O costume do cachimbo

modelo 1Até parece estratégia do governo para ocupar as principais manchetes da imprensa fazer estourar, todos os meses, senão a cada semana, um escândalo envolvendo grandalhões da república. Quando os figurões apanhados nas malhas das investigações pertencem aos quadros dos partidos da oposição todos os esforços são feitos para que os fatos tenham a maior divulgação possível favorecendo a colheita de dividendos políticos. Está nas regras do jogo. O tratamento é diferenciado quando os “mal feitos” revelam a participação dos homens da cúpula dirigente do governo. Aí surgem as mais esfarrapadas explicações para acobertar os atos dos faltosos na tentativa de aliviar ajusta recriminação pública.

O mais recente escândalo, fartamente divulgado pela imprensa nacional,envolve a aquisição pela Petrobrás de uma obsoleta refinaria de petróleo, lá pelas bandas do Texas, nos Estados Unidos. E é destes cabeludos, capazes de arrepiar os nossos brios e nos cobrir de vergonha. A negociata, que a todo custo se procurou esconder debaixo do tapete, mostra ser, pelas circunstâncias de tempo em que se concretizou e pelos números que engloba, um verdadeiro atentado aos interesses da empresa brasileira e seus acionistas. E sua gravidade ainda é maior porque, desta vez, ao escândalo está associada à figura ilustre da Presidente da República, ao tempo em que exerceu as altas funções de Chefe da Casa Civil do Presidente Lula e acumulava, também, a Presidência do Conselho de Administração da Petrobrás, além de outros grandes da República, a exemplo do Governador Jaques Wagner.

Queimando como fogo em monturo este “mal feito”, que dormitava bem guardado nos escaninhos palacianos, passou a frequentar as páginas dos principais jornais, revistas e noticiários televisivos há mais de dois anos. De início, negado como fato de menor importância e afogado pelo conceituado nome da Petrobrás. Agora, entretanto, com briga atiçada e fomentada pela alta direção do PT contra o PMDB, voltou à tona com toda força, jogado no ventilador dos desencontros políticos. Revelado em detalhes que comprometem até a medula aqueles que autorizaram a maracutaia, está a exigir dos envolvidos os esclarecimentos que convençam a opinião pública, tantas vezes desconsiderada neste país de copa do mundo e outros devaneios.

Ante o silêncio dos demais, e, talvez se adiantando a questionamentos que lhe seriam endereçados nesta fase de caça aos votos, a Presidente Dilma Roussef, por sugestão de seus conselheiros, fez publicar na imprensa uma nota de esclarecimentos sobre a sua participação neste lamacento episódio. Como o fato está documentado em ata, não havia como negar a sua efetiva participação ou dela fugir. Não sei se melhor não seria se não deixasse a critério de diretores da empresa as explicações veiculadas. Ficou bem pior a emenda que o soneto. A confissão não lhe retira a responsabilidade pelo ato autorizado ou praticado, nem elide a sua responsabilidade civil ou administrativa. Dizer que foi induzida ao erro por informações incompletas contidas em parecer técnico que fora submetido ao Conselho de Administração é não dizer nada. A obrigação de todos os componentes do Conselho era exigir as informações em toda a sua correção, para tanto eram regiamente remunerados. A ata não consigna essa tosca desculpa e nem haveria lugar para contemplá-la. A conclusão que, deixa escapar a nota da presidência, é que, com a mesma displicência como aconteceu em relação à aquisição da velha e defasada refinaria, ocorreria em qualquer outra circunstância, pouco importando a relevância da matéria.

Que o PT é uma colcha de retalhos, todos sabemos. E que cada naco dessa colcha tem um mandão, também não é novidade. Novidade mesmo é partir do ex-presidente da Petrobrás, por acaso Secretário do Governo Jaques Wagner, um dos Conselheiros que autorizou a malfadada e perniciosa compra, a iniciativa de desmentido à nota da Presidente da República. Também, e ao que consta, pertencem eles a facções que se atritam dentro do partido. Não custa lembrar que Sérgio Gabrielli foi flagrado visitando o mensaleiro mor, José Dirceu num hotel. Em Brasília, contrariando orientação da Presidente. O carão não ficou circunscrito ao Palácio do Planalto: agora, veio o troco. Alegar, como consta da nota, o desconhecimento da leonina cláusula que obrigou a compra do total da vetusta empresa e pelo absurdo preço confessado, é como assinar sem ler. E foi assim, pela confissão, que agiu a Presidente. Que a tal cláusula existia é fora de dúvidas; dúvida mesmo é, existindo, não ter sido manejada contra o outro sócio. E debaixo deste angu tem carne …. e dá boa.

Curiosa e muita curiosa a defesa com que membros do PT se lançaram contra a posição política da Câmara dos Deputados que exigiu apuração desta escabrosa negociata. Chegam ao desplante de alegar que a investigação acarretaria danos ao conceito internacional da Petrobrás. Convenhamos é uma falta de respeito a todos nós. Numa democracia nada mais natural que a convocação de Ministros, Diretores de Empresas Públicas e outros nobres dirigentes, para prestarem esclarecimentos sobre os setores que lhes foram confiados. É uma das prerrogativas do Parlamento e só aqueles que tem algo muito grave se recusam ao comparecimento ou estranham a convocação ou o convite. Enfim, e já tardiamente, a transparência dos atos públicos tornou-se lei neste país e lei votada exatamente por aqueles que, neste episódio, negam o seu cumprimento. Uma vergonha. Uso do cachimbo entortou a boca de muita gente.

A Petrobrás é um orgulho da nossa capacidade de desenvolvimento, praticamente uma paixão nacional. É um emblema da nacionalidade e fruto de uma memorável campanha pela defesa do petróleo brasileiro. Por tudo que representa deveria, e deve, merecer mais respeito por parte dos seus dirigentes.

 

* Laécio Sobrinho é advogado

laolsadv@hotmail.com

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário