Nos acostumamos com a injustiça

Licitações com cartas marcadas, negociatas, combinações indecorosas de suborno, propinas, truques para escapar da fiscalização. O programa Fantástico, da TV Globo, flagrou e exibiu no último domingo a corrupção dentro de um hospital público do Rio de Janeiro. Durante dois meses um repórter do programa trabalhou no hospital Pediátrico da Universidade do Rio de Janeiro. O que ele viu – e gravou – é um escândalo. Um retrato de como algumas empresas agem em órgãos do governo para ganhar dinheiro. Muito dinheiro. O nosso dinheiro.

Entre quatro paredes, o que a gente paga em impostos e que deveria ser destinado à saúde, à educação e outros serviços vai parar no bolso de empresários inescrupulosos e funcionários públicos corruptos. Como se fosse tudo normal. O ministro do Tribunal de Contas da União, José Jorge, disse na segunda-feira que as fraudes mostradas na televisão não são exceção a regra. Nós ouvimos os representantes das empresas mostradas no Fantástico dizerem que isso é normal, é praxe, é do mercado. Chegaram a dizer que era a “ética” do mercado. Se investigarmos com cuidado, certamente poderemos ver, aqui mesmo na nossa pequena cidade, “praxes” como as que mostraram as câmeras escondidas. Jorgina e o juiz Nicolau são exceções de condenações. A impunidade encoraja e faz com que tenhamos que ouvir em gravações como a do Fantásticos “nós estamos acostumados”.

E talvez boa parte dos problemas do nosso país é que nosso povo se acostuma fácil. Neste mundo cada vez mais sujo, as pessoas de caráter e boa consciência deveriam ficar irritadas quando simplesmente se acostumam. Nosso problema em relação a isso talvez seja duplo: não somente ficamos irados repetidamente pelas razões erradas, mas também deixamos de ficar irados com a devida frequência pelas razões certas. O problema é que as coisas que deveriam nos deixar irados – e deveriam então nos mover à ação – simplesmente não suscitam mais a nossa ira. Nós nos acostumamos com a corrupção. Nós nos acostumamos com a pobreza, com a falta de moral, educação e saúde. Nós nos acostumamos também com a falta de compromisso dos nossos governantes. Nós nos acostumamos com a nossa própria complacência e hipocrisia. Coisas que deveriam produzir tristeza e preocupação, que deveriam nos incomodar, passam a ser coisas às quais deixamos de dar atenção e com as quais nos acostumamos.

Parece-nos normal “roubar” dos cofres públicos, desviar verbas para caixas 2, colocar afilhados em cargos públicos, aumentar as verbas dos gabinetes enquanto se deixa a população sem atendimento médico. Nós nos acostumamos com professores e médicos mal remunerados, com o lixo nas ruas, com a falta de gentileza nas relações, com a grosseria e o despudor. Parece-nos normal a privatização dos espaços públicos, desde que se tenha cacife para fazê-lo. Afinal, cada um faz o que pode. Quem não faz o mesmo é porque não tem oportunidade. Parece-nos normal burlar a lei para conseguir alguma vantagem, parece-nos normal a mentira, o uso do outro em meu benefício, os pequenos enganos, os pequenos abusos. Algumas pessoas talvez não sejam ruins, talvez sejam pessoas de princípios e valores, mas que acostumaram-se tanto em conviver com o mal que não o percebe mais. Tornaram-se indiferentes a ele.

Ao nos acostumarmos, ao acharmos natural, nos tornamos, além de complascentes, participantes dessa sujeirada. Quando a gente paga uma propina ao guarda de trânsito, ele é corrupto, e a gente também! A corrupção é uma via de mão dupla. De certa forma, nós nos acostumamos a achar que podemos tomar esse tipo de providência sempre que entendemos que nossos interesses se sobrepõem ao interesse coletivo. Enquanto não se mudar esse paradigma cultural, nós continuaremos sendo um país de corruptos.

A corrupção não é nada mais, nada menos, do que um subproduto de um Estado ineficiente. Quer acabar com a corrupção? Torne o Estado eficiente, transparente. Por que eu telefono para alguém e pergunto se alguém conhece o juiz tal que está com a minha causa? Porque a causa não anda! Se a causa andasse eu não precisava ligar para ninguém! Não precisaria do jeitinho, do tráfico de influência, do suborno que eventualmente acontece.

A injustiça muitas vezes está muito perto de nós e não a percebemos porque nos acostumamos. Vamos nos adaptando a um meio ambiente degradado, à violência, ao estresse. É mais fácil a adaptação do que o esforço pela mudança. O que diferencia os seres humanos dos outros animais não é a capacidade de se adaptar ao meio (isso outros fazem até melhor), mas a capacidade de mudar o meio. A adaptação ao mal é um processo desumanizador que chega até o extremo da banalização da própria vida. Conformar-se com o mal é ser um pouco menos humano.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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