Mazelas que se repetem

Mais um ano novo, problemas velhos. Os noticiários parecem repetirem-se ano após ano, enchendo nossas telas de mais do mesmo. Quem não se lembra das catástrofes naturais ocorridas no início do ano de 2011? Cidades como Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e até Salvador – embora em menor proporção – sofreram com as fortes chuvas que provocaram enxurradas letais e que desfiguraram a paisagem da região.

Há exatamente um ano, os telejornais mostraram as primeiras imagens, as primeiras informações daquela que se tornou a maior tragédia natural do Brasil. Mais de 900 pessoas morreram na Região Serrana do Rio de Janeiro. Nesta semana, os repórteres do Jornal Nacional voltaram às cidades devastadas para ver o que as autoridades fizeram, que ajuda os moradores receberam.

O repórter André Luiz Azevedo descobre, um ano depois, que o Vale do Cuiabá é um bairro-fantasma. No ano passado, o cenário em Teresópolis era de guerra. Foi como se uma avalanche tivesse atingido a região. Agora o cenário de devastação ainda é o mesmo. Nova Friburgo foi tomada por lama e muita destruição. Em alguns pontos, a lama sumiu. Mas as obras estão atrasadas.

Infelizmente, as imagens de um ano atrás são atualizadas, porque a tragédia se repete do ano anterior, dos anos anteriores e das décadas anteriores. Os políticos disseram no ano passado o mesmo que vêm dizendo nos últimos 30 anos depois das tragédias.

Pouco mais de um mês da tragédia do ano passado, em fevereiro de 2011, a Assembléia Legislativa do Rio instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as responsabilidades dos órgãos públicos sobre a tragédia na Região Serrana. Após seis meses de trabalho, o presidente da CPI, deputado Luiz Paulo (PSDB), a partir do relatório do deputado Nilton Salomão citou as principais causas da tragédia: A falta de um plano de contenção de encostas instáveis, o abandono total da política de uso do solo, onde diplomas fajutos de posse de terra eram dados em regiões de risco, a política errada de as concessionárias ligarem água e luz em imóveis que estão em área de risco e a falta de um sistema estruturado nacional de Defesa Civil profilática, preventiva, não apenas para atender mortos e feridos. Não há definições de abrigos previamente planejados, não existiam redes de radares para dar alertas às comunidades em áreas de risco. A essas causas ele acrescentou a “corrupção endêmica”, que, segundo disse, teria entre outras situações permitido a ocupação irregular de áreas de risco.

Por estes e outros motivos, tudo continua como antes. E é isso que continuamos assistindo nos noticiários. Todos os anos, principalmente no verão, as promessas de novos equipamentos e remanejamento das pessoas das áreas de risco. Verbas bilionárias para construção de muros de sustentação, barreiras para conter a força da água e até decretos de estado de emergência. Tudo se repete da maneira mais grosseira e menos responsável em igual proporção. Para os governantes a vida continua e talvez mais tragédias correspondem a novas liberações de verbas federais.

Falta coragem aos homens públicos para coibir as construções em áreas de risco e sobra neles a ganância pelos recursos públicos que deveriam garantir moradia decente e segura aos pobres coitados que se arriscam sobre os abismos da desigualdade social. O preço a pagar é alto e cai justamente nas costas dos mais desfavorecidos. Para os que perdem quase tudo nas enchentes e deslizamentos de encostas, ficam apenas as lembranças dos parentes que se foram e as mesmas promessas com novos prazos de validade. Fica também a incerteza e o jargão: “se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”.

As irregularidades climáticas que há vários anos atingem quase todo o mundo podem representar irregularidades esporádicas como as que sempre têm havido e que se repetem a cada três ou quatro décadas, mas é perfeitamente possível que já estejamos presenciando o começo da inevitável inversão climática global. O homem moderno desmonta e degrada sistematicamente a natureza, fazendo concretizar-se mais rapidamente a profecia de Antônio Conselheiro que dizia que o “sertão vai virar mar”.

A repetição das calamidades generalizadas provocadas pelas enchentes confirma o que há tanto tempo já se podia prever. Se hoje estragos são imensos e os mortos se contam às centenas, não tardará o dia em que os flagelados e os mortos totalizarão milhões. Somos incapazes de aprender com nossos erros. As advertências sempre mais dramáticas da natureza de nada valem.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

Tags: ,

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário