Mirando no passado

É importante que o processo eleitoral seja movido pelo calor das discussões, porque é do debate sadio, estabelecido e desenvolvido de forma respeitosa entre as diversas correntes de pensamento, que nascem as melhores propostas. Uma posição, portanto, não afasta a outra e as duas contribuem para o aprimoramento das instituições democráticas no cadinho dos palanques e dos meios de comunicação. Neste somatório de opiniões ganha a população, abastecida de maiores esclarecimentos e, deste modo, apta a efetuar a melhor escolha.

Colhe-se nos comentários que circulam entre os grupinhos que se formam nas esquinas, praças, e outros pontos que costumeiramente abrigam rodas de discussões políticas, assunto que domina a pauta das conversas, uma certa surpresa com a amenidade do clima e relativa cordialidade como está se transcorrendo a campanha eleitoral para escolha do futuro Prefeito e composição da Câmara de Vereadores, para os próximos quatro anos. E, registre-se de logo, a surpresa se expressa pelo seu aspecto positivo, obtendo aprovação de todas as camadas sociais. Isto é muito bom tanto para o momento, pelo que representa em tranqüilidade para as pessoas diretamente envolvidas no processo, e, sobretudo, pelo que projeta para a futuro da cidade, manifestamente sedenta de gozar de um ambiente de paz e unidade para a recuperação do seu rumo em busca do desenvolvimento sob as luzes da competência e capacidade dos seus dirigentes.

Os mais velhos se recordam de que, em passado nem tão distante assim, as campanhas políticas em Itapetinga se desenvolviam até com maior rivalidade que as recentes, as lideranças eram bem mais marcantes e a participação de cada grupo ocorria segundo as exigências do tempo. Rádio e jornais estreavam os seus primeiros passos; panfletos, quase sempre anônimos, mas de fontes conhecidas, eram comuns, às vezes trazendo pesadas cargas de acusações aos adversários, outras tantas fazendo-lhes gozações. Televisão era invenção; sonho de consumo para conforto de poucos lares e inimaginável como recurso de comunicação de massa e ainda menos prevista como veículo de uso político. Recurso predominante e determinante do sucesso de uma campanha eleitoral eram os comícios, os palanques dominados por consagrados oradores que em seus discursos contagiavam multidões e recebiam aprovação dos partidários por prolongados aplausos que faziam tremer o chão das praças e acelerar as batidas dos corações dos adversários, que, para esconderem a preocupação, voltavam mais cedo para casa. É também deste período algumas passagens curiosas e hilariantes que enfeitam o anedotário político da cidade e que não ficariam bem encaixadas no contexto deste espaço, mas adequadas em outras páginas.

Esse tempo, se era bom ou ruim não sei, depende do posicionamento de quem o vivenciou. Sei que, historicamente, não deve ser esquecido porque, mesmo na diversidade de atuação de cada um, esta fase lançou as bases do progresso da cidade, ancorou o clima de respeito entre seus principais líderes em tudo quanto dizia respeito aos interesses de Itapetinga. Havia as naturais desavenças pessoais, mas os espaços políticos de cada corrente eram conhecidos e respeitados. As divergências eram sobretudo políticas e acidentais, de mando ou prestígio, porém bem menores que as convergências em torno do que era essencial. O grande diferencial, ressaltado por muitos que testemunharam aquele período e o atual, reside na persistência dos ressentimentos, antes superados ao final das eleições, quase sempre por iniciativa dos vitoriosos e atualmente cultivados de forma permanente pelos vencedores após o pleito e, ainda, o ostensivo uso do poder em favor de interesses de grupos, em detrimento da cidade. Uso que descamba para deslavado abuso e precisa ser contido.

A essência de uma eleição democrática está no ambiente em que ela se desenvolve e na igualdade de oportunidades oferecidas aos postulantes dos diversos cargos em disputa. Para expressar a vontade real do eleitor o voto há que ser livre e espontâneo, impedindo o abuso do poder econômico, a força do dinheiro, a manipulação da máquina administrativa em favor de certos e determinados candidatos, a violência dissimulada sob as mais diversas formas na pressão exercida sobre a extensa camada dos mais fracos.

Daí porque, abstraindo qualquer outro aspecto, aplaudo a iniciativa da Justiça Eleitoral e do Ministério Público Eleitoral desta Zona em convidarem, no início deste mês, as três coligações envolvidas na próxima disputa sucessória municipal para uma séria reflexão tanto a respeito da eleição em si e, sobretudo, quanto às condições do seu desenrolar, particularmente quanto ao uso dos recursos da propaganda eleitoral admitidos em lei, em consonância com as peculiaridades locais. O êxito da iniciativa está estampado, e, em princípio, garantido, com as assinaturas de todos os Acordantes em minucioso e bem elaborado Termo de Acordo Judicial, que, uma vez firmado, se constitui em lei, não sendo permitido alegação de desconhecimento do seu conteúdo normativo e, muito menos, o seu descumprimento.

Parece que os frutos produzidos pelo Acordo Judicial, até o momento, foram bem assimilados pelos seus signatários e melhor recebidos pela sociedade. E como acordos foram feitos para serem respeitados, melhor cumprir o acordado que lamentar o rigor da lei.

 

 

* Laécio Sobrinho é advogado

lalsoadv@hotmail.com

 

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário