Mulheres meretrizes foram muito cobiçadas no passado

07-as-meretrizes-2-638Ainda nos idos anos 80, desconectando o que ocorreu até o começo dos anos 60, existiu em Itororó a lendária Rua do Guarany onde toda noite tinha uma festa diferente. A origem do nome Guarany foi encontrada simplesmente porque aquela era a rua que dava acesso ao corredor boiadeiro que levava à cidade de Ibicuí que, nos primórdios da história, fora denominada de Rio Novo de Guarany. Naquela artéria foi instalado o chamado Brega da Cidade, ou seja, “O planeta das mulheres de vida livre”, onde os homens se divertiam, cotidianamente, nos braços das mais belas garotas de programa. Toda zona de mulherio, em todas as cidades da vizinhança, se chamava Brega. Brega do Mangassapo em Vitória da Conquista, brega das Três Quinas em Itambé, Brega do Cavaco em Itapetinga, da Rua da Areia em Macarani, Brega da Rua das Meninas em Itarantim, da Rua do Gás em Potiraguá, da Rua do Guarany em Itororó, do Urubu Fogoso em Rio do Meio, da Baixa Fria em Ibicaraí e em Itabuna tinha dois bigs bregas, o do Cajueiro na saída para Ilhéus e o Brega do Texaco na rua que dava acesso a Itajuípe! Era uma fartura de quengas em todos os prostíbulos da região. Era festa pra todo lado a noite inteira até raiar o dia, mas também, havia um verdadeiro “risca faca”. Quando em vez amanheciam alguns frequentadores com a boca cheia de formiga. Neste quesito o famoso brega que ficou mais conhecido foi o das Três Quinas em Itambé. Ali três ou quatro, quase sempre amanheciam estendido sob o solo pedregoso da rua a chão batido.
Em Itororó, boates e mais boates foram instaladas, mantendo aconchegantes ambientes movidos a bebidas, música mecânica e ao vivo como principal motivo para atrair uma boa clientela…
O velho Otávio de Jeremoabo, motorista mercante que residia em Vitória da Conquista, ornamentava, caprichosamente, o seu caminhãozinho Ford F4000, com bancos de madeira acolchoados, e mais a cobertura de lonas amarelas, para transportar um tipo de mercadoria super especial, mulheres de vida livre. As quengas chegavam do alto nordeste: Paraíba, Maranhão e Piauí à procura de dias melhores e ao desembarcarem no Mangassapo na cidade de Conquista, e lá estava o velho mercador de mulheres, pronto para distribuí-las, conforme a sua agenda, pelos prostíbulos regionais. A maioria das quengas vinha em busca de angariar algum fundo para socorrer seus familiares que ficaram enfrentando a seca do nordeste a procura de pão e água.
As cidades circunvizinhas já estavam esperando por uma nova remessa desse agradável produto humano. Em Itororó, Vidal, Almerindo, Pretinho, Chico, Loura Gaga, Bisqui, Maria de Dega, Kelezinha com o seu Inferno Vermelho, Olga, Nego Valdelício, Arlindinho com o seu Cantinho dos Inocentes e muitos outros que mantinham os principais pontos de atração daquela época festiva que acontecia, diuturnamente, naquele local, o mais movimentado da vida noturna da cidade.
Para recordação de muitos que viveram aqueles memoráveis dias, eis uma pequena relação de mulheres que se imortalizaram pela sua popularidade: Maria e Dora eram irmãs, duas mulatas das mais belas daquele harém. Elas faziam inveja às mulatas do Sargentelle do Rio de Janeiro. Neuza Cocota e Totinha, Neuza de Carlito e Creuza que também eram irmãs enchiam as “vistas” da rapaziada. Tereza, Everalda, Zabé beice de batê manteiga, Pretinha, Neguinha, Maria Senhora, Alaíde, Magná, Mariza, Botão, Maria Peito de Aço, Vitorinha, as xarás Vilma branca e Vilma morena e dezenas delas, inclusive aquelas bonitonas que dali se transformaram em grandes donas de casa, se afastando dos prostibulos para se tornarem em excelentes mães de famílias e agora nas mais dedicadas vovós, fazendo parte da nossa digníssima sociedade. Mesmo usando rápidas pinceladas e preservando a identidade daquelas que saíram ainda a tempo para construírem um novo lar, mas não poderíamos ser omissos a passagem dessas nobres mulheres, tão importantes na vida boêmia dos homens, enriquecendo este bonito relato histórico que a elas dedicamos. Deixei de propósito para falar de Chica de Nicanor porque sua sofrida história, já contei, na íntegra, nas páginas de alguns livros sob nossa chancela, inclusive o último, Simplesmente Mulher.
É sempre bom poder meditar e se preparar para o fim da vida. Pois nunca sabemos o que o destino nos reserva para o epílogo da existência. D. Chica fora filha de uma família razoável da sociedade itororoense e fora comerciante/ambulante e tinha uma beleza estonteante. Mas, um dia ela sofreu uma desilusão amorosa que lhe fez perambular pela “rua da amargura”. Usada como peça das vitrines dos prostíbulos da falada Rua do Guarani, ela até que tentou cultivar um mundinho de ilusão no jardim de sua formosura e chegou a ser uma quenga cobiçada pelos graúdos da praça,. Porém, um dia a mocidade deixou D. Chica e D. Chica também a deixou. A velhice pongou no seu cangote, deixando à pobre Chica só marcas e sequelas.
Esta é a simples e comovente história de Francisca de Jesus, que viveu em Itororó e faleceu nos anos 90. Porém, não consta no cartório da Comarca, nenhum registro de óbito com seu nome. Ao que parece, D. Chica fora enterrada como indigente.
Em nome de D. Chica e da mulher itororoense, já que comemorou-se esta semana o Dia Internacional da Mulher, saudamos a todas as mulheres de Itororó e inclusive, as meretrizes que Itororoó conheceu e produziu, pois quer queiram ou não, elas fizeram a alegria de muitos homens, tendo inclusive, algumas delas, se transformado em excelentes mães de família e ainda fazem parte da nossa sociedade.
O pior é que acabaram com os alegres bregas, mas a prostituição continua pelos famosos drive in públicos nos terrenos baldios, em portas de repartições que não funcionam a noite e muitos logradouros públicos em horários noturnos, tudo a la vontê, dentro da mais perfeita regularidade.

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