Nosso tempo

kaluDuas edições ausentes no Jornal Dimensão por motivos outros, foi o suficiente para que minha meia dúzia de leitores me cobrassem a ausência, através do Whats App ou de mensagens no celular. Escrever é uma arte e nem sempre a gente encontra o momento propício para expor as idéias no papel. Seleciono algumas jóias da música instrumental de Egberto Gismonti como fundo musical e fonte de inspiração e vou teclando no computador o que me vem à mente. Penso muito sobre a palavra saudade e tudo que vivemos e que nos remota ao passado. Não deixa de ser um lapso saudosista. Penso também sobre as cartas que não mais recebemos, substituídas pelos e-mails, na maiorias das vezes secos e resumidos, sem qualquer sentido de afeto. Confesso que sinto falta do início tradicional das antigas cartas que começavam com um prezado, caro ou dileto amigo, seguida da tradicional saudação: felicidades ou um afetuoso abraço. O tempo anda correndo tão rápido que a gente sequer dá conta. De lápis ou caneta na mão íamos deslizando palavras e mais palavras em cartas longas que não tinham fim, complementando no final com um afetuoso P.S, para arrematá-la, justificando algo que esquecemos de dizer. A ida ao Correio era um complemento na certeza de que chegaria ao destinatário. E de tanto deixar de fazer será que não iremos esquecer como se escreve mais uma carta? Será que estamos ficamos demodê, para usar uma palavra antiga e apropriada? O novo está sempre na moda, mas o velho nos traz memoráveis lembranças. Vivemos uma vida tão curta, que se não dermos a ela um sentido verdadeiro, nada valerá a pena. No universo musical e grandioso de Egberto Gismonti vou passeando por canções maravilhosas que de longe se ouvirá no rádio ou na mídia do dia a dia: Carta marítima, ao som maviosos de uma cítara, O anjo, Coração, Maracatu, Água e vinho, Loro, Palhaço, A fala da paixão, Cigana, Mágico, Nada mais que a paixão, Adágio, And zero, 7 anéis, Dom Quixote, Ruth, Hino ao Carmo, só para citar umas poucas que selecionei no Youtube. Dizem que estou ficando meio refinado com a internet. Mas, é preciso sobreviver e se adequar à nossa realidade. Confesso que estou há mil anos luz, se comparar-me com meu filho Gabriel. Mas, também não estou fora do contexto e nem no mundo da lua. Voltando ao nosso tempo cada um procura preenchê-lo à sua maneira e da forma mais conveniente. Há quem o aproveita ou desperdiça em memoráveis farras de finais de semana, regados à bebida e com direito à ressaca e tudo mais. Quem complementa o salário utilizando o domingo de folga para trabalhar e ajudar na receita. Crentes e tementes a Deus vão em busca de seus templos para orarem e fazerem suas preces. Quem encontra paz na meditação ou no seio familiar preferem a discrição. Outros se refugiam no mundo da música ou da leitura. O certo é que cada um procura sua paz e seu refúgio. Sem falar naqueles que se preocupam em ajudar o próximo, fazendo do seu lazer o manto da solidariedade.

Vem-me à mente os versos do poeta Carlos Capinan: “Onde eu vou descansar minha asa/ Em que casa abrigar minha dor”.

 

Carlos Amorim Dutra

e-mail: carloskdutra@gmail.com

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