Matriarca de 102 anos tem sua história contada em livro feito por um dos filhos

No último dia 20, quinta-feira, a senhora Tercília Bispo dos Santos comemorou em família seus 102 anos de existêcia. A matriarca é mãe de nove filhos e ainda tem o aconchego de seis deles por perto, além de um número grande de netos e bisnetos. Muito querida por familiares e amigos, D. Tercília foi surpreendida no dia de seu aniversário com um presente do filho José Bispo, contador, que escreveu um livro intitulado “Tercília Bispo, exemplo de fé e coragem”, onde conta um pouco da luta de sua mãe que ficou viúva e deu conta com muita luta para criar os filhos e os encaminhar na vida.

Como forma de também presentear D. Tercília, o Dimensão conta um pouco de sua história na versão de seu flho José Bispo:

 

Tercília Bispo, um exemplo de fé e coragem

 

‘‘Ela nasceu em 20 de setembro de 1910, na cidade de Maracás – Bahia, filha de Henrique Nascimento Santiago e Sancha Maria do Nascimento, casada com Alfredo Bispo dos Santos. Pela graça e misericórdia de Deus Crente Evangélica, batizada em 17 de fevereiro de 1955, pelo Pastor João Moreira, (Primeira Igreja Batista de Itapetinga), da qual é membro até hoje. Deste casamento nasceram-lhe nove filhos, Benice (in-memorian), Senhorinha (in-memorian), Egídio, Antônio, José Bispo, Jairo (in-memorian), Almira, Maria e Elizabeth, nascidos no município de Jaguaquara, com exceção de duas, Elizabeth e Marta, que nasceram aqui em Itapetinga.

Na região em que morávamos, existia um cidadão chamado Florentino, conhecido como ´Milozinho´, um homem crente, que além da sua profissão de vendedor de medicamentos da homeopatia, dedicava parte de sua vida como evangelista, cuja Igreja que fazia parte, me lembro, todos os domingos, meu pai e minha mãe, andavam várias léguas para assistir à Escola Bíblica Dominical. Este cidadão, no ano de 1950 veio a Itapetinga participar de um encontro de Evangélicos, na primeira Igreja Batista. Conheceu aqui na Igreja, um pecuarista, chamado Aquilino de Souza Brito, e começaram a conversar sobre fazendas, terras, bovinos e aproveitando a oportunidade, falou sobre a habilidade que meu pai tinha em lidar como trabalhador de fazendas, usando até um termo para o Sr. Aquilino que meu pai era um leão como trabalhador braçal. Logo o Sr. Aquilino Brito se interessou em tê-lo como empregado em sua fazenda.

Ao retornar para Jaguaquara, o Sr. Milozinho comentou o fato para meu pai, demonstrando ele grande interesse em vir para Itapetinga. Meu pai em Jaguaquara não trabalhava de empregado, tinha a sua roça própria de onde tirava o sustento da família e tinha um contrato com um proprietário de uma fazenda chamado Everaldo de Souza Santos, um dos tios do Dr. Settímio Orrico, na colheita de café, cabendo a participação com 50% para cada um.

Logo meu pai vendeu sua roça, vendeu um cavalo e um jumento que possuía, desse negócio apurou a quantia de Cr$. 3.800 (três mil e oitocentos cruzeiros), ficando assim decidido a transferência de imediato para a cidade de Itapetinga”.

 

Chegada em Itapetinga

“Meu pai alugou um caminhão. A este dava-se o nome de ´pau-de-arara´ e juntamente com quatro famílias, inclusive a do Sr. Milozinho, viemos para Itapetinga. No dia 03 de novembro de 1950, desembarcamos na Praça Guilherme Dias, praça esta onde se encontra construída a Concha Acústica, não sei precisamente a que horas, sei que era noite, ficamos ali por três dias em uma casa cedida por um cidadão chamado Manoel Francisco de Almeida, o popular Manoel Quiabo. Passado este período, fomos surpreendidos por um cidadão com vários animais arriados, dali fomos levados para uma fazenda as margens do Rio Pardo, de propriedade de um fazendeiro chamado Aquilino de Souza Brito.

Naquela fazenda passamos cerca de nove meses, mas o desejo de meu pai era sempre levar sua família, para um lugar mais próximo da cidade, onde esses meninos poderiam estudar. Foi quando ele procurou o Sr. Aquilino Brito para falar da sua intenção. Após meu pai fazer o comentário sobre o seu desejo, com o Sr. Aquilino Brito, ele respondeu o seguinte: “o senhor não vai sair daqui para a fazenda de qualquer um não, vou lhe indicar um fazendeiro amigo nosso, um lugar mais próximo da cidade, com apenas oito quilômetros de distância da cidade.”

