O carisma e a humildade de Francisco

papaO papa Francisco desembarcou nesta quarta-feira, no Brasil, com a difícil missão de aproximar o Vaticano dos fiéis, melhorar a imagem da igreja e recuperar espaços perdidos para outras religiões que crescem no país mais católico do mundo. Chegou em um momento conturbado, cheio de protestos políticos, além dos infames atos de vandalismo que se escondem atrás das manifestações legítimas. Chegou a um país em ebulição, onde a juventude mostra, afinal, que “sabe e faz a hora, não espera acontecer”. Chegou esbanjando simpatia, simplicidade e humildade. Ao desembarcar no Rio, preferiu dar uma longa volta pelo centro da cidade em carro sem fumê, com os vidros abaixados, para o contato com o público. Enfrentou um engarrafamento e nem assim perdeu o humor. Tocou e foi tocado nas pessoas do povo, sem demonstrar medo da aproximação. Beijou crianças e, sempre acenando, emocionou grande número de fiéis.

No Brasil, sua simplicidade vem em boa hora, para transmitir ao nosso povo esse sentimento de humildade franciscana, gesto simples, mas bastante significativo para um povo como o nosso, afeito à cultura da aparência. Mas, talvez o mais difícil trabalho de Francisco aqui no Brasil, certamente, foi o de aproximar a Igreja Católica das outras religiões. Isso pode fazer parte, inclusive, de uma estratégia para angariar fiéis. No Brasil, por exemplo, os católicos passaram de 73,6% da população em 2000 para 64,6% em 2010, segundo o censo do IBGE. O papa Francisco não teve um encontro específico com as igrejas irmãs, nessa viagem ao Brasil. No entanto, o encontro com diversas autoridades mostra seu caráter ecumênico e de diálogo com o poder civil, a fim de construir uma sociedade mais fraterna e uma unidade entre poder civil e religioso.

Apesar de festejada por católicos, a Jornada Mundial da Juventude tem sido alvo de críticas de não seguidores do Vaticano. Isso porque, segundo especulações, o evento custou cerca de R$ 118 milhões aos cofres públicos. Para piorar, o Campo da Fé, em Guaratiba, lugar onde seriam realizadas a vigília e a missa, no sábado e no domingo, foi completamente alagado e inviabilizado para o evento. Embora o Comitê Organizador tenha explicado que 70% do dinheiro da Jornada vem da contribuição do peregrino e o restante de doações e patrocínios, muitos ainda reclamam dos R$ 14 milhões investidos em obras de drenagem, pavimentação e saneamento em Guaratuba, no ano passado. Além disso, não faltaram críticas e acusações desrespeitosas ao Papa. Muitos os chamaram de hipócrita por pregar o desapego ao luxo e às coisas materiais – Francisco substituiu o trono dourado por uma cadeira de madeira, o anel papal de ouro por prata e a cruz cravejada de rubis por uma confeccionada em metal e ainda dispensou o papa móvel blindado e o quarto luxuoso de hotel. Outras brincadeiras de mau gosto não merecem nem serem reproduzidas.

Fui criada sob os dogmas católicos. Batizei-me, fiz primeira eucaristia e, por muito tempo, frequentei assiduamente as missas dominicais. Mas, por conta da rigidez de algumas leis católicas, acabei casando-me sob a benção, mais do que especial e sem nenhum preconceito, de um líder da Igreja Batista, o pastor Adelson. A cerimônia foi linda e respeitosa e acredito que minha união foi abençoada pelo mesmo Deus que eu sempre segui durante os anos que frequentei a Igreja Católica.

Hoje, como uma agnóstica (aquela que crê em Deus, mas não segue nenhuma religião) que sou, não consigo entender a atitude raivosa e de competição que algumas igrejas e seus membros travam uns com os outros e que o papa Francisco tentou acabar ou ao menos diminuir nessa visita. Pregam tanta coisa bonita, espalham tantos trechos bíblicos por aí, mas esquecem do primeiro mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas (e aqui acredito que isso significa amá-Lo, inclusive sobre as igrejas e seus líderes) e ao próximo como a si mesmo”. Acho que as pessoas só se aproximarão verdadeiramente de Deus quando começarem a se aproximar respeitosamente dos outros seres humanos. Saber respeitar o outro talvez seja o passo mais difícil da caminhada por uma elevação espiritual.

A visita do papa ao Brasil poderia, sim, ter sido um gasto desnecessário se não fosse o carisma e a humildade de Francisco que trouxe paz, amor, perdão, união, fé, esperança, verdade, alegria e luz, como diz a oração ao santo de mesmo nome. Li, nesta semana, que o Papa, ao chegar por aqui disse: “Muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica, outros não crêem. Concedo minha benção, de coração, no silêncio, a cada um de vocês, respeitando a consciência de todos, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus”. E assim deve ser e que assim seja.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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