O clamor

O rapaz que estava ao meu lado me abraçou como quem procurava o ombro do próprio pai. Ele chorava como uma criança. Sua namorada agarrou-se a nós dois e tentava pular, mas não conseguia tirar do chão ao mesmo tempo dois homens tão grandes. Enquanto acalentava aquele jovem, eu procurava ansiosamente enxergar meus filhos no meio daquela multidão enlouquecida.Mas, as vistas embaçadas e o frenesi das pessoas que quase me sufocavam naquele instante não me permitiam ver nada além. Só alguns segundos depois é que, bem à minha frente, identifiquei minha filha abraçada à minha irmã – a tia que sequer conseguia conter suas próprias lágrimas, mas que, mais madura, tentava em vão controlar o pranto da sobrinha. Ambas vieram sôfregas ao meu encontro. Nesse instante, abraçado a elas, consegui ver que às minhas costas um homem desconhecido, com o rosto tomado por uma emoção intensa, tinha meu filho em seus braços. O moleque, usando um boné mal acomodado na cabeça, com a aba voltada para trás, segurando-se com a mão direita por sobre o ombro do estranho, erguia o punho esquerdo fortemente cerrado e soltava um brado que parecia ecoar ao longe. Ao nos olharmos, ele imediatamente desceu do colo daquele homem e veio a mim. Estendi-lhe os braços abertos e ele se atirou em meu peito como quem mergulha num porto de chegada. E nessa hora se desmontou. Como se fosse uma erupção vinda de dentro de sua alma, do mais bem guardado recanto de seus sentimentos, um choro marcante tomou aquele menino. Ele parecia sentir e entender exatamente tudo o que aquele instante representava. E verdadeiramente, chorou como um adulto.O nó que travou minha garganta naquela hora roubou-me praticamente todo o fôlego, mas não me impediu de levantar os olhos por sobre os gritos e braços que me cercavam, para vislumbrar o que se passava. Dezenas de milhares de pessoas, vestidas com as mesmas cores, como se fossem um corpo só, tomadas pelo mesmo delírio, produziam uma espécie de coreografia, criada espontaneamente, sem qualquer ensaio, gerada apenas pela mais pura euforia. E compondo um coro gigantesco, formado por todas aquelas vozes, agitavam panos e bandeiras, num entusiasmo de impressionar. Um êxtase coletivo.Todos ali haviam atravessado um longo e sofrido percurso, até chegar àquele momento. Ali assistiam a uma batalha com contornos épicos, que parecia interminável e imprevisível. E explodiam numa comemoração incontrolável, pois naquele instante, acabava de acontecer o que finalmente parecia ser o golpe decisivo, que poria fim àquele combate, determinando definitivamente quem seria o vencedor. E, ao que tudo fazia crer, seria justamente aquele por quem todos ali vibravam ardorosamente.O local dessa batalha? Um estádio. A espécie de batalha? Um jogo de futebol. A arma usada no golpe? Uma bola. O tipo de golpe? Um gol. Os que assistiam? Uma torcida apaixonada.Para muitos, situações desse tipo podem não fazer o menor sentido – talvez, inclusive, até para você, leitor que prestigia essas mal traçadas linhas. São pessoas que não vêem grandes atrativos no futebol. Que dizem ter um time de preferência, mas que na verdade pouco se importam com seus rumos, com seus torneios, suas disputas, suas rivalidades. Que, quando muito, assistem a alguns jogos da seleção brasileira em tempos de copa do mundo, muito mais pela folia da época do que propriamente por interesse verdadeiro.Todavia, o futebol, como talvez poucas outras modalidades esportivas, consegue ultrapassar essa condição de simples competição, interessante para uns, desinteressante para outros. Há nele uma capacidade incrível de mexer fundo em cada um dos corações que se deixam contaminar por seus encantos. É uma impressionante usina geradora de sentimentos, intensos, profundos, apaixonados e, sobretudo, verdadeiros. É difícil ficar indiferente a isso.Homens e mulheres. Adultos e crianças. Jovens e velhos. Ricos