Transferência da família para outra fazenda:

Dali fomos transferidos par a Pirangaba, a uma fazenda de propriedade de um cidadão chamado Ozéas Pio, lugar mais próximo da cidade. Este cidadão era um homem crente e nos ensinou os primeiros passos a respeito da vida com Jesus Cristo. Lembro-me dos cuidados que aquele fazendeiro tinha para com nossa família. Sempre reunia com sua numerosa família, em número de dez pessoas, juntamente com a nossa, cujo número também era dez, para fazermos o chamado culto doméstico; me lembro de um rádio existente na sua fazenda, alimentado por uma bateria de automóvel, que todas as sextas, éramos convocados a nos reunir à sua volta, para assistir um programa evangélico a mensagem de um pastor do Rio de Janeiro.

Ali passamos mais ou menos um período de dois anos e meio. Foi quando o Sr. Ozéas Pio, foi convidado para assumir a gerência da Empresa Garota de propriedade da família do Dr. Roberto Santos, na região de Potiraguá. Vendendo aquela propriedade, para um cidadão chamado Aureliano Coelho, o Sr. Ozéas Pio, chamou o novo proprietário daquela fazenda e disse: “Tem aí esta família muito numerosa, eles têm uma área de terra plantada e é desta área de terra que eles tiram o sustento para se manter.” Como a roça não estava ainda na época da colheita, o Sr. Ozéas Pio sugeriu aquele novo proprietário da fazenda que meu pai permanecesse ali por algum tempo até que fosse terminado toda a colheita.

A reação daquele cidadão foi imediata, dizendo que só receberia aquelas terras por ele adquiridas, se fossem retirados todos os moradores anteriores à sua família. Porém, propôs ao meu pai indenizar todo aquele plantio feito naquelas terras. Depois de ter feito os acertos e pago o valor combinado, meu pai, de imediato veio a Itapetinga, comprou uma meia água na rua Brumado, ampliou esta meia água, e nós passamos a residir em Itapetinga, local este onde minha mãe reside até a data de hoje. (…)

 

A luta da família para sobreviver com dignidade

Minha mãe ficou viúva com quarenta anos de idade, oito filhos pequenos, todos menores de idade, eu me recordo que todos nós procurávamos desenvolver algumas atividades de acordo com a sua faixa de idade. Egídio, o filho mais velho, começou a vender leite de porta em porta, montado em um jumento para um fazendeiro chamado Mariano Campos. As duas filhas mais velhas Senhorinha e Almira, iniciaram suas atividades apreendendo a profissão de doméstica; eu e Antônio, ele com onze anos, eu com dez, fizemos com as nossas próprias mãos, dois carrinhos de mão e todos os dias descíamos para o mercado municipal, fazendo uma espécie de frete no carregamento de feira para vários moradores desta cidade. Aquele dinheiro arrecadado no final da tarde, era entregue todo para nossa mãe para ser usado na compra de alimentos.

Minha mãe começou a lavar roupa para diversas famílias de Itapetinga, principalmente famílias da Primeira Igreja Batista. Posso citar aqui algumas delas, como a família de dona Hermínia Brito, Adair Costa, Maria Coutinho, dona Edla, a família do Sr. Francisco Vital e, outras famílias não ligadas a Primeira Igreja Batista.

 

Quem era meu pai?

Gostaria também de nesta edição comentar aqui um pouco sobre a vida de meu pai. Era um homem honesto, um pai exemplar, sério, de palavra firme, era um tipo de cidadão que se fizesse um acerto com qualquer pessoa e descobrisse alguma falha por parte dele, dizia para aquele cidadão: – “Olhe, o nosso acerto será desfeito aqui, eu gosto de honrar a minha palavra, porém, o senhor não honrou a sua.”

Era assim, um homem correto em todas as suas transações, amava os filhos e os defendia em todas as circunstâncias. Analfabeto, porém desafiava qualquer cidadão que pegava em um lápis para fazer qualquer tipo de contas e mesmo em relação a qualquer cálculo de terras, ele já tinha em sua mente aquele resultado. Nós descobrimos que nosso pai quando optou para vir a Itapetinga, era única e exclusivamente para ver estes meninos em uma sala de aula. Nada queria em benefício dele, meu pai lá em Jaguaquara, como disse anteriormente, não trabalhava de empregado, tinha a sua roça própria, de onde tirava o sustento da família’’.

 

O livro contém ainda importantes depoimentos de amigos e familiares de D. Tercília, que fizeram questão de ressaltar suas qualidades, a exemplo do Pastor Samuel Santos, que diz: ‘‘”O livro nos faz a grata surpresa de revelar a brava e heróica lutadora que, com coragem e fé batalhou contra as adversidades da vida para construir uma família. Batalhou e venceu”.

Que as batalhas continuem e as vitórias também, D. Tercília! Parabéns!!!

 

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