goiabeira, deveriam colher as goiabas assoviando para que ele tivesse a certeza de que ninguém estaria comendo-as. Depois de colhidas, as boas eram separadas e colocadas na janela da casa, para serem vendidas. As machucadas, roídas por passarinhos ou por bichos eram por ele aproveitadas e estas sim, distribuídas com a meninada.

 

* Carlos Amorim Dutra (Kalú) é médico Cardiologista, médico do Trabalho e músico

e-mail:carloskdutra@gmail.com

 

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