e pobres. Doutores e iletrados. Pessoas de todos os tipos, idades e níveis sociais, levadas por esses sentimentos, se encontram, se juntam, se misturam, no mesmo espaço, tornando-se absolutamente iguais, sem qualquer distinção. Que outro mecanismo conseguiria reunir e harmonizar massas tão heterogêneas?Nas arquibancadas, estranhos se sentam lado a lado, tornam-se amigos instantaneamente, conversam entre si como se fossem íntimos de longas datas. Debatem. Criticam. Elogiam. Trocam ideias. Sofrem, lamentam, reclamam. Abraçam-se, festejam. A uni-los, uma afinidade comum, com expectativas e desejos totalmente idênticos. O que mais seria capaz de proporcionar tamanha confraternização e proximidade entre tantos desconhecidos?Histórias de vidas totalmente distintas, que nunca antes haviam se encontrado, mas que naquele momento, ao se cruzar nas arquibancadas, se identificam imediatamente, pois vêm trazendo as mesmas experiências e lembranças, os mesmos sucessos e derrotas, alegrias e tristezas, sorrisos e lamentos, êxitos e frustrações. O que mais teria essa capacidade, se não o futebol?E, particularmente, no caso desse jogo mais recente que levou meus filhos às lágrimas, havia uma carga dramática tão poderosa a envolver o confronto, que parecia estar criada uma atmosfera verdadeiramente mística sobre o estádio. Duas grandes equipes se enfrentavam. Uma delas, porém, que sempre teve o dom de despertar paixões avassaladoras, e que por isso tem reconhecidamente uma das maiores torcidas do país, estava há uma década sem conseguir conquistar nenhum título. Nessa fase entrou em decadência, perdeu espaço, e fez seus apaixonados seguidores virarem alvo das piadas e gozações dos rivais. Não poderia ter havido período de humilhação maior, que parecia jamais chegar ao fim.Aquele era o dia! Com melhor campanha em todo o campeonato, um simples empate nesse último jogo garantiria o título. Essa era a expectativa que contagiava seus torcedores, presentes em esmagadora maioria. Todavia a partida foi tão intensa, com tantas reviravoltas no placar, que levou a torcida da expectativa ao receio, do receio à alegria, da alegria à tristeza, da tristeza à beira do desespero. Um estonteante coquetel de emoções!O final da partida se aproximava, o time perdia, e o bendito gol de empate não saia. Mais um ano… A torcida, entretanto, apesar de cada vez mais incrédula, parecia estar dentro do campo jogando com o time. Gritava, cantava, incentivava. Aquilo gerava um fluxo de energia tão intenso, que não havia quem não se arrepiasse. Os jogadores devem ter sentido isso e foram bravamente à luta. E o gol finalmente veio! Partida encerrada. Título conquistado. Festa indescritível!Na saída do estádio, minha filha me pergunta: “Pai, e finalmente, quem foi o jogador que fez o gol?”. “Nem sei ainda, minha filha – respondi – foi um bate e rebate tão louco que nem vi quem empurrou a bola para dentro”. Nessa hora um homem negro, enorme, com cabelos em tranças rastafari, usando uma touca tricolor, ao ouvir minha resposta, me segurou pelos braços, fitou-me com os olhos marejados e disse: “Quem fez foi Deus, meu irmão!”. Abraçou-me como realmente a um irmão, e seguiu invencível em sua vibração.Enfim, como bem disse o comandante da equipe campeã, “nesses momentos a gente apenas sente, mas não tem como explicar”. Uma coisa pelo menos é certa: Essa foi uma conquista que atendeu a um verdadeiro clamor popular. Ou, para ficar mais sonoro, essa conquista foi, com certeza, “do povo o clamor!”.Pois é, assim é a magia do futebol…

* Adriano César Pessoa de Alcântara é Advogadoalcantara.adriano@hotmail.com

Um comentário para “O clamor”

  1. Nádia Guimarães
    23 de maio de 2012 às 16:24 #

    Emocionante ler o artigo, emocionante fazer parte da nação tricolor, emocionante ser amiga do colunista!
    Parabéns Adriano Alcântara!

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