O dinheiro público já foi gasto, vai ter Copa sim!

padrão destaqueTem conquistado ampla circulação pelas redes sociais uma reportagem com o título “Quem grita ‘Não vai ter Copa'”. Segundo o site que a publicou, esta e as demais matérias ali relacionadas têm o objetivo de “mostrar como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos da Copa”. O texto em questão, busca expor o que é, como se organiza e quem participa do movimento cujo mote é “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”.

No corpo do texto, o repórter cita que os objetivos dos participantes é mostrar internacionalmente que o poder popular não quer a Copa e menciona a vitória das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus, no ano passado, como um exemplo de que é possível, impor a força popular contra o que não a satisfaz. Certamente, mas uma coisa é confrontar os interesses dos empresários do setor de transporte, outra é enfrentar o poder da Fifa e de toda a monumental estrutura mobilizada para a realização de um megaevento como esse.

Os protestos contra a Copa têm sua razão por criticar um governo que se submete a exigências externas – o conhecido “padrão Fifa” – incompatíveis com o respeito aos direitos elementares dos cidadãos, em particular da população pobre. Mas, como ocorre tantas vezes, a paixão militante começa não distinguir a realidade ao sonho e perdem a noção do que é realmente possível e o que é utópico. É claro que vai ter Copa sim e o governo tem todas as armas para possibilitar a realização do evento e barrar da festa os insatisfeitos. E o evento tem que ser realizado mesmo. O dinheiro público já foi gasto, as obras estão praticamente prontas e o que nos resta é apoiar o espetáculo e pensar no legado que a Copa poderá deixar ao Brasil. Além dos benefícios de toda estrutura esportiva e das obras de mobilidade que estão sendo realizadas – nem sempre a contento, é verdade, mas é um começo -, o setor turístico deve aproveitar o momento de grande visibilidade para cativar os visitantes e fazê-los retornar em outras oportunidades. Esse setor, inclusive, já cresceu 5,6% no ano passado, acima da média mundial. Recebemos mais de 6 milhões de estrangeiros e, de quebra, o Brasil foi colocado em primeiro lugar entre os melhores país para se visitar em 2014, conforme o prestigiado guia turístico Lonely Planet. E eu acredito, verdadeiramente, que receber essa grande quantidade de visitantes não será um problema para o país. Se o Brasil deu conta da Copa do Mundo em 1950, por que não daria conta agora? Se realizou a Copa das Confederações no ano passado, por que não realizaria a Copa? Se recebeu muito mais gente na Jornada Mundial da Juventude, em uma só cidade, por que teria dificuldades para receber um evento com menos turistas e espalhados por todo o país?

Protestar contra a Copa agora é entrar em uma luta perdida enquanto há tantas outras maiores e mais importantes para serem vencidas. O Brasil tem de problemas que não foram causados e nem serão resolvidos pela Copa. É preciso guardar energia e credibilidade – sim, porque os movimentos começam a se esvaziar e a tomar vertentes infelizes por causa da violência – para lutarmos contra milhares de questões vitais e que precisam ser solucionadas com urgência. Há temas que não podem ser abandonados, como a ampliação do número de profissionais de saúde em todas as cidades, questões relevantes para a infância e juventude, o sistema prisional que está entre os mais indigentes do mundo, a melhoria do ensino público, etc.

É lugar comum dizer que a educação e saúde necessitam de investimentos urgentes e contínuos. E neste caso, a Copa do Mundo de futebol não pode fazer com que os protestos e as nossas próximas eleições sejam monotemáticas, já que, em outubro de 2014, ela já terá terminado e, o que menos importará na discussão eleitoral, será o desempenho da Seleção Brasileira. Os quatro anos que se seguirão não dependerão em nada do evento já finalizado. As mazelas persistirão na insegurança das ruas, no trânsito caótico, nas prisões medievais, nas habitações precárias, na saúde e na educação que não funcionam. E são esses os desafios a serem enfrentados e superados pela ação política, institucionalizada ou não.

Assim como a motivação dos nossos gestores não pode ser apenas preparar as cidades para a Copa, ou até mesmo para as Olimpíadas – que acontecem em 2016 – a motivação dos cidadãos não pode ser, simplesmente, impedir que os eventos aconteçam. A busca deve ser em preparar o país, em todos os aspectos, para os próximos anos e para os cidadãos que residem nele.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

Tags: , ,

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário